Poder e Governo
Direita se divide sobre ataques ao STF em ato na Paulista no domingo
Manifestação terá presença de Flávio Bolsonaro, que tenta emplacar imagem de moderado e busca interlocução na corte para pleitear regime de prisão domiciliar em favor do pai
Organizadores e lideranças bolsonaristas estão divididos sobre o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) a ser adotado na manifestação da direita marcada para domingo (1º), na Avenida Paulista, em São Paulo.
Convocado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o ato se chamará "Fora Lula, Moraes e Toffoli - Acorda Brasil". Segundo o parlamentar mineiro, a ideia é focar o discurso no impeachment do presidente e dos dois ministros. "O objetivo do impeachment é mostrar que até os 'deuses de toga' não são intocáveis. E que, se derrubarmos um, o outro também pode. E vai ser assim com todos que cometerem crimes e que traírem o povo", afirmou Nikolas, nas redes sociais. Procurado pelo GLOBO, ele não deu entrevista sobre o tema.
Já o deputado estadual Tomé Abduch (PL-SP), coordenador do movimento Nas Ruas, que é organizador da manifestação e responsável pelo aluguel do principal caminhão de som e das estruturas para domingo, avalia que a pauta não deve se centrar em ataques aos ministros da Corte.
— A ideia da manifestação não é um ataque a pessoas, nós vamos discutir o Brasil, nós vamos falar sobre pautas que a gente entende que são importantes, como liberdade aos presos políticos. A gente não tem intenção de atacar o Supremo, né? Acho que todos nós, as pessoas que estão nos ajudando a organizar, todos ali entendem a importância do Supremo. Ao mesmo tempo, a gente também não pode se calar em relação ao que nós estamos vendo do Banco Master, né? Não dá para a gente achar que o que está acontecendo ali é algo natural e normal — diz o parlamentar.
As teses divergentes ocorrem no momento em que Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do grupo político a presidente da República, tenta emplacar uma imagem mais moderada e dialogar com outros setores, principalmente o centro. Ao mesmo tempo, Flávio e o aliado Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, tentam interceder no STF para que o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por atos golpistas, cumpra pena em regime domiciliar.
Na segunda-feira (23), o senador fez uma postagem no X pedindo apoio a “todas, todos e todes”. “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é vencer a eleição! Gostaria de contar com apoio de todas, todos, todes, todys e todoXs”, escreveu, em mensagem vista como uma tentativa de se apresentar como mais moderado e agregador que o pai. Também procurado pela reportagem, o senador não se pronunciou.
Lideranças bolsonaristas de São Paulo que devem marcar presença no palanque reconhecem que as críticas ao STF, porém, serão inevitáveis.
– Eu acho que quem define a pauta é quem convocou. E quem convocou foi o Nikolas, ele deixou a pauta clara no tweet (de convocação) – diz o vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), cotado para concorrer a deputado federal nas eleições de outubro.
Para a também vereadora Zoe Martinez (PL), cada um terá liberdade para falar o que quiser.
– Não há preocupação em relação ao tom que será adotado porque todos estamos bem alinhados – ela avalia.
O pastor Silas Malafaia, que desta vez ficou de fora da organização da manifestação, função que exerceu em atos anteriores na Paulista, afirma que já definiu a linha de seu discurso e que será duro nas palavras.
– Vamos voltar às manifestações anteriores: eu nunca perguntei a Bolsonaro o que ele ia falar lá, ok? Como também Bolsonaro nunca me perguntou, nem me pressionou para falar ou deixar de falar. O que eu garanto é que eu não estou nem chegado ao Flávio, depois dessas últimas que eu dei aí em cima dele e tal, essa discussão de que o candidato ideal era o Tarcísio, então eu não tenho nem contato com o Flávio até aqui. Mas eu vou te prometer uma coisa: eu, Nikolas e Magno Malta vamos 'descer a borracha'. É fora Lula, é fora Alexandre de Moraes e fora Dias Toffoli — ele diz.
O cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que manifestações com muitos oradores são ambiente propício para recortes em redes sociais, o que poderá ser aproveitado da forma que os atores tiverem interesse.
– O bolsonarismo se nutre de um discurso, de uma militância que visa o desgaste e o confronto às instituições. Existe agora uma ala que, embora tenha essa crença arraigada, também tem intenções eleitorais. Flávio Bolsonaro busca construir uma imagem. No marketing político, a gente chama isso de "vacina". Ou seja, ele é aquele que pode acenar para o centro, mostrando-se distante do radicalismo. O bolsonarismo, por ter pretensões eleitorais, precisa fazer moderações e pausas – diz o professor.
Vaquinha para carro de som
O movimento Nas Ruas, além de alugar o trio elétrico, vai contratar serviços terceirizados que custarão cerca de R$ 130 mil. No acordo está locação de grades, cercas e até uma estrutura para observação policial. A empreitada será custeada, segundo Abduch, pelos próprios organizadores, que se cotizaram para arrecadar o montante.
– A gente conversou entre nós e cada um ajudou com um pouquinho. É uma manifestação que a gente tem que ter muito cuidado, que são muitas pessoas. A gente coloca segurança, grades, torres para a polícia, ambulâncias, banheiro químico e compra água, lanche para os policiais que ficam em pé ao longo do dia todo – afirma o parlamentar do PL.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), estará ausente da capital no domingo, pois viajará à Alemanha. Outros governadores, como Ronaldo Caiado (Goiás) e Romeu Zema (MG), deverão comparecer, segundo os organizadores do evento.
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