Poder e Governo
Troca de Tarcísio na Segurança fortalece Nunes e expande programa de câmeras na capital paulista
Com delegado amigo no cargo, governo do estado pretende integrar centro de operações no antigo prédio dos Correios e financiar instalação de 20 mil novos equipamentos
A saída antecipada de (PP) do posto de secretário estadual de Segurança Pública de São Paulo ampliou a influência na pasta do prefeito da capital paulista, (MDB), outro aliado do governador (Republicanos). Um dos reflexos dessa mudança deve ser a política de parcerias com o "Smart Sampa", sistema de monitoramento por câmeras com reconhecimento facial que virou a principal vitrine do mandato do emedebista.
No mês passado, , o governador afirmou que deve financiar a instalação e o gerenciamento dos equipamentos junto com a prefeitura de São Paulo a partir da inauguração de um "quartel general integrado" no antigo prédio dos Correios, na Avenida São João. A troca serviria, por exemplo, para unir esforços das corporações, inclusive a Polícia Militar, distante nos tempos de Derrite.
O GLOBO apurou que esse investimento deve ocorrer por meio da instalação de 20 mil novas câmeras apenas na capital, mais 3,5 mil para o interior paulista. A estruturação do projeto já foi solicitada internamente pelo novo secretário, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, que tem boa relação com o prefeito. O reforço ajuda na meta da prefeitura de chegar a 200 mil câmeras ativas até 2028, entre equipamentos públicos e estabelecimentos privados. Atualmente, segundo a pasta, está em 40 mil.
Segundo uma fonte diretamente envolvida no acordo, mas que prefere não ser identificada, o governo Tarcísio entende ser necessário uma participação maior no "Smart Sampa" a partir do momento que essa nova sede estiver em funcionamento. Derrite, por sua vez, atribuiu a medida à abertura de fontes de financiamento dentro do orçamento do estado. Ele e o prefeito negaram qualquer tipo de atrito.
Existe ainda um retorno eleitoral, sobretudo diante da perspectiva de que o principal adversário de Tarcísio nas urnas deverá ser o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). A candidatura do petista, segundo aliados do governador, deve levar a uma disputa mais acirrada na capital paulista, onde a vantagem do incumbente nas pesquisas é menor do que no interior do estado.
A prefeitura pretende migrar, nas próximas semanas, o centro de operações para o prédio dos Correios, cedido gratuitamente pela empresa em maio de 2025. O espaço de 11 mil metros quadrados deve operar, além do "Smart Sampa", o monitoramento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) e da SPTrans, sob responsabilidade da prefeitura, e o trabalho de inteligência das polícias, do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil. A previsão é de que funcione 24 horas por dia, o que autoriza a exibição de outra marca, o "SP24".
Relação conturbada
A parceria entre a gestão estadual e municipal destoa da relação mantida anteriormente por Nunes e Derrite, quando ele estava à frente da pasta. Nos bastidores, era nítido que havia atritos entre os dois, o que envolve desde rumores de que o deputado federal teria trabalhado contra o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro e do PL à campanha de reeleição do prefeito, em 2024, até a disputa pelo protagonismo nos programas de monitoramento por câmeras.
O estado conta com uma iniciativa similar ao "Smart Sampa", conhecida como "Muralha Paulista". A boa aceitação do programa junto à população levou os dois a buscarem os louros da captura de foragidos nas redes sociais, com publicações quase diárias. Fora do ambiente digital, um integrante da prefeitura menciona que Derrite jamais fez uma visita ao centro de operações da capital, apesar de membros da Polícia Civil utilizarem o sistema e dezenas de autoridades, incluindo representantes do interior paulista e de outros estados, terem conhecido o espaço.
Os dois estiveram cotados, ao longo de meses, para disputar à sucessão de Tarcísio em São Paulo caso o governador optasse por concorrer contra Lula (PT) a presidente da República. A possibilidade, contudo, passou a ser considerada improvável depois que Jair Bolsonaro, condenado e preso por golpismo, indicou Flávio Bolsonaro (PL), senador pelo Rio de Janeiro, para representá-lo nas urnas e pesquisas eleitorais demonstrarem que se trata de um nome competitivo.
Derrite contestou essas informações em conversa com o GLOBO. O ex-secretário declarou que nunca quis ser candidato a prefeito de São Paulo, mesmo quando o ex-presidente Jair Bolsonaro o questionou sobre a possibilidade, e que o fato de Tarcísio anunciar investimento agora no programa de monitoramento da capital se deve, provavelmente, à disponibilidade de recursos com o novo orçamento anual. Derrite acrescentou ainda que gosta de Nunes e que existiram parcerias anteriores.
— Só existe o Smart Sampa porque existe o Muralha Paulista. Antes da integração com a base de dados estadual, a média de captura era de 30 foragidos por mês, depois ela aumentou em mais de 10 vezes. São Paulo foi um dos primeiros municípios a serem integrados — argumentou ele.
Sobre o fato de não ter visitado o centro de operações do programa paulistano, Derrite disse que tinha 120 mil policiais para cuidar quando era secretário, recebia muitas ligações e não tinha o perfil de "ficar tirando fotinho". Afirmou ainda que adotou a postura, na eleição de 2024, de não participar de campanha eleitoral alguma. Procurado, Nunes se limitou a dizer que esses fatos não procedem.
Dupla midiática
Fontes da prefeitura e do Palácio dos Bandeirantes afirmam que o convívio agora é outro com o novo titular da pasta, o delegado Osvaldo Nico, que atuava antes como secretário-executivo de Derrite, o segundo posto mais alto na hierarquia. Conhecido pelas aparições em programas policiais na TV, Nico trabalhou com Nunes numa força-tarefa contra festas clandestinas na pandemia de covid-19, quando ele ainda era vice do prefeito Bruno Covas.
O trabalho rendeu, por exemplo, a batida a um cassino na Vila Olímpia, Zona Sul de São Paulo, em março de 2021, onde se encontrava o jogador de futebol Gabriel Barbosa, conhecido como "Gabigol", escondido embaixo de uma mesa, além do funkeiro MC Gui. Outro que costumava dar as caras nas operações era Alexandre Frota, ex-deputado federal por São Paulo, indicado ao grupo pelo ex-governador João Doria.
Nico chegou a ser sugerido como candidato à vice na chapa de Nunes. O plano contava com a simpatia de Tarcísio, mas foi abandonado depois de o ex-presidente Jair Bolsonaro flertar com a candidatura do influenciador Pablo Marçal (PRTB) e insistir na indicação de um nome de sua confiança, o tenente-coronel da PM Ricardo Mello Araújo (PL), ex-chefe do Ceagesp. Entre as figuras famosas que foram presas pelo delegado está Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro.
(Colaboraram Sérgio Quintella e Aline Ribeiro)
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