Poder e Governo

Aliados de Lula questionam comunicação do governo e pressionam por ataques a Flávio Bolsonaro

Crescimento do senador nas pesquisas de intenção de voto preocupa integrantes do governo, que cobram mudança de estratégia de Sidônio Palmeira

Agência O Globo - 15/03/2026
Aliados de Lula questionam comunicação do governo e pressionam por ataques a Flávio Bolsonaro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os resultados das últimas pesquisas eleitorais acirraram os questionamentos entre aliados do presidente Luiz Inácio da Silva e integrantes do governo sobre a estratégia de comunicação do Palácio do Planalto. Diante das projeções que apontam um empate técnico na disputa com (PL-RJ), a ideia de priorizar a divulgação de entregas do terceiro mandato é compreendida por ministros mais à esquerda e petistas como insuficiente.

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Caso Master:

Para o grupo de insatisfeitos, a tática de evitar, por ora, ataques mais enfáticos a Flávio passou a ser considerada um erro. Um diagnóstico, porém, é comum entre aliados. Ministros do Centrão, aliados de partidos da base e integrantes da cúpula do PT ouvidos pelo GLOBO admitem que a aposta do ministro Sidônio Palmeira, da Comunicação Social, de focar apenas na divulgação de pautas positivas ainda não decolou.

Uma delas, a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR), não se traduziu em números positivos na popularidade de Lula, fato que preocupa para a corrida eleitoral. Sidônio, ao lado do publicitário Raul Rabelo, irá pilotar o marketing da campanha. No momento, ele adota uma abordagem cautelosa, evitando apelar à desconstrução de Flávio.

‘Ataque e engajamento’

Parte dos governistas acha que é necessário partir para o ataque agora. Essa ala vê a estratégia de comunicação como defensiva e sustenta a necessidade de maior engajamento da militância contra o bolsonarismo.

As pesquisas que mostraram empate entre Lula e Flávio chacoalharam a cúpula do PT. Uma delas foi o levantamento da Genial/Quaest, divulgado na quarta-feira, que mostrou ambos com 41% das intenções de voto nas simulações de segundo turno. Em dezembro, o petista tinha dez pontos percentuais de vantagem.

Integrantes da executiva fazem uma mea culpa e consideram que o governo e o PT ficaram tempo demais na dúvida se o candidato era o governador de São Paulo, , ou Flávio — segurando embate direto. Agora seria, portanto, necessário ajustar a rota.

Da parte do PT, a reação estará na rua nos próximos dias, com material nas redes sociais contra Flávio e forte mobilização das bancadas e dos movimentos sociais. Petistas afirmam que a ideia é “mobilizar a tropa para um estado permanente de campanha”.

Na visão desses aliados de Lula, o senador tem uma série de vulnerabilidades que podem e devem ser exploradas. Entre elas, estão a suspeita de seu envolvimento com rachadinha, a investigação sobre sua sociedade em uma loja de chocolates e a compra de uma mansão de R$ 5,9 milhões em Brasília.

— Não creio ser conveniente fazer os ataques como eles fazem, mas como elemento de defesa talvez seja necessário fazer um contraponto. Flávio tem a questão da mansão, dos imóveis comprados com dinheiro vivo, da rachadinha. O que não falta ali é telhado de vidro — afirma o líder da maioria, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Reservadamente, um ministro se diz preocupado com o fato de Flávio tentar se vender como candidato moderado sem que o PT faça um contraponto direto.

Integrantes desse grupo elogiam, por exemplo, a recente manifestação do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, , ao comparar as reações de Lula e Bolsonaro diante de investigações sobre seus filhos.

— Quando o filho do Lula foi citado em uma investigação, o presidente (Lula) chegou e disse: “investiga”. Quando o filho do Bolsonaro, que agora é candidato a presidente, estava sendo investigado por associação com a milícia e rachadinha, (Jair) disse que ia trocar o diretor da PF — disse Boulos.

Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é investigado pela Polícia Federal (PF) pela suposta parceria com um dos protagonistas do escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias, o Careca do INSS.

Do outro lado, defensores da estratégia de Sidônio dizem que, quando a campanha de fato começar, com inserções de TV e rádio divulgando medidas como o IR, Lula tende a crescer.

Um ministro filiado a partido de centro argumenta, sob reserva, que o filho de Bolsonaro tem “telhado de vidro baixo” e será um candidato menos difícil de enfrentar do que Tarcísio.

Nessa leitura, abrir fogo contra Flávio agora, antes do período de desincompatibilização, em abril, daria brecha para a substituição, o que não seria conveniente para Lula e tornaria a disputa ainda mais acirrada.

— Não tem o que fazer agora, porque Lula tem um limite (de crescimento) e o PT nunca ganhou em primeiro turno. É preciso descobrir o que seria algo que colaria no Flávio. O governo tem que se preocupar com a estabilidade do país e Lula nem pensar em entrar nessa briga — afirma o líder do PSB na Câmara, Jonas Donizette (SP).

No Congresso, esse é o pensamento de parlamentares de centro-esquerda.

— Não adianta bater no Flávio, porque vai agradar só sua bolha e não os indecisos. A disputa não será por conteúdo, e Lula sabe muito bem disso, mas qual deles trabalha melhor a empatia com o eleitor — avalia o líder do PDT, Mário Heringer (MG).

Agenda positiva

O Planalto não prepara o lançamento de um programa específico para fazer frente ao crescimento de Flávio, mas planeja expor mais Lula a agendas positivas.

Está na mesa, por exemplo, a entrega de residências do Minha Casa, Minha Vida, nos próximos dias, com a participação de Lula e de ministros em diferentes cidades. Também há uma discussão se o governo deve ou não propagar que o governo que investigou o escândalo do Master, via Banco Central e Polícia Federal.

— A desconstrução da candidatura de Flávio vai se dar na comparação entre o governo Bolsonaro e o de Lula, em saúde, ciência, redução da desigualdade, aumento do salário mínimo e programas sociais. Aos poucos, a sociedade vai perceber a estatura pequena dele — diz o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC).

Pontos que geram questionamento

Ataques a Flávio Bolsonaro: O momento para iniciar ataques mais diretos ao senador, principal adversário de Lula no pleito, opõe integrantes do governo. Uma ala avalia ser melhor esperar até abril, diante da possibilidade de uma substituição da candidatura; outra vê Flávio já consolidado e diz que é necessário partir para o ataque.

Aposta na isenção do IR: Um foco de questionamento é a aposta de que a ampliação da isenção do IR poderia alavancar a popularidade de Lula, o que ainda não aconteceu. Defensores da estratégia dizem que, com inserções de TV e rádio divulgando a medida, o petista tenderia a crescer, mas por enquanto há recuo na aprovação da gestão.

Efeito Lulinha Aliados do presidente críticos à atuação de Sidônio avaliam a estratégia de comunicação do governo como defensiva e reativa. O temor é que o caso envolvendo a investigação da relação entre Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho de Lula, e Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, gere desgastes.

Vincular Master à oposição: Outra frente de preocupação é o caso Master. A avaliação é que o governo tem tido dificuldade em relacionar o escândalo à oposição, mesmo diante do fato de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ter sido o principal doador das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio em 2022.