Mundo Científico
Quase 30% dos desertores da Coreia do Norte perto de área nuclear apresentam mutações genéticas, diz estudo
Pesquisa do governo sul-coreano aponta possível relação com exposição à radiação, mas ressalta que ligação ainda não foi comprovada
Quase um em cada três desertores da Coreia do Norte que viviam nas proximidades do centro de testes nucleares de Punggye-ri apresentou mutações cromossômicas potencialmente associadas à exposição à radiação, segundo um estudo divulgado nesta sexta-feira pelo Ministério da Unificação da Coreia do Sul. Apesar dos resultados, as autoridades afirmam que ainda não há comprovação científica definitiva de que as alterações genéticas tenham sido causadas pelos testes nucleares.
A pesquisa analisou 214 desertores norte-coreanos ao longo de cinco anos — com exames realizados em 2017, 2018, 2023, 2024 e 2025. Do total, 64 pessoas (29,9%) apresentaram alterações cromossômicas que podem estar relacionadas à exposição à radiação.
Na etapa mais recente do estudo, realizada em 2025, 26 dos 59 participantes — cerca de 44% da amostra daquele ano — apresentaram anormalidades cromossômicas. Os voluntários viveram em oito cidades e condados próximos ao complexo nuclear de Punggye-ri, localizado na província de Hamgyong do Norte.
Os participantes eram originários de regiões como Kilju, Kimchaek e Paekam. Nenhum deles, porém, foi diagnosticado com cânceres normalmente associados à exposição à radiação.
O relatório foi encaminhado ao Parlamento sul-coreano. O Ministério da Unificação ressaltou que as mutações podem ter outras causas, como tabagismo, exposição à radiação em exames médicos, como tomografias computadorizadas, e outros fatores ambientais.
Ainda assim, um representante do Centro Nacional de Medicina para Emergências Radiológicas, responsável pela pesquisa, afirmou que é "cientificamente razoável" suspeitar que os testes nucleares realizados em Punggye-ri estejam relacionados às alterações genéticas observadas. Os pesquisadores defendem a continuidade dos estudos para confirmar ou descartar essa hipótese.
A expectativa é recrutar mais 50 participantes e realizar o acompanhamento de outros dez voluntários nas próximas etapas da pesquisa.
Desde 2006, a Coreia do Norte realizou os seis testes nucleares do país no complexo de Punggye-ri, em Kilju. O local foi oficialmente fechado em 2018 pelo governo norte-coreano, que afirmou ter tomado a medida para demonstrar transparência no encerramento de seu programa de testes nucleares.
No entanto, analistas internacionais observaram, em 2022, sinais de recuperação das instalações, levantando suspeitas de que o complexo pudesse voltar a ser utilizado para testes relacionados a ogivas nucleares.
O centro de testes também foi palco de um acidente em 2017, quando o colapso de parte da estrutura subterrânea teria provocado a morte de cerca de 200 trabalhadores. Na época, autoridades sul-coreanas alertaram que novos testes poderiam provocar o desabamento de uma montanha próxima e liberar material radioativo no meio ambiente, enquanto autoridades chinesas chegaram a advertir que a contaminação poderia se espalhar por uma ampla região caso isso ocorresse.
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