Poder e Governo
El Salvador vira ponto de peregrinação da direita, que disputa imagem de 'Bukele brasileiro'
País que teve redução de criminalidade com regime de exceção recebeu ao menos dez políticos nos últimos meses. Grupo tem defendido replicar modelo com detenções arbitrárias de olho na eleição
“O Brasil é tão abençoado que nem precisa inventar nada. Basta copiar o que já funciona”, escreveu (PL-SP) ao postar uma foto diante das celas lotadas do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador. Em novembro, o agora ex-deputado renovou a visita ao presídio que é símbolo da guerra contra as gangues deflagrada pelo presidente salvadorenho, — desta vez, com o irmão Flávio (PL-RJ), na esteira de missões oficiais que consolidaram o país como ponto de peregrinação da direita brasileira.
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De presos a foragidos:
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No último ano e meio, o discurso que pede a “bukelização” do Brasil ganhou tração como resposta à maior preocupação dos brasileiros: a segurança pública. Ao menos dez políticos de direita visitaram El Salvador e outros o citaram como modelo de leis mais duras e penas mais altas, em contraponto a uma suposta “leniência” da esquerda.
No poder desde 2019, Bukele logrou popularidade e controle quase absoluto no país ao instaurar, em 2022, um regime de exceção que permitiu prisões sem ordem judicial e levou 1,5% da população a ser encarcerada — mais de 90 mil pessoas. A política fulminou as gangues Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18 e derrubou a taxa de homicídios de mais de 100 a menos de 2 por 100 mil habitantes. Ao mesmo tempo, gerou denúncias de detenções arbitrárias, torturas e execuções de detentos e perseguição de ativistas e jornalistas.
Opositores ressaltam que medidas do tipo violariam a Constituição do Brasil e seriam pouco efetivas num país de território muito maior, em que atuam facções de caráter transnacional, mais estruturadas e armadas — a taxa de encarceramento implicaria triplicar a população presa no Brasil, a 3,2 milhões. Também criticam o “turismo penitenciário” de parte dos parlamentares, como Flávio, que exaltou o modelo Bukele após a viagem.
— A lei criou um processo penal à parte, uma justiça especializada de caráter excepcional para julgar essas empresas criminais. A ação anda muito mais rápido e sem praticamente nenhum recurso. Teve chiadeira dos defensores dos direitos humanos, mas o povo apoiou, e o governo seguiu adiante. Ponto muito importante: o Judiciário não interferiu. — disse o pré-candidato a presidente na ocasião. — O Brasil é muito maior, é verdade, mas a gente tem mais recursos, policiais e militares.
Presidente ausente
Na esteira dos Bolsonaros, o deputado Paulo Bilynskyj (PL) defende o regime prisional rígido do Cecot, com presos sem colchão, sem visitas e penas que superam os mil anos. Já o também deputado Nikolas Ferreira (PL), que foi ao presídio, ironizou ao dizer que lá os direitos humanos “funcionam” sem “mordomias”.
Nikolas criticou a gestão brasileira do tema ao discursar no 30° Fórum de Inteligência e Segurança, ao qual também compareceram os deputados Padovani (União-PR), Delegado Marcelo Freitas (União-MG), Coronel Assis (União-MT) e Delegado Fabio Costa (PP-AL). Nas fotos das missões oficiais, uma ausência notável: Bukele. Os parlamentares, porém, posaram com a irmã do presidente, a deputada Fabiola Bukele, e outras autoridades do alto escalão.
A lógica “bukelizada” permeou operações como a realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, em outubro. O governador (PL) exortou a guerra contra “narcoterroristas”. O relator do Projeto Antifacção na Câmara, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), defendeu a equiparação das facções ao terror, mas recuou, sob pressão, e a análise do texto ficou para 2026. Nesse contexto, o então líder da oposição na Casa, deputado Luciano Zucco (PL), propôs uma comitiva a El Salvador.
— Queríamos conhecer o modelo de enfrentamento de Bukele. Goste-se dele ou não, salvou a vida de milhares de pessoas. Por agenda, a viagem não foi possível. Mas nada nos impede de aprender com políticas públicas que deram certo. Ignorar experiências de sucesso é condenar o Brasil a repetir os mesmos erros — diz.
O tema também estimulou governadores cotados à corrida presidencial e a quem incumbe o patrulhamento ostensivo. (Republicanos), de São Paulo, defendeu operações, mudanças “radicais” na lei e citou El Salvador como caso a ser estudado. (Novo), de Minas Gerais, viajou em maio para se reunir com autoridades do país e gravou vídeos. Defendeu “coragem” e “humildade” para o Brasil ver o que “funcionou” no exterior e a construção de um presídio como o Cecot na Amazônia.
Com a popularidade em alta após a megaoperação, Castro cogitou ir ao país e tentar se reunir com Bukele, mas abortou a ideia, aconselhado por integrantes do governo Lula, para não dificultar uma reaproximação com o petista, desafeto do salvadorenho, no futuro, segundo a coluna de Malu Gaspar no GLOBO. Com a direita reagrupada em torno do tema, Lula também se mexeu para entrar na pauta, por meio de projetos como a PEC da Segurança Pública.
O cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, avalia que o uso da imagem de Bukele, por ora, é vago e “quase caricato”. Além disso, tem seus riscos, dado o modelo “profundamente autoritário”. Ele cita a campanha à prefeitura paulista de Pablo Marçal (PRTB) — que se valeu da estética e chegou a viajar a El Salvador em setembro de 2024, mas voltou sem uma foto com o presidente — e o discurso de políticos como Renan Santos, pré-candidato a presidente pelo Missão que defende o encarceramento em massa:
— Mesmo sem receber os políticos, Bukele continua uma referência. Quando chegar mais perto da eleição, vai haver o desejo de ver quem vai ser o primeiro a tirar uma foto com o Bukele. Uma coisa é falar vagamente de El Salvador, outra é aparecer com o Bukele, numa chancela oficial.
Professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker diz que Bukele oferece um modelo e deve ser usado na campanha “quase como um consultor” do que poderia ser implementado. O dilema, pondera, será convencer quem ainda não o foi:
—(o modelo) pode fragilizar o discurso principalmente para quem mora nas periferias. Vai ser um dilema para a direita, que tem que sair do espectro que ela hoje tem, já favorável a esse estilo.
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