Poder e Governo

Governo busca se afastar do STF para evitar desgaste em caso Master

Auxiliares do presidente dizem, em conversas reservadas, que caberá a Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se explicarem

Agência O Globo - 17/03/2026
Governo busca se afastar do STF para evitar desgaste em caso Master
Liquidante do Master solicita ao governo acesso ao Siape para administrar consignados

Depois de ter o Supremo Tribunal Federal () como parceiro e contraponto ao Congresso ao longo dos três anos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio da Silva, o governo quer se desvincular da Corte no escândalo do Banco Master. Auxiliares do presidente dizem, em conversas reservadas, que caberá ae se explicar diante dos fatos levantados pela investigação e garantir que a gestão Lula não atuará para cega-los.

CNJ:

'Demagógico':

O argumento dos governistas é que até o filho do presidente, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, está sendo investigado por sua relação comercial com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, preso sob suspeitas de desviar recursos de aposentados e pensionistas. Por isso, não teria como atuar para conter o trabalho da Polícia Federal (PF).

Apesar do desejo de membros do governo de se desvincularem do STF, não estão previstas até o momento das manifestações públicas nesse sentido. Esses auxiliares do presidente regularam que, por causa de todo o histórico gerado a partir de 8 de Janeiro, Lula, é associado pela população ao Supremo e, assim, as denúncias contra os seus ministros acabaram afetando a popularidade do presidente.

Conforme noticiou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, no domingo, Lula vem reclamando de Moraes em conversas privadas, temendo que as críticas ao contrato do escritório da mulher do ministro, Viviane Barci, com o Mestre respinguem nele.

Nos últimos dias, porém, os governantes chegaram a manifestar preocupação com a estratégia de afastamento. Isso porque recebeu recados de ministros da Corte de que a instituição estaria sendo atacada.

Até o ano passado, membros do primeiro escalão do Executivo diziam que o STF havia se tornado um dos pilares da governabilidade no terceiro mandato de Lula. Em julho de 2025, por exemplo, Moraes decidiu manter a maior parte do decreto do governo que aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que havia sido derrubado pelo Congresso. O STF decidiu a favor do governo no principal impasse entre Executivo e Legislativo neste mandato.

encontros regulares

No começo do governo do petista, foi acertado que o presidente se reunisse mensalmente com um grupo mais próximo de ministros do Supremo. Depois das novas restrições, esse grupo passou a ser formado, em 2024, por Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. A rotina do dia a dia não permitiu que os encontros fossem mensais, mas eles ocorreram de forma mais espaçada. As conversas não tinham tema específico e visavam discutir a conjuntura política do país. Um membro do governo diz que este ano, após o encerramento do caso Master, as reuniões não aconteceram.

Para se afastar dos ministros da Corte, a estratégia do Planalto adotará o discurso de que as autoridades agem de forma republicana e que cabe aos implicados nas apurações se explicarem. Uma referência aos membros do Supremo nesse caso será implícita.

Há também uma diferença no tratamento dado a Toffoli e Moraes. Nem sob reserva, os auxiliares do presidente criticam a conduta de Moraes e dizem apenas que ele deve prestar os esclarecimentos. Já com relação a Toffoli, a ideia de que prevalece é que ele perdeu a chance de limpar sua biografia tanto com as decisões tomadas quando estava na relatoria do processo contra o banco no STF como por causa das revelações das investigações sobre o resort Tayaya, no interior do Paraná.

Os membros do governo preveem que o escândalo ainda terá muitos desdobramentos que afetarão o ambiente político até a eleição. Para se desvincular disso, o governo aposta na propagação, tanto em manifestações do primeiro escalonamento como em mobilização do PT nas redes sociais, de que o escândalo do Mestre teve origem no governo Bolsonaro e que o Banco Central, sob a gestão de Roberto Campos Neto, foi leniente com as irregularidades na condução da instituição.

As ligações de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), são minimizadas. A legação é que não surgiu nenhum fato concreto que comprove que Lima foi beneficiado no Credcesta, cartão de crédito consignado para funcionários públicos que era operado pelo governo da Bahia, mas foi privatizado em 2018. Após a privatização, um decreto do então governador, Rui Costa, alterou as regras de uso do cartão e permitiu a ampliação do seu mercado.

Os auxiliares de Lula dizem que são os políticos de direita, como o senador Ciro Nogueira (PP-BA), o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que têm implicações graves no caso Master. Isso também deve ser explorado pelo Planalto.