Poder e Governo

Motta deixa data de eleição do TCU indefinida sob receio de derrota e risco de ruídos com centrão

Presidente da Câmara tem desafio de honrar acordo firmado com o PT para sua eleição no comando da Casa em meio às críticas de falta de comando do plenário

Agência O Globo - 26/02/2026
Motta deixa data de eleição do TCU indefinida sob receio de derrota e risco de ruídos com centrão
Hugo Motta - Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou aos aliados que não há possibilidade de iniciar o processo de escolha para a próxima vaga no Tribunal de Contas da União (TCU) nesta semana, como era esperado pelos deputados envolvidos nas negociações. 

O entorno do parlamentar diz que hoje não há garantias de que o nome do PT, Odair Cunha (MG), seja eleito para a vaga de Aroldo Cedraz, que abre oficialmente nesta semana com a aposentadoria do ministro. Cedraz completa 75 anos nesta quarta-feira e se aposenta compulsoriamente da Corte.

Em 2024, Motta e seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL), acertaram com o PT que ajudariam a eleger um representante da sigla para uma vaga na corte em troca do apoio da bancada para a candidatura de Motta. 

Dois aliados do deputado disseram que se o nome de Odair for rejeitado em plenário, o presidente da Câmara sairá como derrotado no processo e isso pode decepcionar o parlamentar internamente. O primeiro ano de gestão de Motta à frente da Câmara foi marcado por momentos de instabilidade e questionamentos sobre a autoridade dele diante dos colegas.

Para ser aprovado, o candidato precisa ter a maioria dos votos (257 de 513) em turno único e votação secreta — o que dá margem para dissidências. O PT já teve outros candidatos para o TCU, mas não conseguiu emplacar um representante na Corte.

De acordo com relatos, o tema não deve ser discutido nesta semana. A ideia é que Motta converse novamente com os líderes para que os deputados busquem a temperatura junto às respectivas bancadas sobre o melhor momento para tratar do assunto. Dois cardeais do centrão não descartaram que esse processo seja iniciado somente depois das eleições de outubro, mas não há definição sobre esse prazo. Procurado, Motta não respondeu. 

Um político próximo ao presidente da Câmara diz que ele está empenhado em aprovar o nome do petista, mas também há recebimentos de ruídos com demais partidos que o apoiaram na sua eleição à presidência da Casa, e que esse seria um ponto de atenção neste momento. O acordo foi fechado com as siglas que apoiaram Motta desde o início da disputa: PP, Republicanos, MDB, PL, Podemos, PSDB-Cidadania, PDT e PSB, entre outros. 

O PL, por exemplo, apoiou Motta na disputa e emplacou o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ) na primeira vice-presidência, mas oficializou apoio à candidatura do deputado Hélio Lopes (PL-RJ), aliado de Jair Bolsonaro. A possibilidade de o partido lançar um candidato, no entanto, já estava precificada entre aliados de Motta.

"A candidatura já conta com mais de 80 assinaturas de parlamentares, o que demonstra consistência política e previsões dentro da Casa. Esse apoio não é circunstancial; é resultado de trajetória, liderança e firmeza", afirmou o líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), em nota publicada nas redes nesta quarta-feira. 

O líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), também divulgou nota no mesmo sentido, afirmando que a bancada se mobilizará “dialogando com os deputados e trabalhando para consolidar” a candidatura de Lopes.

PSD e União Brasil não participaram do acerto com Motta porque, naquele momento, tinham candidaturas próprias à sucessão de Lira. O PSD colocou o nome de Hugo Leal (PSD-PL) na disputa, enquanto a União Brasil ainda tem um conflito interno sobre quem será o candidato da bancada: os deputados Elmar Nascimento (União-BA) e Danilo Forte (União-CE). 

O União Brasil tinha decidido, internamente, que escolheria o seu candidato à vaga até esta terça-feira, mas não houve um acordo. Forte chegou a divulgar um aviso à imprensa convocando para uma coletiva para discutir a vaga, mas depois cancelou a fala. 

Uma parte dos deputados da União veem o adiamento da reunião para tratar do assunto como uma forma do partido sinalizar a Motta e tentar um acordo com ele antes de referendar oficialmente uma candidatura da sigla. Uma liderança do partido diz que não há prazo para a definição desse nome nem a certeza de que o partido avançará com a própria ideia de candidatura.

Aliados de Motta veem como uma forma de solucionar o problema usar uma segunda vaga no TCU para atender outros partidos. Depois de Cedraz, o próximo a se aposentar é o ministro Augusto Nardes, que sai do TCU no ano que vem. Há uma tentativa de convencer Nardes a disputar as eleições deste ano e antecipar a saída, mas ainda não há martelo batido sobre isso.

O entorno do presidente da Câmara aponta que o acordo com o PT foi trabalhado para que o partido seja contemplado em uma das vagas no TCU, não necessariamente na primeira que seria aberta. 

Apesar disso, os membros do partido querem garantir que Odair seja escolhido na primeira vaga, já que veem como certo o cenário de quando a segunda será aberta, pois oficialmente ela só será definida no ano que vem, com outra configuração da Câmara.

Há duas semanas, Motta comentou sobre o assunto e disse que não há definição sobre o processo.

— Estamos começando a fazer a estratégia de líderes para ver o movimento certo de fazer a eleição. É difícil (uma candidatura única) — afirmou.

Sobre as dificuldades de Odair, Hugo Motta desconversou.

— Está cedo para fazer qualquer projeção, vamos ter calma, esperar os partidos se posicionarem para a gente avaliar. 

Até as mesmas lideranças do centrão que apoiaram o nome do petista na disputam as dificuldades de o tema ser tratado neste momento. Um deles diz que é preciso reiterar o acordo dentro dos partidos para garantir que Motta não fique exposto nesse processo. Ele lembra que o presidente da Câmara buscou apoio do PT para eleger seu pai, o prefeito Nabor Wanderley (Republicanos), para uma vaga ao Senado neste ano pela Paraíba e que, dessa forma, é preciso evitar qualquer ruído com o partido. 

Por outro lado, entusiastas do nome de Odair confirmam que a regularidade de candidaturas pode ajudar o petista, com a fragmentação dos votos. Pessoas envolvidas nas conversas apostaram na atuação de Motta e de Lira para garantir que o nome do deputado seja aprovado. 

O presidente dos Republicanos, Marcos Pereira (SP), minimizou os impactos que uma eventual derrota do nome do petista teria para a imagem de Motta. Ele afirmou ao GLOBO que o partido trabalhará pelo nome do PT à vaga na Corte, mas diz que não há como ter controle dos votos. 

— Isso [disputa] é do processo da eleição para o TCU, é democrático. Não há falta de liderança. Essa crítica é completamente descabida de que a legalidade das candidaturas demonstra fraquezas do presidente Hugo Motta. Vamos trabalhar para cumprir o acordo. Agora, não tem controle de votos, né? O voto é secreto — afirmou Pereira. 

Ao ser questionado sobre quando isso deverá ocorrer, o dirigente partidário disse que isso depende da avaliação dos líderes para definir o melhor momento e que é preciso “dar tempo ao presidente, porque ele sabe o que está fazendo”. 

— Só para comparar, o acordo do Jonathan [de Jesus, que foi indicado ministro do TCU] com Arthur Lira, do partido Republicanos para o Jonathan, foi feito no mandato anterior e Lira só cumpriu no mandato seguinte, porque ele também não encontrou condições de fazê-lo anteriormente. Isso é da política, é normal — batidas do presidente do partido.