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Urubus são flagrados pela primeira vez devorando ovos de píton-birmanesa na Flórida

Descoberta sugere que aves nativas podem ajudar a conter a expansão de uma das espécies invasoras mais problemáticas da região

Agência O Globo - 27/05/2026
Urubus são flagrados pela primeira vez devorando ovos de píton-birmanesa na Flórida
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Pela primeira vez, pesquisadores da Universidade da Flórida registraram aves predando um ninho de píton-birmanesa nos Everglades, no sul da Flórida. A descoberta, detalhada em estudo publicado na revista científica Reptiles and Amphibians, pode representar uma nova frente natural no controle da expansão da espécie invasora na região.

O flagrante ocorreu em 2023, durante monitoramento de pítons na Área de Manejo de Vida Selvagem Francis S. Taylor, no Condado de Broward. Ao chegarem para remover ovos antes da eclosão, os pesquisadores encontraram ao menos quatro urubus sobrevoando o ninho e se alimentando dos ovos. Dos 17 ovos documentados, três estavam fora da cavidade original e reduzidos a fragmentos de casca; os outros 14 permaneciam no ninho, mas apresentavam perfurações e sinais de consumo parcial ou total.

De acordo com os cientistas, as marcas observadas eram compatíveis com bicadas, sem indícios de outros predadores ou necrófagos no local. A vegetação que cobria os ovos também foi removida, possivelmente pelas próprias aves. A píton fêmea foi encontrada submersa em águas rasas, a cerca de 12 metros do ninho.

Predadores nativos contra uma espécie invasora

A constatação amplia o rol de animais nativos que passaram a predar a píton-birmanesa, considerada uma das espécies invasoras de maior impacto ecológico nos Everglades. Originária do Sudeste Asiático, a cobra se estabeleceu na Flórida nas últimas décadas, ameaçando diversas espécies locais.

"Continuamos monitorando ninhos de pítons para aumentar nossa compreensão sobre a reprodução da espécie, além de remover os ovos antes da eclosão", explicou Melissa Miller, professora assistente de ecologia de animais selvagens invasores da Universidade da Flórida, ao jornal El Nuevo Herald. "Nossa observação constitui o primeiro caso documentado de uma ave predando um ninho de píton e reforça as evidências de que a fauna nativa consome pítons invasoras em diferentes estágios do ciclo de vida."

Outros predadores já haviam sido registrados atacando a espécie. Estudos do Serviço Geológico dos Estados Unidos apontaram que cobras-d’água, conhecidas como mocassins-d’água, se alimentam de filhotes de píton nos pântanos da Flórida. Em 2021, um lince-pardo foi filmado roubando e devorando ovos de uma píton na Reserva Nacional Big Cypress. Jacarés-americanos, cobras-índigo-orientais e até ursos-negros-da-Flórida também estão entre os possíveis predadores da espécie invasora.

A preocupação dos pesquisadores reside na alta capacidade reprodutiva da píton-birmanesa. Segundo autoridades ambientais da Flórida, fêmeas adultas podem colocar entre 50 e 100 ovos por ano. Após a postura, elas costumam enrolar-se sobre os ovos para protegê-los e regular a temperatura do ninho. No caso observado, ainda não está claro se a fêmea abandonou temporariamente a área devido à presença dos urubus ou por outro motivo, o que teria permitido o acesso das aves à ninhada.