Poder e Governo

Do fortalecimento político ao foro privilegiado: interesse de governadores em disputar vaga no Senado dispara

Dos 18 que não podem se reeleger, 12 admitem a possibilidade de concorrer; número é 3 vezes maior do que em 2022

Agência O Globo - 11/01/2026
Do fortalecimento político ao foro privilegiado: interesse de governadores em disputar vaga no Senado dispara
- Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Dois terços dos 18 governadores sem possibilidade de reeleição neste ano já indicam a possibilidade de disputar uma cadeira no Senado em outubro. O total de 12 sinalizações supera em quatro vezes o número de chefes do Executivo estadual que foram às urnas pela Casa em 2018 (3), e é três vezes maior do que o mesmo grupo na eleição de 2022 (4). Cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO apontam a garantia de foro privilegiado por oito anos, o fortalecimento institucional do Parlamento e a boa avaliação nos estados como possíveis causas desse crescente interesse pelo Legislativo.

Medida histórica:

'Milagre da natureza para acabar com preconceito entre esquerda e direita':

Os governadores que desejarem disputar uma das 54 cadeiras abertas no Senado precisam renunciar até abril, seis meses antes do pleito. Enquanto parte dos chefes do Executivo estadual já se coloca como candidato, outros dizem que, apesar de considerarem a opção, uma decisão será tomada próximo ao prazo de desincompatibilização.

Fátima Bezerra

João Azevêdo

Lula

— A minha candidatura ao Senado está dentro das prioridades do PT nacional. Sei da importância da disputa congressual neste ano para a democracia — afirma Bezerra.

O governador do Pará, (MDB), é outro que confirma que disputará o Senado neste ano. Ele deve concorrer pela vaga atualmente ocupada pelo pai, Jader Barbalho, que deve se aposentar.

— Vamos dialogar com os paraenses para seguir trabalhando pelo estado e pelo Brasil no Senado, pensando especialmente na segurança pública, no desenvolvimento da Amazônia e na redução do custo da energia elétrica — diz Helder.

No campo da direita, o governador de Roraima, (PP), aposta na aprovação popular do governo para a conquista da cadeira. Ele avalia que o julgamento em curso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que apura abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, não trará dificuldades para a candidatura ao Senado.

— Deixo o governo no início do ano para disputar o Senado. Tenho apoio partidário e não sou extremista. A ação no TSE deve ter o julgamento concluído antes da eleição e será reconhecido que não houve crime — diz Denarium.

Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Murilo Medeiros, há uma “safra numerosa” de governadores bem avaliados e que enxergam um fortalecimento institucional do Congresso. O pesquisador aponta que o Senado “deixou de ser visto como fim de carreira e passou a ser plataforma de poder duradouro”:

— Quando há duas vagas em disputa por estado, governadores entram no jogo com vantagem competitiva. Eles chegam com alto grau de conhecimento do eleitor, capilaridade regional e legado administrativo.

Medeiros entende que, em vez de aventuras eleitorais de alto risco, como a Presidência da República, o Senado oferece aos governadores a “continuidade de protagonismo, proteção institucional e capacidade real de influência sobre a agenda nacional”.

Foro privilegiado

Na eleição de 2018, três governadores tentaram cadeiras no Senado, mas apenas Confúcio Moura (RO) foi eleito. Já em 2022, quatro foram candidatos, e todos saíram vitoriosos — (AL), (PI), (MA) e (CE).

A cientista política Carolina Botelho afirma que o crescente interesse de governadores pelo Senado pode ser explicado por um movimento bolsonarista. A Casa é vista por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como preferencial para retirar poderes do Supremo Tribunal Federal (STF).

Este cenário, segundo a pesquisadora, provoca uma reação da esquerda. O campo articula candidaturas fortes para evitar uma dominância da direita no Legislativo.

— A cadeira no Senado também é interessante para governadores pendurados na Justiça, como é o caso de Cláudio Castro, do Rio. O cargo de senador, com o foro privilegiado, pode oferecer a ele uma blindagem ao que responde atualmente — avalia Botelho.

Assim como Denarium, Castro enfrenta um processo de cassação no TSE por abuso de poder político e econômico que ficou conhecido como o “escândalo do Ceperj”. O governador do Rio articula a candidatura ao Senado nos bastidores, mas publicamente trata a disputa como uma possibilidade.

— Se houver a mudança para o Senado, a minha missão será dar continuidade à agenda da segurança pública, fortalecendo o combate à criminalidade como prioridade nacional — afirma Castro.

Busca pela presidência

Outra parcela de governadores admite a possibilidade de disputar o Senado, mas afirma, nos bastidores, que uma decisão final será tomada próxima ao fim do prazo de desincompatibilização. São os casos de (PSD-RS), (MDB-DF), (União-AM), (União-RO), (PSB-ES), (União-MT) e (PP-AC). Dirigentes da sigla de Cameli alegam que a candidatura dele ao Senado será anunciada em evento da sigla marcado para 4 de abril.

Os governadores bolsonaristas (Novo-MG), (União-GO) e (PSD-PR) descartam o Senado e apostam em uma candidatura à Presidência. Caso algum deles conquiste o Planalto em outubro, a vitória quebraria um jejum de 37 anos de governadores, desde quando o Fernando Collor, de Alagoas, superou Lula no segundo turno.

Os governadores (Republicanos-TO), Carlos Brandão (sem partido-MA) e (MDB-AL), por sua vez, dizem que não disputarão eleições neste ano, permanecendo no governo até o fim do mandato