Poder e Governo

PT tenta aproximação com Marconi Perillo para palanque de Lula e diálogo com o agro em Goiás

Ex-governador mantém cautela sobre o impacto que eventual aliança teria em sua base eleitoral após anos de oposição ao petismo

Agência O Globo - 19/03/2026
PT tenta aproximação com Marconi Perillo para palanque de Lula e diálogo com o agro em Goiás
Marconi Perillo - Foto: Reprodução

Ainda sem a chapa definida para concorrer ao governo de Goiás nas eleições deste ano, o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) é sondado pelo PT para compor uma aliança política mais robusta no estado. Adversários por mais de duas décadas, ambos os lados enfrentam um cenário adverso em meio ao protagonismo do vice-governador Daniel Vilela (MDB), candidato à sucessão do governador Ronaldo Caiado (PSD), e do senador Wilder Morais (PL), pré-candidato ao cargo com endosso da família Bolsonaro.

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A tentativa do PT ocorre em meio à aposta pelo isolamento de Perillo, para avaliar que o voto "mais radicalizado" ficará com Vilela ou Wilder. Ao mesmo tempo, enquanto os petistas amargam maus resultados nos últimos pleitos em Goiás, o desejo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de lideranças nacionais da sigla é formar um palanque forte no estado, considerado estratégico para tentar dialogar com o agronegócio, o que poderia ser conquistado com a oficialização da aliança.

Em 2022, a aproximação já havia sido desejada por Lula, mas Marconi optou por não aderir. Ex-governador com quatro mandatos, o tucano se distribuiu como um dos grandes quadros nacionais do PSDB na época em que o partido era o principal rival do PT no país, o que mantém o sentimento antipetista presente entre seus apoiadores mais tradicionais.

A relação é considerada “respeitosa”, mas, devido ao histórico de distanciamento, Marconi mantém cautela sobre o impacto de uma eventual aliança em seu eleitorado:

— O meu problema maior (em se juntar ao PT) não é pessoal, não é partidário, não é político. É mais ideológico e eleitoral. Eu não tenho nenhum problema com essas pessoas. Eu só tenho problema pessoal com o Caiado — afirma Marconi.

A articulação no estado é liderada pela deputada federal Adriana Accorsi, vice-líder do PT na Câmara e presidente do diretório local. Ela tem uma boa relação com o ex-governador e, em 2011, foi nomeada por ele para o cargo de delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, sendo a primeira mulher a ocupar o posto. Accorsi é uma das cotadas para ser indicada ao governo caso o partido decida lançar uma candidatura própria, embora seu desejo seja mantido no Congresso Nacional.

Recentemente, Marconi teve perdas significativas no PSDB. No início deste mês, a deputada federal Lêda Borges deixou o partido após 20 anos de filiação e declarou apoio a Vilela. Já em janeiro, a vereadora de Goiânia Aava Santiago saiu para assumir a presidência do núcleo local do PSB. Um parlamentar, que é evangélico, chegou a integrar a equipe de transição de Lula em 2022, já foi recebido pelo petista no Planalto e é considerado um nome nacionalmente relevante para fomentar o diálogo do presidente com os segmentos religiosos.

Cenário adverso

O ex-governador goiano vem de duas tentativas fracassadas de se eleger ao Senado. Em 2018, amargou um quinto lugar com 7,55% dos votos. Na disputa seguinte, com uma candidatura mais forte, mas concorrendo de forma avulsa, ele marcou 19,80% e ficou atrás justamente de Wilder, eleito com 25,25% dos votos.

Em relação aos seus concorrentes neste pleito, Marconi critica a definição antecipada das composições políticas e defende "não haver pressa". No último sábado, em Jaraguá (GO), o vice-governador Vilela oficializou sua pré-candidatura ao governo em meio ao lançamento de quatro pré-candidatos ao Senado em sua base: Gracinha Caiado (União), Alexandre Baldy (PP), Zacharias Calil (MDB) e Vanderlan Cardoso (PSD).

— Houve uma concorrência muito grande entre outros candidatos. Não acho prudente que seja feito assim, porque não há pressa — diz Marconi. — Sou candidato por várias razões. Primeiro, para continuar fazendo o melhor pelo estado, com um bom plano de governo. Depois, porque não posso deixar que o Caiado construa a narrativa final da minha biografia. Não vou deixar — completo.

Ao ser eleito no primeiro turno em 2018, o grupo de Caiado interrompeu duas décadas de comando de Marconi no estado. O ex-governador venceu pela primeira vez em 1998 e, quando saiu em 2006, conseguiu eleger seu vice Alcides Rodrigues como sucessor. Já na disputa seguinte, em 2010, ele retornou ao cargo e foi novamente reeleito em 2014. Quatro anos depois, no entanto, seu vice José Eliton foi derrotado. Ao assumir o cargo, o atual governador já chegou a chamar Marconi de “chefe de quadrilha” e definindo seu governo como “corrupto” e baseado no “podridão”.

Antes de Caiado, os principais adversários de Marconi eram Iris Rezende e Maguito Vilela, do PMDB, que concorreram contra ele tendo o apoio de Lula. Maguito é pai de Vilela, candidato de Caiado, enquanto filha de Iris Rezende, Ana Paula Rezende, será vice de Wilder.

— Os candidatos do PT, historicamente, não têm um desempenho elevado. O melhor foi em 2002, de Marina Santana, que teve quase 16%. Depois, esteve coligado duas vezes e, nas outras três, teve desempenho de 10%, 9% e 7%. Não tem ramificação no interior que dê sustentação. Uma candidatura própria seria somente para garantir o palanque a Lula — à disposição do vereador Edward Madureira (PT), segundo mais votado de Goiânia.

Cotado ao Executivo, Madureira decidiu insistir por uma vaga na Câmara dos Deputados, pois acredita ter "chance reais de ser eleito, apesar de não ser fácil". Outro nome pensado para integrar a chapa, mas para concorrer ao Senado, Aava também pretende manter sua pré-candidatura a deputada federal.

— Eu não vejo que seja o momento agora. E eu acredito muito que tenho o civilizatório para entregar uma bancada progressista maior para os desafios que o Brasil vai ter — diz. — Os debates na Câmara serão travados de uma maneira mais beligerante, então, aumentar a bancada do presidente Lula é um dos desafios que assumo aqui.

Em 2005, no auge da crise do Mensalão, Marconi invejou uma carta ao Conselho de Ética da Câmara na qual dizia ter contado a Lula sobre a existência de "rumores de mesada a parlamentares" durante um evento em Rio Verde (GO). No ano seguinte, um mês de eleições, o ex-governador voltou a afirmar que Lula não poderia alegar desconhecimento do esquema e, quando foi avisado, teria dito aqui para que cada um "cuidasse de seus próprios deputados".