Poder e Governo

Efeito Flávio emperra salto do PSD, que tem candidatura própria sob pressão e dificuldades para alinhar palanques

PL tenta convencer partido a desistir do Planalto para somar forças contra Lula, mas há resistência

Agência O Globo - 19/03/2026
Efeito Flávio emperra salto do PSD, que tem candidatura própria sob pressão e dificuldades para alinhar palanques
Efeito Flávio emperra salto do PSD, que tem candidatura própria sob pressão e dificuldades para alinhar palanques - Foto: Reprodução / Instagram

Enquanto as últimas pesquisas eleitorais mostram uma consolidação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como os principais nomes da disputa presidencial, nenhum dos três pré-candidatos do PSD apontou pelo presidente da sigla, Gilberto Kassab, conseguiu dar sinal de que virá competitivo para a eleição.

A sigla de Kassab deverá anunciar o governador do Paraná, Ratinho Júnior, como pré-candidato a presidente na semana que vem. O próprio anúncio foi feito internamente na legenda e por outros partidos como um recálculo de rota feito por Kassab.

Há um entendimento de que Kassab trabalhou para antecipar a escolha da definição diante do avanço de Flávio nas pesquisas.

O presidente do PSD disse inicialmente que anunciaria o escolhido apenas no dia 15 de abril, mas a data foi antecipada.

Em relação às alianças feitas pelo PSD nacionalmente, ainda não há acordos avançados com nenhum partido e também não há perspectivas de alianças para garantir palanques regionais.

A interlocutores, Kassab minimiza o cenário e diz que os acordos começarão a ser definidos quando o partido definir quem será o candidato. Além de Ratinho, o partido também contou com os governadores Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) como opções.

O candidato do PSD já resultou em desvantagem em relação a Lula e Flávio e corre o risco de ele ficar sem palanque nos principais colégios eleitorais do país. O PSD do Rio e da Bahia, por exemplo, são próximos de Lula. Já o PSD de Minas está próximo do bolsonarismo.

Até São Paulo, estado de Kassab, não há palanque porque lá o partido apoia o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que dará sustentação para Flávio. Recentemente, o PL do Paraná também recuou do apoio ao PSD e fechou aliança com Flávio Bolsonaro.

Há uma tentativa do PSD de firmar uma aliança nacional com o MDB e também com os Republicanos, mas também não há acordo definido. Dentro dos Republicanos o entendimento é que um acordo com o partido hoje não é prioridade.

Já no MDB há uma aproximação entre as cúpulas nacionais das legendas, mas o próprio comando da sigla diz que o partido tem as diversas e não há decisão tomada.

Em evento em São Paulo no fim da semana passada, Kassab minimizou as dificuldades.

– Não é nossa prioridade as alianças. Temos aliados, partidos que pensam de uma maneira mais próxima, que priorizam os nossos programas. Vamos estar atentos às alianças, mas sabemos que o quadro partidário, ele é muito difuso, cada um com seus interesses, candidatos, assim como nossos candidatos

Mesmo entre os pré-candidatos do próprio PSD há aproximação com Flávio. Caiado e Ratinho já tiveram o PL como base em seus estados, ainda que hoje enfrentem dificuldades para aliança com o partido. Há uma expectativa de que os dois possam se comparar com Flávio em um segundo turno contra Lula, mesmo com as dificuldades locais. Leite é o único que não tem proximidade com o bolsonarismo.

Em relação ao Ratinho, no entanto, há um fator complicador. Embora não descarte ainda um apoio, com a aliança com o PL rompida para eleição estadual, aliados do governador dizem que um eventual acordo com Flávio no segundo turno é indefinido.

O governador também ficou insatisfeito com o fato do ex-presidente Jair Bolsonaro ter apoiado uma candidatura adversária na eleição em Curitiba em 2024.

A campanha de Flávio tentou um acordo para atrair Ratinho e Caiado e usou a força do PL nos estados para forçar uma aproximação nacional no primeiro turno.

Em Goiás, Caiado apoia o vice-governador Daniel Vilela (MDB) como seu candidato à sucessão. Um dos principais concorrentes do emedebista na disputa deverá ser o senador Wilder Morais (PL), que já provocou baixas nas fileiras emedebistas ao retirar Ana Paula Rezende, filha do ex-governador Iris Rezende, das fileiras do MDB. Ela se filiou ao PL e deve servir a Wilder.

Flávio tentou um acordo para PL e Caiado ficarem juntos em Goiás e na eleição nacional, mas ainda não há sinal de recuo na decisão do PL em ter candidatura própria no estado.

Por sua vez, no Rio Grande do Sul, o PL lançou o deputado Zucco como candidato a governador. Ele conseguiu enfraquecer a base de apoio de Eduardo Leite, que tenta emplacar o vice Gabriel Souza (MDB) para o governo do estado. A provável futura federação União Brasil-PP, por exemplo, tem ameaçado não apoiar Souza e se juntar a Zucco. O PP já decidiu que ficará com Zucco e não com o candidato de Leite.

Se no segundo turno, Caiado e Ratinho acenam com um apoio a Flávio, Leite está mais distante do bolsonarismo e não tem dados sinais em dar palanque para o PL em nenhuma circunstância.

Ao mesmo tempo em que o PSD ainda não define quem será o candidato a presidente, o PL tenta avançar para se consolidar como única opção da direita.

Ainda que uma federação que deverá ser formada entre União Brasil e PP não tenha definido sua posição no pleito, o presidente do PP, Ciro Nogueira, tem participado das negociações envolvendo a campanha de Flávio e traçado planos de quem poderá ser seu candidato a vice.

Ciro chegou a sugerir, em um encontro com Ratinho Júnior, que ele se tornou vice de Flávio. A avaliação é que Ratinho é o mais forte entre os postulantes do PSD e teria que contribuir se forças unidas com o PL contra Lula, em vez de se lançarem se formassem separadas.

Kassab, no entanto, tem resistido a apoiar o senador do PL e mantém o plano de ter candidatura própria.

Um encontro entre Ratinho e o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RJ), coordenador da campanha de Flávio, também foi marcado para tratar do palanque no Paraná e, na conversa, Ratinho também foi sugerido como vice de Flávio.

O PL tentou pressionar o governador do Paraná a desistir da candidatura presidencial e dar um palanque para Flávio no primeiro turno. Em troca, Ratinho teria o apoio do PL na disputa para a sucessão no estado.

O governador do Paraná disse que não desistiria de ser candidato a presidente e, consequentemente, o PL decidiu apoiar o senador Sérgio Moro (União Brasil) para governador, que será adversário do candidato do PSD no Paraná