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Chile enfrenta uma 'tempestade perfeita'? Veja os fatores que afetam sua economia

A economia chilena se vê golpeada ao mesmo tempo por aumentos nos combustíveis, perdas nas safras provocadas pelo clima e uma alta do desemprego, entre outros fatores. Especialistas consultados pela Sputnik apontaram que a situação pode empurrar famílias para a pobreza, mas que poderia haver sinais de recuperação em 2027.

Por Sputnik Brasil 30/10/2026
Chile enfrenta uma 'tempestade perfeita'? Veja os fatores que afetam sua economia
Fatores climáticos e econômicos afetam a economia do Chile, levando a uma crise sem precedentes. - Foto: © AP Photo / Matias Delacroix

Uma greve por tempo indeterminado de caminhoneiros na entrada do porto de San Antonio, principal terminal portuário do país, contra o aumento dos combustíveis acrescentou mais um problema à lista de dificuldades enfrentadas pela economia chilena. Alguns analistas descrevem o cenário como uma "tempestade perfeita".

Além da alta do diesel, que pressiona o setor de transporte de cargas, produtores agrícolas alertam que os efeitos do fenômeno El Niño sobre o clima reduziram a produção de frutas e hortaliças. A situação pode provocar oscilações significativas nos preços de produtos como batatas, pêssegos, kiwis e cerejas.

O governo de José Antonio Kast também enfrenta o avanço do desemprego, cuja taxa chegou a 9,8% no trimestre de julho a setembro de 2026, o maior índice desde a pandemia de Covid. Com isso, mais de 1 milhão de chilenos estão sem trabalho.

O economista chileno Juan Ortiz afirmou à Sputnik que o país atravessa um cenário macroeconômico "objetivamente muito complexo". As projeções de crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB), entre 2,5% e 3% até dezembro de 2026, não se concretizaram, enquanto que a inflação também deve ficar acima da meta de 3%, encerrando o ano em torno de 4% a 4,5%, estimou.

Ortiz, integrante do Observatório de Contexto Econômico da Universidade Diego Portales, atribuiu o quadro a diferentes fatores, entre eles o aumento dos preços do petróleo, que provocou um choque negativo de oferta no setor energético, e os eventos climáticos que afetaram parte da indústria manufatureira. O setor de mineração também contribuiu para desacelerar a economia ao registrar crescimento menor neste ano.

"Portanto, temos o pior cenário macroeconômico: contrações simultâneas da oferta e da demanda e uma diferença negativa em meio a uma inflação que supera a faixa da meta", resumiu.

O economista e pesquisador Gonzalo Durán Sanhueza ponderou à Sputnik que a expressão "tempestade perfeita" pode dar a impressão de que a economia chilena enfrenta apenas uma coincidência de eventos desfavoráveis. Para ele, porém, os problemas atuais têm raízes estruturais.

Durán Sanhueza afirmou que os governos chilenos não conseguiram implementar uma estratégia de desenvolvimento capaz de ampliar, por exemplo, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A política de assinatura de tratados de livre comércio adotada pelo Chile na década de 1990 também deixou o país muito exposto às oscilações do mercado internacional, avaliou.

O economista acrescentou que a economia chilena continua dependente do endividamento das famílias. Muitos lares recorrem ao crédito porque os salários não são suficientes para cobrir o custo de vida. "Metade dos trabalhadores ganha menos de cerca de US$ 680 [R$ 3,6 mil], enquanto o aluguel em algumas regiões pode custar US$ 500 [R$ 2,6 mil] ou US$ 600 [R$ 3,2 mil]", exemplificou.

Para Durán Sanhueza, os eventos climáticos adversos aprofundam problemas que o país não conseguiu resolver ao longo de anos. "Mais do que uma tempestade perfeita, estamos diante de problemas estruturais que a economia chilena não resolve há muito tempo", afirmou.

Desemprego e custo de vida pressionam famílias

Durán Sanhueza apontou o desemprego como o dado mais preocupante da situação econômica chilena, já que taxa real pode ser ainda maior caso sejam considerados os desempregados desalentados, que deixaram de procurar trabalho, e os subempregados, entre eles pessoas com formação superior que ocupam postos de menor qualificação. Com essas categorias, o índice poderia chegar a 14%, estimou.

Segundo o economista, os efeitos da deterioração econômica já são sentidos por famílias que enfrentam dificuldades financeiras. A perda de empregos, a alta dos combustíveis e o aumento da inflação podem levar mais pessoas à pobreza.

"O que vemos é que o custo da deterioração econômica sempre acaba sendo absorvido por quem vive do próprio trabalho. Isso ocorre no capitalismo em geral, mas particularmente no Chile, vemos isso todos os dias", afirmou.

O pesquisador alertou que a taxa de pobreza, estimada em 17,3%, pode aumentar à medida que o desemprego reduz a renda de trabalhadores a zero. Ortiz, por sua vez, avaliou que o governo Kast tem margem limitada para adotar medidas capazes de reverter o cenário. Segundo ele, o Executivo está concentrado em decisões econômicas de médio e longo prazo, voltadas principalmente à atração de investimentos estrangeiros por meio de isenções e benefícios tributários.

Embora a situação fiscal do governo esteja "em maior ordem", o economista considera que há pouco espaço para políticas anticíclicas, tanto na área fiscal quanto na monetária. Apesar das dificuldades, Ortiz acredita que os indicadores macroeconômicos podem melhorar em 2027.

Para ele, o momento mais crítico deve ser o atual, sem expectativa de uma deterioração significativa adicional. A economia poderia apresentar uma recuperação moderada antes do fim de 2026, com avanço mais expressivo no primeiro trimestre de 2027. O economista ressaltou, porém, que o desempenho negativo da economia chilena não significa necessariamente que o país esteja em crise ou que vá entrar em recessão.