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Lula defende Sul Global; Flávio busca aproximação com EUA e Israel

Candidatos apresentam propostas distintas para a política externa do Brasil.

Agência Brasil 13/10/2026
Lula defende Sul Global; Flávio busca aproximação com EUA e Israel

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O plano de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para política externa enfatiza o fortalecimento das relações do Sul Global, além de promover relações com “todas as regiões do mundo”.

Em contrapartida, o plano do candidato Flávio Bolsonaro (PL) visa uma aproximação mais intensa com os Estados Unidos (EUA), Israel e Argentina.

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Destaque na campanha deste ano, a política externa do Brasil é abordada pelos candidatos em capítulos específicos dentro dos planos de governo. Lula dedicou quase seis páginas ao tema, enquanto Bolsonaro alocou cerca de três.

O plano de Lula ressalta que o mundo enfrenta “conflitos sem precedentes” desde a Segunda Guerra Mundial, envolvendo ataques ao direito internacional e a tentativa de “imposição de uma ordem mundial predatória”.

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, afirma o documento.

O candidato do PL, por outro lado, argumenta que a soberania deve ser exercida “na prática” e não por meio de “bravatas”.

“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, critica o texto, referindo-se à postura do governo Lula em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel.

Flávio tem defendido as intervenções militares do governo de Donald Trump, como a guerra contra o Irã e a invasão da Venezuela, ao passo em que critica a atuação do Brics em fomentar o comércio entre países sem a necessidade do dólar.

Por sua parte, o governo Lula condena os ataques militares ao Irã e a intervenção na Venezuela, que buscou a captura de Nicolás Maduro, promovendo um apelo ao diálogo diplomático, respeito ao direito internacional e contenção das partes.

“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, menciona o documento de Flávio Bolsonaro.

Defesa nacional

09/10/2026 - Primeiro Gripen E produzido no Brasil faz voo inaugural no interior de SP — Foto: Divulgação/Embraer
Primeiro Gripen E produzido no Brasil faz voo inaugural no interior de São Paulo — Foto: Divulgação/Embraer

O plano de governo de Lula propõe o fortalecimento da indústria de defesa nacional em um contexto de violação constante do direito internacional.

“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, destaca o plano.

O projeto do candidato do PT menciona as medidas implementadas no atual mandato para reforçar a capacidade de defesa do Brasil por meio do Novo PAC [Programa de Aceleração do Crescimento].

“Desde 2023, já foram investidos R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos. Foram entregues 7 caças Gripen-F-39, com a primeira aeronave produzida em solo brasileiro este ano. Também adquirimos 3 cargueiros KC-390 fabricados no país e estamos construindo 4 fragatas, sendo que a primeira já está em operação. Além disso, foram produzidas 226 viaturas blindadas”, ressalta.

O candidato Flávio Bolsonaro também aborda a relação entre defesa e política internacional ao prometer fomentar a tecnologia militar com foco em inovação em drones e inteligência artificial.

“Os investimentos nas Forças Armadas devem corresponder à inserção de um país que é membro de diversos blocos e grupos de nações, visando enfrentar desafios políticos e econômicos globais”, justifica o documento do PL.

Sul Global

Presidente da China, Xi Jinping, em Pequim
A China atua ativamente como porta-voz e parceira de blocos do Sul Global, integrando o Brics. Na foto, o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim - Reuters/Carlos Garcia Rawlins/Direitos Reservados

No plano de Lula, é traçada uma política externa “universalista”, visando estabelecer relações com “todas as partes do mundo” para diversificar as parcerias comerciais do Brasil.

“Investiremos em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados para nossos bens e serviços, de modo a continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do país”, diz.

Desde o ano passado, o Brasil tem sido alvo da política de tarifas do governo Trump, que impacta também outros aliados históricos dos EUA, como Canadá e Índia.

O plano de governo da chapa de Lula destaca ainda a importância de fortalecer a cooperação com o Sul Global, remetendo a países considerados em desenvolvimento, majoritariamente localizados no Hemisfério Sul do planeta.

“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, constata o documento.

O G20 é o grupo de países com as maiores economias do mundo, incluindo a União Europeia, e reúne também EUA, França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul. O Brics inclui Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

O plano de Lula promete ainda o aprofundamento das relações com a África, "reconhecendo sua crescente importância na ordem internacional e os laços históricos e culturais que unem o Brasil ao continente africano”.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, ressalta que defender a soberania implica abrir mercados para quem produz no Brasil e atrair investimentos.

“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, e não a simpatia ou antipatia por este ou aquele governo.”

China e terras raras

Vale do Jequitinhonha (MG), 22/04/2025 - Mineração de lítio. Foto: Sigma Lithium/Divulgação
Candidatos apresentam projetos diferentes para desenvolvimento de minerais críticos e terras raras - Sigma Lithium/Divulgação/Arquivo

O plano de Lula prevê o desenvolvimento de uma política específica para minerais críticos e terras raras, com o intuito de organizar cadeias produtivas, diferenciando seus usos tecnológicos e evitando a mera exportação de matérias-primas estratégicas.

“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, destaca o projeto de governo.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, compromete-se a atrair capital estrangeiro e tecnologia já disponíveis, transferindo como conhecimento para o Brasil.

“Estabeleceremos parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos.”

O tema das terras raras tem sido abordado por Flávio Bolsonaro em encontros internacionais. Em março deste ano, durante um evento conservador nos Estados Unidos, afirmou que o Brasil é a solução para “quebrar” a dependência norte-americana da China em relação aos minerais críticos.

“O Brasil será o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será definido, porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para desfazer a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente os elementos de terras raras”, declarou.

Com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, cerca de 21 milhões de toneladas, o Brasil representa aproximadamente 23% do total. Em contraste, os EUA somam apenas 1,9 milhão de toneladas, representando em torno de 2% das reservas conhecidas.

Os minerais críticos, incluindo terras raras, são insumos essenciais para as indústrias de tecnologia, defesa e transição energética, sendo fulcrais no embate comercial e tecnológico entre China e EUA.

O governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi marcado por conflitos com a China, incluindo a afirmação de Eduardo Bolsonaro de que a pandemia de covid-19 seria responsabilidade do governo de Pequim, provocando um pedido de retratação da Embaixada da China no Brasil pela “provocação flagrante”.

Integração sul-americana

Reconhecendo um mundo em instabilidade, o plano do governo Lula considera que a integração regional e a afirmação da América do Sul e do Caribe como “zona de paz” deve ser prioridade do próximo mandato.

“A integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil. Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional”, proferiu o documento.

Tarifaço contra o Brasil

US President Donald Trump looks on during a meeting with Britain's Prime Minister Andy Burnham on the sidelines of the 81st United Nations General Assembly, in New York City, US, September 22, 2026. REUTERS/Toby Melville/Pool
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas a produtos brasileiros. - Reuters/Toby Melville/proibida reprodução

Em uma crítica ao governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, o plano de Lula argumenta que o Brasil ficou “isolado” geopoliticamente, com a diminuição do prestígio diplomático e desidratação de acordos regionais.

Lula também acusou a família Bolsonaro de “traidores da Pátria”, uma vez que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro se mudou para os EUA, onde articulou tarifas comerciais do governo Trump contra o Brasil. Ele também falou sobre a imposição de tarifas aos produtos brasileiros na ocasião em que Trump criticou o Supremo Tribunal Federal, que já se preparava para o julgamento de Jair Bolsonaro pela trama golpista.

Tanto Eduardo quanto Flávio comemoraram a adoção de tarifas pelos Estados Unidos, apesar dos prejuízos para parte da economia brasileira.

“Obrigado Presidente Trump - Faça o Brasil Livre Novamente - Queremos Magnitsky!”, escreveu Flávio, aludindo à Lei Magnitsky, que foi imposta pelos EUA em retaliação a autoridades brasileiras e ministros do Supremo.

Flávio Bolsonaro costuma atribuir as tarifas impostas por Trump à suposta agenda “anti-EUA” do governo Lula.

No capítulo que menciona o agronegócio brasileiro, Flávio Bolsonaro promete trabalhar para buscar soluções diplomáticas eficazes contra sanções dos EUA, da China e da Europa aos produtos nacionais.

“Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia. O Itamaraty voltará a ser conduzido pela competência técnica que sempre marcou seus quadros”, finaliza o documento.

No entanto, nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro defende uma “faxina” no Itamaraty, alegando que há servidores que teriam “saboteado” a gestão do pai, Jair Bolsonaro.

OCDE

O plano do candidato Flávio destaca ainda o objetivo de incluir o Brasil na OCDE [Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico], um fórum que reúne 38 países, entre eles os mais desenvolvidos, para a produção de estatísticas e recomendação de políticas públicas.

“A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige a convergência das nossas normas com os padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”, justifica Flávio Bolsonaro.

A Agência Brasil publica, neste segundo turno, matérias com o comparativo dos planos de governo dos dois candidatos.