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Uma brasileira, dois brasis
Costumava acordar pontualmente às cinco. Andava quase hora da periferia longínqua em que morava para as bordas mais distantes da cidade. Era de lá que o ônibus partia; com alguma boa sorte, pegava um lugar.
Adormecer. Ela adormeceria, era o cansaço. Se fosse em pé, dormiria mal; umas cochiladas, no amparo apertado do ônibus lotado. Viajar sentada era dormir com conforto duas, três, quatro horas até o emprego.
Melhor não poderia ser. Ah!, havia um problema, mas não era de maior preocupação: passar do ponto; acontecia muita vez de não despertar. Restava muito bem, ainda que isso a afastasse boas pernadas do serviço.
Tinha licença para desjejuar no trabalho, e o fazia à farta. Então, aos afazeres. A residência era grande, mas a patroa morava só; não cansava. Desgastante era o regresso, duas, três, quatro horas, em pé. Doía só de pensar.
Chegava estafada, lá pelas 22, depois de um trecho caminhado. Via o filho e as três filhas. O filho, mais velho, era avoado. Tomara uma moto emprestada, batera num carro. Escafedeu-se. Satisfações ao proprietário.
Duas dificuldades: a moto era roubada, não podia ser reivindicada; o “dono” do veículo alheio, contudo, queria o que era “seu”, e tinha como cobrar. O problema tornou-se a mais cara prestação das obrigações da mulher. Foi quitando.
Mais grave, entretanto, foi outro acontecimento. As janelas da casa ainda se fechavam por tábuas pregadas, mas já adquirira os batentes; faltava só assentá-los. Não fosse o fato de as terem roubado, a patroa já a teria ajudado.
Delegacia, boletim de ocorrência, depoimento. Nada. Sabe-se lá quem foi... Caso de esquecer. Um recurso, porém: o chefe do tráfico. O filho intermediou a conversa. Foi lá. Contou a tristeza, até chorou. Promessa de ver solução.
Tudo investigado, Justiça feita. O larápio foi condenado à devolução, e melhor: tábuas lixadas, pintadas, assentadas. Honesta, foi à Delegacia, para que se evitasse trabalho; também para desafrontar o desmazelo com o seu caso.
Mas a mulher fazia ingênua confissão: terceirizara o exercício arbitrário das próprias razões. O pior só não aconteceu porque o delegado teve comiseração. Desentendeu o narrado, agradeceu o comunicado, arquivaria o inquérito.
Conta que saiu de tudo muito afortunada: no dia da visita reclamatória à “autoridade” comunitária, levara a filha, que era bonita. O moço que ouviu suas queixas mostrou escuta com atenção, mas seus olhos grudaram na menina.
A mãe fez que não viu; a filha era só felicidade. O caso prosperou: namoro. Foi bom que tenha acontecido. Ela já tem idade, quase formada. O rapaz é sério e com meios. Tem alguma coisa de errado? Pode ter, mas quem não tem?
Foi convidada pelo genro. Conversa particular. Estava tudo acertado: não devia mais as parcelas da moto. O filho tinha que ser homem. Foi combinado que pagaria com “serviços”. E ainda ia sair no ganho, até podia ajudá-la.
Matutou e, é certo, entendeu. Mas, que fazer? Era o destino se mostrando, estava fora do seu controle. E há males que vêm para o bem. Ademais, o filho já ia naquela direção. Quanto à menina, um pedido: que se formasse.
Pensou até em se aconselhar com a patroa. Alguma culpa estava lhe pesando. E tudo aconteceu muito rápido, ficou desatinada. Mas, não; melhor não. Não seria entendida, mesmo que se esforçasse com boa explicação.
Chegou a sonhar com a conversa nos solavancos da locomoção para o trabalho. Sonhou que tudo foi confusão, como se ela falasse numa língua estrangeira. Viu que a patroa fazia esforço, mas não surtia comunicação.
Explicou-se o seu sonho: as horas de condução a transportavam entre dois Brasis. Ela morava num país; a patroa morava noutro. Nalgumas coisas se iriam entender; noutras, não. Sorriu: estava em viagem internacional.
Então, chegou contando, toda feliz: a filha namorava um empresário de sucesso nos negócios locais, o filho estava encaminhado. Faltavam as pequenas, só; era esperar para ver. No retorno, o sorriso se esvaneceu.
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