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Exemplo inspirador para a China, agora cabe ao Brasil 'seguir os passos' do parceiro asiático

Em duas décadas, a China saiu da fama de ser origem de mão de obra barata e de produtos de qualidade duvidosa, a maior potência mundial em tecnologia e produtos de alto valor agregado.

Por Sputnik Brasil 30/10/2026
Exemplo inspirador para a China, agora cabe ao Brasil 'seguir os passos' do parceiro asiático
Brasil pode se inspirar na trajetória de inovação e liderança da China em tecnologia e produtos. - Foto: © Sputnik / Aleksandr Kazakov

Desde sistemas de inteligência artificial, chips, infraestrutura de computação e energia,

à produção de baterias, trens de alta velocidade e satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.

O podcast da Sputnik Mundioka ouviu o autor dos livros A China e a Nova Rota da Seda e Quem Tem Medo da China, Diego Pautasso, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China.

Co-criador do projeto Fios da China nas redes sociais, Pautasso avaliou que a China foi subestimada no contexto geopolítico mundial.

Ao lembrar que, a partir dos anos 1980, o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, o estudioso destacou que, paralelamente, o regime chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva e tecnologias, agregando valor à sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.

“É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, com produtos simples e primários. Nos anos 90, era um grande exportador de petróleo e, hoje, se transformou no país que lidera a fronteira tecnológica”, disse ele.

Para ele, o "grande pulo do gato da China" foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-se líder nesse setor.

“Um modelo muito bem-sucedido, pois dominam desde terras raras, passando por baterias e ímãs, até chegar nos veículos elétricos. Assim, conseguem, em um só movimento, realizar uma transição para uma mobilidade elétrica e mais limpa, além de dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos.”

A capacidade de coordenação e investimentos públicos robustos possibilitaram que o país que tinha 80% da população vivendo no campo há 40 anos superasse o processo de imitação de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos, ponderou.

“Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou bugigangas, logo viram a China liderar a inovação em várias áreas. Agora, vemos as inovações nas áreas dos automóveis, smartphones e produtos eletroeletrônicos [...]. Nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento e da visão de longo prazo, aliados ao investimento em inovação, ciência e tecnologia, cumpriu um papel fundamental nesse projeto de desenvolvimento nacional.”

O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, advertiu Pautasso, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue implementar políticas industriais, comerciais e tecnológicas de longo prazo.

“Isso, obviamente, envolve a capacidade tecnológica que também garante soberania em outras esferas. Hoje em dia, poderíamos tratar da soberania da tecnologia digital, que é um dos gargalos aos quais muitos países, incluindo o Brasil, estão submetidos, especialmente devido à forte influência das big techs na esfera política e comunicacional.”

Ele citou como exemplo a tentativa frustrada dos EUA de boicotar a produção de semicondutores chineses:

“O tiro saiu pela culatra, pois, por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento e investimento público, que já possuía um ecossistema de empresas de inovação muito forte e forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas, acabou por acelerar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores. Pois, no final das contas, os Estados Unidos tinham uma maior dependência de produtos críticos da China do que a China tinha de produtos críticos dos Estados Unidos.”

As estratégias de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente em direção ao sul global, na opinião do analista.

Mais recentemente, o país asiático também revelou um avanço vertiginoso no setor de defesa, com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados e outras armas de alta tecnologia, além da modernização das forças armadas.

Isso permitiu que a China criasse alternativas sistêmicas no campo econômico, comercial, tecnológico e da governança ao domínio do Atlântico Norte, segundo Pautasso.

“Relações que, certamente, podem ser atravessadas por contradições e assimetrias, mas que não são baseadas na lógica imperial ou no uso da força.”

“A China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo de governança mais efetivo e participativo, com maior representação do Sul Global [...] Ela não vê essa ampliação como uma ameaça, mas como uma potencialização da sua capacidade de liderança.”

Brasil como exemplo

Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sérios problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no hemisfério sul em ritmo acelerado.

“A China extraiu lições da experiência brasileira, que, embora estivesse atravessada por contradições, foi um processo virtuoso de conversão de um país agrário para um país industrializado de nível médio”, observou.

Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.

“Cabe ao Brasil se debruçar sobre a experiência chinesa [...], estudando as melhores práticas para iluminarmos os desafios que temos pela frente.”

Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira, com transferência de tecnologia, avançou em setores importantes, destacando a saúde:

“Temos o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante uma grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde, e essa é uma fronteira que podemos usar para reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica e joint ventures, aprendendo com as lições da China.”

Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, onde a China poderia contribuir e fortalecer parcerias de transferência de tecnologia.