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Análise: alta nos combustíveis leva o Chile da euforia à desilusão com ajuste fiscal de Kast

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que o corte de subsídios nos combustíveis pressionou a inflação e desencadeou a insatisfação popular contra o governo do Chile, o segundo país da onda de direita latino-americana a enfrentar revés, depois da Argentina.

Por Sputnik Brasil 27/10/2026
Análise: alta nos combustíveis leva o Chile da euforia à desilusão com ajuste fiscal de Kast
Análise da alta dos combustíveis e do ajuste fiscal de Kast no Chile. - Foto: © AP Photo / Esteban Felix

Há cerca de sete meses como presidente do Chile, José Antonio Kast enfrenta uma deterioração de sua avaliação: em levantamento da Agenda Criteria, 82% dos entrevistados consideram que seu governo está abaixo das expectativas. A insatisfação alcança inclusive seus eleitores: entre os que votaram nele no primeiro turno, 57% avaliam que a gestão entrega menos do que esperavam.

A desaprovação está associada à deterioração do cenário econômico chileno. O Ministério da Fazenda do Chile reduziu para 0,7% a previsão de crescimento do PIB, enquanto o desemprego chegou a 9,6% entre junho e agosto e a inflação anual superou as expectativas, acelerando para 4,1%, com aumento nos preços do transporte e alimentos.

Além disso, Kast enfrenta críticas da oposição a projetos de segurança pública, especialmente às Regras de Uso da Força, legislação promulgada por sua gestão que mirava ser um marco no combate ao crime organizado, e que são contestadas no Tribunal Constitucional do Chile.

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Victor Farinelli, jornalista e subeditor de jornalismo internacional do Opera Mundi, diz que a deterioração de Kast está relacionada principalmente à economia e à percepção de que as medidas adotadas pelo presidente chileno pioraram as condições de vida da população. "As pessoas estão questionando justamente o diagnóstico do Kast de que o país estava quebrado", afirma Farinelli.

A alta dos combustíveis, após o corte de subsídios, pressionou a inflação e contribuiu para o aumento da insatisfação popular. O jornalista destaca que a reação também alcançou setores que apoiaram Kast durante a campanha, sobretudo após o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, cogitar a possibilidade de o Chile recorrer a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Só agora, com as medidas do Kast, é que as pessoas estão pensando: 'Poxa, no ano passado eu não estava tão ruim quanto o Kast estava dizendo, eu estou pior agora do que eu estava no passado'."

Farinelli avalia que esse descontentamento ajuda a explicar por que as manifestações contra o governo começaram mais rapidamente do que o padrão historicamente observado nos primeiros meses de mandato.

Além da economia, o jornalista aponta a imigração como outra fonte de insatisfação. Durante a campanha, Kast prometeu endurecer o controle das fronteiras com o Peru e a Bolívia, inclusive com a construção de fossos para dificultar a entrada de imigrantes por via terrestre. As medidas, contudo, não teriam resolvido o problema.

Sobretudo, há a possibilidade de uma nova onda de mobilizações em torno da educação. A discussão sobre o orçamento de 2027, o primeiro elaborado pelo governo Kast, provoca preocupação entre movimentos sociais diante do risco de cortes em programas educacionais, especialmente os relacionados à gratuidade do ensino básico e superior. Segundo Farinelli, a manutenção desses recursos está entre as principais reivindicações dos grupos atualmente mobilizados no país.

Em destaque, o jornalista explica que Kast interpretou sua vitória eleitoral como um aval a todo o seu programa de governo, embora parte dos eleitores possa ter votado nele pela expectativa de mudança. Ao seu ver, a queda da aprovação indica que uma parcela dos que apoiaram o presidente passou a rejeitar medidas que não considerava prioritárias durante a campanha.

"Se o cara foi eleito com mais de 50%, quase 60%, e agora só menos de 30% está apoiando, é porque tem muita gente que está percebendo que tinha muita coisa dentro do projeto que ela aprovou que ela deu menos importância e que, talvez, se ela tivesse dado mais importância no ano passado, não teria votado nele."

Somando à conversa, o internacionalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Henrique Martins pontua que o desemprego na casa dos 10%, uma máxima histórica, e os cortes em programas sociais decorrentes do ajuste fiscal de Kast impactaram a aprovação do presidente.

Entre os principais setores afetados pelo ajuste de Kast estão os combustíveis e a saúde, que é totalmente privatizada no Chile, e conta com um fundo público, o Fundo Nacional de Saúde (Fonasa, na sigla em espanhol), uma espécie de plano de saúde do governo, que teve um corte de 259,5 bilhões de pesos chilenos (cerca de R$ 1,4 bilhão). Somado a isso, o governo decidiu cortar o Mecanismo de Estabilização de Preços dos Combustíveis (MEPCO, na sigla em espanhol), que subsidia os preços da gasolina e do diesel, amortecendo os impactos da alta no cenário externo.

"De um dia para o outro, nós vimos aqui no Chile, vou fazer a conversão para reais, a gasolina subir em torno de 3 reais e o diesel subir em torno de 5 reais. E aí foi realmente um primeiro choque do governo na opinião pública e, claramente, isso tem gerado um efeito em cascata de inflação", afirma.

Martins diz que o desgaste na aprovação de Kast tem similaridades com o do presidente da Argentina, Javier Milei, que está indo para o terceiro ano de governo, com um ajuste fiscal de alto custo e sem grandes benefícios para a população argentina. Porém, ele diz que isso não significa um arrefecimento da onda de direita na América Latina.

"Temos Keiko Fujimori, no Peru, que está eleita há menos de seis meses. Temos Abelardo de la Espriella, na Colômbia, também eleito há menos de dois meses. [...] Por mais que a gente teve a eleição do Lula, e isso direciona pra outro lado, ainda não vejo que é uma reversão considerável."