Poder e Governo

Em Minas, CPI do INSS desgasta candidaturas ao governo e ao Senado

Caso vira embaraço a Cleitinho, que posou com dono de avião vendido a suspeitos de fraude, e Zema, que terá de depor

Agência O Globo - 03/01/2026
Em Minas, CPI do INSS desgasta candidaturas ao governo e ao Senado
Cleitinho Azevedo - Foto: Reprodução/ Agência Senado

O avanço da CPI que investiga descontos fraudulentos no INSS vem provocando desgastes para nomes cotados à disputa do governo e Senado em Minas Gerais na próxima eleição. As apurações respingaram no entorno do governador Romeu Zema (Novo) e do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), enquanto o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), se movimenta para entrar na disputa.

'Vai ter que trabalhar':

Entenda:

Cleitinho é aliado do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), citado em depoimentos da CPI por ter relação com ex-funcionários do INSS e entidades acusadas de operar as fraudes. Ambos vinham costurando uma chapa, com Cleitinho se lançando ao governo e Euclydes ao Senado. Após as menções na CPI, o deputado foi alvo de operação da Polícia Federal (PF), em novembro, que apura repasses de emendas parlamentares e vendas de aeronaves a pessoas ligadas a essas entidades.

Euclydes era dono de um avião Cessna vendido por R$ 400 mil, em fevereiro de 2023, para Vinícius Ramos, chefe da ONG Instituto Terra e Trabalho. Além de comprar a aeronave, a ONG captou R$ 2,5 milhões em emendas do deputado, como noticiou o jornal O Estado de S. Paulo. Vinícius, por sua vez, é cunhado do presidente da Conafer, Carlos Lopes, entidade investigada pelas fraudes; ele era o verdadeiro usuário do avião, de acordo com os depoimentos à comissão. O deputado alega que, embora o Cessna ainda estivesse em seu nome, ele já havia vendido a aeronave anteriormente para outra pessoa e não teria nenhuma relação com a transação envolvendo a Conafer.

Proximidade

O GLOBO apurou, no entanto, que Euclydes e Cleitinho mantiveram relacionamento com Rômulo Gonçalves Júnior, médico e empresário apontado pelo próprio deputado como o verdadeiro dono da aeronave. Em setembro de 2023, conforme registros nas redes sociais, Rômulo visitou Euclydes e Cleitinho no Congresso e pleiteou o envio de emendas para o Hospital Samaritano de Governador Valadares (MG), do qual ele é presidente do conselho deliberativo. Portarias do Ministério da Saúde indicam que Cleitinho alocou ao menos R$ 3,5 milhões no hospital em 2024, enquanto Euclydes, que tem base eleitoral na cidade, destinou R$ 5,8 milhões.

“Discutimos a busca por novos recursos para o hospital. (...) Obrigado Dr. Rômulo pela visita. Você será sempre bem-vindo em nosso gabinete”, escreveu o deputado após o encontro.

Segundo Euclydes, o avião em questão, de matrícula PR-ATM, foi repassado a Rômulo em 2021, dois anos antes da venda para o dirigente da Conafer. Em junho de 2025, a aeronave foi vendida novamente, por R$ 700 mil, quase o dobro do preço da transação anterior. A venda, segundo os registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), foi feita de Vinícius para Silas da Costa Vaz, apontado como laranja da Conafer.

Em julho de 2025, a aeronave ainda foi vendida mais uma vez, para o dono de um aeroclube em Minas, em uma transação intermediada por Leandro de Almeida Lima Alves, um ex-assessor de Euclydes.

Procurado pelo GLOBO, Leandro disse que atuou como piloto para Vinícius, e que foi apresentado a ele pelo próprio Euclydes, quando era assessor do deputado. Segundo Leandro, ele pilotou o mesmo avião para o deputado e para o dirigente ligado à Conafer.

— Eu voava em (Governador) Valadares o PR-ATM para o Euclydes. Depois, fui indicado para voar pela Conafer. Foi ele (Euclydes) que me apresentou ao Vinícius — disse Leandro.

O ex-assessor disse só ter intermediado a venda da aeronave em julho de 2025, na última transação registrada pela Anac. Ele afirmou, porém, que “nunca conversou com Silas”, que constava como dono da aeronave à época, e que todas as tratativas desta venda foram feitas por Vinícius, porque “o pessoal da Conafer estava inadimplente com vários funcionários e queria levantar dinheiro”.

Euclydes disse à reportagem que “não vendeu a aeronave para Vinícius, e sim para o empresário Rômulo”, e que apresentou toda a documentação à CPI do INSS. Ele disse ainda que “não sabe informar” se Rômulo atua no Hospital Samaritano, para o qual destinou emendas, embora tenha posado para uma foto ao lado do médico e anunciado o aporte. Cleitinho, por sua vez, afirmou em nota que “tudo deve ser investigado” na CPI. “No caso do Euclydes, após as investigações, se for inocente, segue o jogo. Se estiver errado, tem que pagar como qualquer brasileiro”, diz.

Novas articulações

Zema, por sua vez, foi convocado para prestar depoimento à CPI porque uma empresa de sua família atuava com oferta de crédito consignado para aposentados. A comissão quer apurar se essas operações realizaram descontos irregulares. O governador nega irregularidades.

O requerimento para a ida de Zema ao colegiado foi apresentado pela bancada do PT, que faz oposição ao vice-governador Mateus Simões (PSD), indicado para tentar a sucessão estadual. Por acordo, o requerimento foi aprovado de forma simbólica.

O GLOBO apurou com aliados do governador que Viana, presidente da CPI, vem buscando manter relação amistosa com Zema, apesar da convocação. Procurado, o senador, que se recupera de uma cirurgia de câncer feita no início de dezembro, não retornou os contatos.

As apurações da CPI têm ampliado a projeção de Viana no estado, na avaliação de lideranças políticas de Minas. O senador, que amargou um desempenho ruim ao tentar concorrer ao governo contra Zema em 2022, passou a acalentar uma reeleição ao Congresso em 2026. Ele tem procurado costurar uma chapa com Cleitinho, que poderia se lançar ao governo nesse desenho. Viana também ensaia uma filiação ao Republicanos. O movimento, porém, escantearia a pré-candidatura ao Senado de Euclydes, que é um dos alvos da comissão.