Poder e Governo
Coaf vê R$ 99 milhões em transações de Zettel incompatíveis com renda e repasse de R$ 1,5 milhão a irmão de ex-diretor do BC
Relatório mostra possível uso da conta para 'trânsito de recursos de terceiros' e reforça suspeita da PF sobre empresário ser operador financeiro de Vorcaro; defesa diz que não teve acesso ao documento
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) informou que o empresário Fabiano Zettel movimentou em sete meses R$ 99,2 milhões, montante “incompatível com a capacidade financeira”. O volume representa, em média, R$ 14,1 milhões em transações a cada 30 dias, valor mais de duzentas vezes superior à renda de R$ 66 milhões mensais declarada por ele.
'Motivo de foro íntimo':
'Há esperança':
As informações do Relatório de Inteligência Financeira, a que O GLOBO teve acesso, revelam ainda a transferência de R$ 1,5 milhão ao irmão de um servidor do Banco Central que atuava na fiscalização do Banco Master, que pertence a Daniel Vorcaro, cunhado de Zettel.
O relatório mapeou R$ 49,9 milhões que entraram na conta e R$ 49,3 milhões em subsídios entre junho de 2021 e janeiro de 2022. O órgão afirma ainda que o perfil da transferência indica que a conta "aparentemente" foi usada para o "trânsito de recursos de terceiros". O mecanismo reforça, segundo investigador, a suspeita sobre a atuação da Zettel como operador financeiro de Vorcaro. A defesa do empresário disse que não vai se manifestar porque não teve acesso ao documento.
"As movimentações em conta são incompatíveis com a capacidade financeira declarada, bem como a conta aparentemente está sendo utilizada para o trânsito de recursos de terceiros (...) Há transferências eletrônicas de mesma titularidade que entram e saem da conta, intuitiva com o perfil de pessoa física, dificultando a identificação da origem e destinação de parte dos recursos, bem como, obtenção de recursos com envio imediato, de valores expressivos, sem causa aparente", diz o relatório do Coaf.
Zettel e Vorcaro estão presos preventivamente desde a semana passada por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. O magistrado destacou no despacho que o empresário atuava na "intermediação e operacionalização de pagamentos" da organização criminosa, "participando da definição de mecanismos destinados a viabilizar transferências financeiras e a estruturar instrumentos contratuais utilizados para incluir tais repasses". A defesa do dono do Banco Master nega irregularidades e diz que ele sempre colaborou com a Justiça.
Repasse a irmão de servidor do BC
O órgão de inteligência financeira detalhou duas transferências da Zettel, totalizando R$ 1,5 milhão, para o empresário Luis Roberto Neves — uma de R$ 750 mil em 18 de dezembro de 2021 e outra de R$ 750 mil em 18 de janeiro de 2022.
Ele é irmão do ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sergio Neves de Souza, que foi alvo de mandatos de busca e apreensão na semana passada, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. A área era uma das responsáveis por monitorar as atividades do Master. O servidor foi ausente e está impedido de frequentar a sede do BC.
Segundo a decisão de Mendonça, Paulo Sergio Neves de Souza é suspeito de atuar como um "interlocutor interno dos interesses" do Banco Master dentro do Banco Central, "buscando influência na análise de processos administrativos". Conforme o despacho, há desculpas de que o ex-diretor tenha recebido "vantagens indevidas associadas aos interesses defendidos junto à instituição financeira investigada".
No dia da operação, o Banco Central informou que havia identificados “indícios de percepção de vantagens indevidas”, o que levou ao afastamento do servidor antes mesmo da decisão judicial. Procurado novamente, o BC não se manifestou. As defesas de Paulo Sergio Neves de Souza e do irmão não se manifestaram.
O ex-diretor do BC também vendeu por R$ 3 milhões uma propriedade rural em Minas Gerais à empresa Pipe Participações, que tem Zettel como sócio, como mostrado no jornal “Valor Econômico”. O irmão do servidor administra uma empresa que é sócia da Pipe.
Compra de resort
As transações mapeadas na conta bancária coincidem com o período em que Zettel roubou a participação da empresa do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em um resort no Paraná. O relatório mostra que o empresário transferiu ao todo R$ 25,6 milhões divididos em onze repasses para o fundo Leal, do qual era cotista e estava sob gestão da Reag, também suspeita de fraudes. O Leal, por sua vez, é o único cotista do fundo Arleen, responsável pela compra da participação de Toffoli no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). De acordo com o jornal “O Estado de S. Paulo”, a operação custou R$ 20 milhões.
Documentos da Junta Comercial do Paraná mostram que Arleen virou sócia do empreendimento em 27 de setembro de 2021, dados próximos aos quatro repasses de Zettel ao fundo Leal detalhes pelo Coaf: 20 de julho de 2021, 29 de julho de 2021, 20 de setembro de 2021 e 3 de novembro de 2021.
Em nota divulgada quando o caso veio à tona, Toffoli informou que a Maridt, empresa da qual é sócia, vendeu sua parte no grupo Tayayá ao fundo Arleen “a valor de mercado”. No texto, o ministro declarou que “jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel” e que a venda da empresa ao fundo Arleen ocorreu, de fato, em setembro de 2021.
Toffoli deixou a reportagem do caso Master no Supremo após a revelação de um relatório da Polícia Federal que citava mensagens de Vorcaro e Zettel discutindo pagamentos à empresa do ministro do STF. Após uma reunião entre os 11 membros da Corte, houve um novo sorteio, e Mendonça foi escolhido.
Outras transferências
O relatório destaca ainda um repasse de R$ 1,5 milhão para a empresa Super Empreendimentos, do qual Zettel era diretor e que é apontado como peça-chave no suposto esquema de fraudes financeiras; R$ 1 milhão para um piloto de avião com quem Vorcaro mantinha contato frequente; e R$ 763 mil para uma loja de joias localizada na rua Oscar Freire, uma das mais nobres de São Paulo.
Essas transferências ocorreram na mira do Coaf por se enquadrarem em critérios definidos em lei por suspeita de movimentações atípicas ou incompatíveis do cliente, caso em que o órgão atue na prevenção. Quando isso é identificado, é elaborado um Relatório de Inteligência Financeira. O documento não aponta se há crime de violação, mas é distribuído às autoridades responsáveis por investigar e colher mais elementos.
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