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Por que o México não está na 'lista negra' do narcotráfico da qual a Venezuela saiu?
Decisão dos EUA gera questionamentos sobre a geopolítica na América Latina.
Depois de 20 anos, o Governo dos Estados Unidos decidiu retirar Caracas da lista de países que não cooperam na luta contra o narcotráfico, apenas algumas semanas após a assinatura de um possível acordo petrolífero entre ambas as nações.
A decisão ocorreu também meses após o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a quem Washington acusou de liderar uma rede de tráfico de drogas e uma organização criminosa chamada cartel dos Sóis - a mesma que, posteriormente, as autoridades dos EUA negaram a existência.
Com essa ação, restaram quatro países na chamada "lista negra", incluindo o Brasil e a Colômbia. Este último, segundo o governo estadunidense, pode sair do ranking com a eleição do novo presidente, Abelardo de la Espriella, aliado do presidente dos EUA, Donald Trump.
Apesar da narrativa insistente sobre a conivência do crime organizado com governos da América Latina, a Casa Branca não incluiu o México nesse rol, embora não considere que o país, governado por Claudia Sheinbaum, esteja fazendo o suficiente em matéria de segurança.
No mesmo dia em que o México comemorava o 216º aniversário do início da guerra de Independência, Washington enviou uma determinação presidencial ao Congresso, na qual o Departamento de Estado reconhecia os esforços da atual Administração do país latino-americano para reduzir o tráfico de drogas.
No entanto, e apesar de destacar que a fronteira entre ambas as nações "é a mais fechada e segura da história dos EUA", a nação norte-americana declarou que os esforços que o México tem feito "são insuficientes para sustentar e expandir suas campanhas contra os narcoterroristas".
Em busca da subordinação
Em entrevista à Sputnik, o doutor em estudos latino-americanos Aníbal García Fernández opinou que a decisão de retirar a Venezuela da "lista negra" evidencia que o interesse dos EUA não está centrado numa questão de segurança, mas numa questão geopolítica, com ênfase particular nos recursos naturais.
Ele, que também integra o Observatório Lawfare, afirmou que o narcotráfico foi um pretexto para "destruir um projeto de nação soberano que se afastava da geopolítica norte-americana" e que participava na "construção de um mundo cada vez mais multipolar".
"O que lhes interessava era, nada mais nada menos, que o petróleo. Grande surpresa para alguns, para outros não é tanto, porque desde logo sempre dissemos e soubemos que o interesse por trás de toda esta estratégia mediática, judicial, política, militar era precisamente ter o controle das reservas [de crude]", comentou.
Para García Fernández, essa é uma estratégia que tem sido usada há décadas no contexto do combate contra as drogas, a qual tem servido como desculpa para interferir em países que não se alinham com os interesses políticos e ideológicos de Washington.
"A guerra contra o narcotráfico nos EUA dura há mais de 50 anos, desde Nixon [...]. Nem baixou o tráfico de estupefacientes para [solo norte-americano]; continua a ser o principal país consumidor de droga e centro de lavagem de dinheiro a nível internacional. Muito desse [crime] provém dos grupos do narcotráfico", recordou.
O investigador destacou que o México não foi incluído na lista de países que não cooperam na luta contra o narcotráfico, já que, apesar das críticas, existe colaboração de alto nível entre ambas as nações. Atualmente, o México faz parte apenas da lista de países que servem como trânsito ou centros de produção de drogas, junto a outros 22, entre eles, China, Afeganistão, Equador, El Salvador e a Índia.
Para García Fernández, essa ambivalência faz parte de uma estratégia para minar a participação de potências estrangeiras como a China na América Latina, apropriar-se de recursos naturais e incentivar o complexo militar-industrial norte-americano.
"Isso vamos ver já em vários países. De fato, acontece no caso da Argentina, que comprou aviões sucata, [que datam] da década de 80. Observa-se, por exemplo, na Colômbia, que também já começou a fazer este tipo de declarações, e assim se vive no caso do Equador, que se converteu, com o governo de Daniel Noboa, numa base militar", declarou o investigador.
Nesse contexto, o atual governo dos EUA está usando o sistema de justiça norte-americano para alimentar narrativas que minem a unidade política de um país cujas diretrizes vão contra os seus interesses.
Ao comentar as declarações do governo Trump, a mandatária mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu que o país latino-americano questionou o trabalho e os resultados que o vizinho do norte tem apresentado para diminuir o consumo de estupefacientes.
"O que estão fazendo com o consumo [de drogas nos Estados Unidos]? Porque, da nossa perspectiva, é uma questão de saúde pública, de atenção aos jovens. Historicamente, tem havido uma visão de que se produz droga aqui para a levar para os Estados Unidos, e há que trabalhar para que isso não aconteça. Mas o que acontece com quem consome lá?", questionou em coletiva de imprensa.
Por Sputnik Brasil
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