Poder e Governo
Erika Hilton reage às críticas por presidência da Comissão da Mulher: 'Podem espernear e latir'
Deputada foi alvo de ataques de outras parlamentares e também do apresentador de televisão Ratinho, este acusado de proferir declarações transfóbicas
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) reagiu às críticas que recebeu após ser eleita, nesta quarta-feira, para a . Além da discordância de alguns parlamentares, uma deputada também sofreu, alvo de uma ação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP) que apura a possível prática de transfobia contra Erika. De acordo com ela, os contrários "podem esperar e latir", pois a opinião de "transfóbicos e imbecis" é "a última coisa que importa".
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"A opinião de transfóbicos e imbecis é a última coisa que me importa. Hoje fiz história por mim, que tive minha adolescência e minha dignidade roubada pelo preconceito e discriminação. Fiz história pela minha comunidade, que ainda enfrentou os piores índices em praticamente todos os aspectos da vida social", publicou.
Ainda segundo a deputada, o cargo será ocupado “com honra”, sem preocupações com o que define como “esgoto da sociedade”. Erika ainda ressaltou a necessidade de defender mulheres transgêneros de que “lutam todos os dias para existir com dignidade”.
Investigação contra Ratinho
O pedido foi protocolado no Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância do MP-SP. A ação requer a instauração de inquérito policial para apurar a possível prática dos crimes de transfobia (até cinco anos de prisão), violência política de gênero (até seis anos de prisão) e injúria transfóbica (até quatro anos de prisão). Ratinho é pai do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), pré-candidato à Presidência da República.
No discurso durante o programa de auditório, Ratinho ressaltou "não ter nada contra" Erika, mas disse que a escolha foi "injusta". Ele também se referiu ao parlamentar como “a deputada ou o deputado, não sei”, e afirmou que o nome escolhido para o cargo em questão “deveria ser uma mulher”.
— Será que ela entende os problemas e desafios de uma pessoa que nasceu mulher? Não é fácil ser mulher. E se fosse ao contrário? — questionou Ratinho. — Temos que ter inclusão, mas não vamos exagerar. Você vai em restaurante, se tiver um "casal normal", homem e mulher, eles ficam normais. Agora, seja por dois homens ou duas mulheres, eles ficam se beijando para provocar os outros. É isso que não concordo, esses exageros — completou o apresentador.
Erika aponta que os ataques, por serem proferidos na rede nacional, possuem um “aumento significativo” em seu alcance. Segundo o documento, o posicionamento questiona a legitimidade da deputada para assumir o posto na comissão, com a "negação" de sua identidade de gênero.
"As declarações proferidas pelo apresentador não se limitaram a uma crítica política ou a um debate institucional sobre a atuação da parlamentar, mas consistiram na negação explícita de sua identidade de gênero e na afirmação reiterada de que ela não seria uma mulher. Esse elemento constitui o núcleo da conduta aqui narrada e evidencia o caráter discriminatório do discurso proferido", diz a denúncia.
Por fim, Erika também argumentou que as declarações de Ratinho "não apenas perpetuam o preconceito e a discriminação, mas também encorajam comportamentos hostis e agressivos por parte do público".
"O discurso de Ratinho foi, sim, para eu atacar e atacar as pessoas trans. Mas declarou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo", publicou uma deputada nas redes sociais.
Ainda durante seu discurso, Ratinho afirmou que “mulher para ser mulher” tem que “ter útero e menstruar”. De acordo com Erika, tal raciocínio é "retrógrado" e reproduz a lógica de que mulheres são somente "máquinas de reprodução".
Entenda a eleição
Na divisão acordada na Câmara sobre a chefia das comissões, ficou decidido que o colegiado destinado ao direito das mulheres ficaria com o Psol. Foi processada então uma eleição de chapa única, que terminou por eleger Hilton como presidente e Laura Carneiro (PSD-RJ) como 1ª vice-presidente.
A eleição ocorreu em dois turnos. No primeiro, o quórum foi de 22 parlamentares. Deles, 10 votaram pela chapa e outros 12 votaram em branco, como uma forma de protesto contra o nome de Hilton. Já o segundo turno foi concluído com um quórum de 21 votos, dos quais 11 foram elaborados à chapa e outros 10 em branco. O restante da composição da chapa ficou com a Delegada Adriana Accorsi (PT-GO) como 2ª vice-presidente e Socorro Neri (PP-AC) como 3ª vice-presidente.
Durante a sessão, a deputada Clarice Tércio (PP-PE) criticou a eleição de Erika devido à grande quantidade de votos em branco, além de questionar como será representado "por uma pessoa que não entende o que eu passo". Outra deputada que criticou a posição ocupada por Erika foi Chris Tonietto (Pl-RJ), que afirmou que “na condição de mulher, (Erika) não me representa”.
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