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Neurociência e IA já são usadas para mapear rostos e detectar reações à publicidade nas telas

Aparelhos instalados nos lares são capazes de aferir atenção dada pelos espectadores a propaganda para TV, streaming e redes. Netflix conduz experimento do gênero no Brasil

Agência O Globo - 13/07/2026
Neurociência e IA já são usadas para mapear rostos e detectar reações à publicidade nas telas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Quanto tempo você consegue prestar atenção em um texto, um vídeo curto, uma série de TV ou um filme até que sua mente se desvie para outro lugar? É isso que empresas de mídia e anunciantes tentam medir em experimentos que aliam tecnologia e neurociência.

Aparatos tecnológicos começaram a invadir invisivelmente as salas de estar, com câmeras dotadas de sensores que detectam movimentos do rosto e dos olhos dos espectadores diante das telas e modelos de inteligência artificial (IA) de predição de comportamento capazes de processar as informações captadas.

Eles permitem que uma espécie de leitura facial faça o papel das antigas pesquisas de opinião na coleta de informações sobre como são recebidas e recebidas mensagens publicitárias.

Netflix

Um dos principais projetos do gênero em curso no Brasil é prolongado pela Netflix, que começou a monitorar 250 domicílios de sua base de usuários no país para entender a qualidade da atenção de quem usa o seu plano com anúncios. São 35 milhões de assinantes da modalidade no país.

Os participantes são remunerados, mas o valor não foi revelado. Os primeiros resultados deverão sair no segundo semestre, quando terminar a primeira fase dos testes. Antes do Brasil, apenas Austrália e México realizaram esse experimento.

Câmera monitora quem vê

O projeto da gigante global do streaming é uma carga da australiana Amplified Intelligence, uma empresa de tecnologia fundada em 2017 que desenvolveu equipamentos, algoritmos e análises próprias de atenção.

Um dispositivo discreto da empresa está posicionado nos lares com uma câmera HD que capta imagens das pessoas visualizadas na TV e uma unidade de processamento das imagens, com sistema operacional Android.

— Uma câmera em si é bastante básica, uma webcam. A diferença é a tecnologia por trás, que nossos desenvolvedores desenvolveram — explica Bec Brooks, diretora-geral da companhia. — O que o software faz é uma combinação de detecção facial, estimativa de pose e rastreamento ocular para tentar entender se os usuários estão atentos ao que aparece na tela.

Assim, se uma pessoa estiver perto da câmera, o sistema capta o movimento dos olhos. Se estiver mais longe, foque na detecção facial e na pose da cabeça para determinar a direção do olhar. O Amplified também leva em conta o tamanho da TV e a posição dela em relação à câmera para ajustar os algoritmos de medição.

Imagem capturada

A imagem capturada é convertida em “pontos no rosto humano”, os chamados marcos mecânicos. A partir deles, “segundos de atenção” viram a unidade de medida na duração total de um anúncio. O sistema mapeia a visão segundo a segundo, permitindo identificar em que ponto exato do anúncio a audiência se perde.

São usadas três categorias de detalhes: “atenção ativa”, quando o espectador está olhando diretamente para o anúncio; “atenção passiva”, quando é exposta ao anúncio, mas não tem o olhar voltado para ele (a atenção pode estar no celular ou em outra pessoa no ambiente); e “não atenção”, quando o espectador não foi exposto (pode estar em outro cômodo com a TV ligada).

Não México

No México, a Netflix descobriu que seus espectadores têm 64% de atenção ativa, 19% de atenção passiva e 16% de não atenção aos anúncios. Brooks conta que a companhia consegue fazer extensamente não só na relação das pessoas com a TV, mas também com outras telas para medir a atenção aos anúncios na internet ou em redes sociais. Ela destaca que a TV ainda é mais eficaz para engajar o telespectador:

— Nas redes sociais, há uma queda muito acentuada na atenção logo no início. O público é exposto ao anúncio nos dois primeiros segundos, mas depois ocorre uma queda muito rápida. A partir daí, ninguém está realmente vendendo o seu anúncio. Na TV, é exatamente o oposto. É muito estável. Se você alcançar alguém, essa pessoa permanecerá assistindo ao anúncio até o fim.

Esse tipo de dado preciso faz diferença na produção e na precificação da publicidade na era da economia da atenção. Leo Khede, diretor de Publicidade da Netflix para a América Latina, explica a importância da aferição para a empresa:

— A atenção permite entender não apenas se um anúncio foi exibido, mas como ele participou da experiência de visualização: se o espectador estava totalmente presente, parcialmente presente ou ausente naquele momento. A atenção ganhou força como métrica no streaming a partir do momento em que a Netflix passou a defender sua importância globalmente, e não como conceito, mas como uma forma concreta de mensuração.

Medindo a atenção

Antes dos meios eletrônicos, o sucesso de anúncios impressos era baseado na circulação de publicações como jornais e revistas. Na era da TV, passou a contar a quantidade de aparelhos conectados. Com a internet, veio a “impressão” e, depois, o viewability (que mede se os pixels do anúncio apareceram na tela e por quanto tempo).

Desde o fim da década passada, o mercado começou a questionar todas essas premissas e especular se uma pessoa está, de fato, conectada ao conteúdo. Foi quando o neuromarketing — a neurociência aplicada à propaganda — surgiu para aferir melhor a ocorrência das pessoas aos estímulos ao consumo, explica Billy Nascimento, cofundador da Forebrain, empresa pioneira em pesquisa de neuromarketing no Brasil e que tem marcas multinacionais como Santander e Leroy Merlin entre os clientes:

— Mercados mais maduros, fora do Brasil, pretendemos desenvolver análises de atenção. Saímos do equipamento e vamos até as pessoas para entender se o que perguntaríamos do ponto de vista de conteúdo trabalhado. A atenção virou uma moeda muito importante para veículos e marcas. A capacidade humana de atenção não está comprometida, mas sim de sustentar a atenção em um mundo cheio de alternativas e gratificação instantânea.

Disney

Em 2017, a Disney desenvolveu um algoritmo que consegue prever como os espectadores reagirão a um filme analisando suas expressões faciais por apenas dez minutos. As imagens da audiência foram captadas por meio de raio infravermelho nas salas de cinema. No mesmo ano, a empresa sueca Tobii fez uma parceria com o YouTube para medir o impacto dos anúncios na plataforma com rastreamento ocular.

Os primeiros experimentos desse tipo foram realizados em laboratórios, onde foram reunidos voluntários, mas a evolução e a miniaturização dos dispositivos, além da ampla disponibilidade de conexão à internet, transferiram as pesquisas para os lares, em situações reais. A Amplified — que também tem Google, Amazon e Twitch como clientes — rejeita testes em laboratório para evitar vieses.

Billy Nascimento concorda que o ambiente artificial pode induzir comportamentos não naturais, mas diz que, por outro lado, oferece controle total de variáveis ​​e acesso a equipamentos de nível hospitalar, capazes de medir respostas auditivas. Para compensar os limites da medição domiciliar, é preciso ter amostras maiores, ele ressalta.

Olho no olho

Especialista em monitoramento ocular, João Lucas Hana Frade, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, conta que é possível ir além da atenção com técnicas de rastreamento do olhar:

— Fiz uma pesquisa com anúncios no YouTube e detectei que aquelas propagandas que têm um contador para o botão “pular” acabam desviando a atenção da marca. Os anúncios que não podem ser pulados acabam sendo “melhores” para a atenção. É uma precisão enorme, medindo a cada 100 ou 200 milissegundos.

Há tantas técnicas para medir a atenção hoje que o Interactive Advertising Bureau (IAB) e o Media Rating Council (MRC), que regulam a publicidade nos EUA, publicaram em 2025 um marco regulatório para padronizar. No Brasil, a Amplified teve dificuldades mais prosaicas, conta Brooks:

— A primeira foi passar nossos aparelhos pela alfandega. Ainda retidos, mas acabamos encontrando um fornecedor local. Há um pouco de falta de letramento tecnológico, mas superamos. E as salas brasileiras são mais movimentadas do que em outros países, com mais gente entrando e saindo, o que torna a coleta de dados mais complicada.

E a?

Em todo o mundo, a presença de uma câmera para medir a atenção dos espectadores levanta preocupações sobre a privacidade das famílias, afinal há muitos exemplos de equipamentos aparentemente inofensivos com consequências indesejadas — em 2022, por exemplo, um robô aspirador da iRobot gravou uma mulher no banheiro de sua casa e as imagens foram pararem no Facebook.

A executiva da Amplified explica que a filmagem capturada pela webcam não é enviada para a nuvem: o processamento é feito diretamente no aparelho. Após transformar as imagens em marcos marítimos, os vídeos brutos são excluídos, e é impossível fazer o caminho reverso, reconstituindo as imagens ligadas a um indivíduo.

Apesar disso, a Netflix disse que orienta os participantes a fazerem testes para não manterem menores de 18 anos no campo de visão da câmera durante o consumo de TV. Quando isso não é possível, os dados de menores são eliminados imediatamente, diz Brooks:

— Não concordamos em monitorar como crianças interagem com anúncios. É um caminho perigoso.

Inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) promete aperfeiçoar ainda mais esse tipo de pesquisa. A Amplified já construiu um preditivo a partir de dados de pesquisas reais em ambientes naturais (como casas) feitas ao longo de anos. Ou seja, as marcas que contratam a companhia podem ter suas campanhas comprovadas por uma IA, que vai prever em quais pontos o espectador perderá a atenção. O nível de precisão é de 98%, segundo a empresa.

Num movimento semelhante, a Forebrain brasileira criou outra empresa, chamada Synapsee, para usar IA nesse tipo de teste, com precisão de 94% em relação ao direcionamento do olhar e 81% na ocorrência cerebral ao anúncio, diz Nascimento. E a IA generativa do sistema já sugere mudanças no conteúdo antes dos anúncios serem veiculados, para que sejam mais eficazes.

— Três agentes trabalham juntos. O primeiro analisa as áreas de atratividade do anúncio e identifica como o cérebro reagiria. O segundo analisa a imagem e faz sugestões de alterações. O terceiro toma as recomendações e cria novas peças, mais adequadas. Esse conteúdo volta ao primeiro agente — conta o empresário.

Com tudo isso, empresas, especialistas e órgãos de classe afirmam que é preciso prestar atenção em um detalhe: a métrica de atenção nunca deve ser usada isoladamente — ela é um sinal para o planejamento de mídia e criativo. Com tanta informação e transformação no campo, será que é possível lembrar disso?