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EUA exigiram do Brasil eleições 'livres e justas' e proteção a dissidentes após tarifaço, diz mídia
Demandas incluem garantias de liberdade de expressão e proteção a prestadores de serviços digitais.
Documento sigiloso enviado pelo governo Trump ao Brasil em 2025 exigiu eleições "livres e justas" e a garantia de que dissidentes políticos não seriam detidos ou impedidos de participar do pleito de 2026.
A demanda, parte de uma lista de 21 condições após o tarifaço de 50%, foi considerada ingerência pelo governo Lula.
A exigência do governo de Donald Trump para que o Brasil garantisse eleições "livres e justas" em 2026, sem deter ou impedir dissidentes políticos, foi enviada em documento sigiloso aos negociadores brasileiros em outubro de 2025, de acordo com a apuração de um jornal de grande circulação no país. O texto, obtido pela mídia, integra uma lista de 21 demandas apresentadas após o tarifaço de 50% imposto pelos EUA.
Considerada uma ingerência por integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a cláusula em questão determinava que o Brasil não poderia "deter, prender ou limitar arbitrariamente" opositores políticos, o que foi interpretado como uma referência relacionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, preso em regime domiciliar humanitário por questões de saúde, inelegível até 2030.
O Itamaraty não comentou oficialmente o teor da proposta, mas, segundo a mídia, autoridades norte-americanas afirmaram, sob reserva, que os EUA respeitariam o resultado das urnas desde que o pleito fosse "livre e justo".
Além do mais, o embaixador indicado por Trump, Daniel Perez, que ainda aguarda decisão do governo para assumir o posto em função do não cumprimento protocolar, negou intenção de interferir na disputa eleitoral durante uma entrevista à TV norte-americana, afirmando que as eleições no Brasil "cabem aos brasileiros decidir".
A demanda norte-americana nunca havia sido divulgada e não era conhecida por todos os envolvidos na negociação bilateral. Segundo a apuração, o documento foi apresentado à comitiva liderada pelo chanceler Mauro Vieira em 16 de outubro de 2025, durante missão em Washington para discutir o tarifaço.
O ministro teria recebido a proposta por e-mail e, segundo diplomatas, classificado o texto como "inaceitável", determinando que não fosse levado às reuniões formais com autoridades norte-americanas. Ainda segundo o jornal, o chanceler teria conversado reservadamente com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e participado de encontros ampliados com o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) e da Casa Branca.
Os relatos oficiais das reuniões mencionaram apenas diálogos positivos sobre comércio, sem referência ao documento.
Vieira afirmou à imprensa, na época, que o encontro teve clima "construtivo" e que buscava reverter medidas norte-americanas, preparando a reunião entre Lula e Trump marcada para 26 de outubro. No entanto, auxiliares relataram ao jornal que Vieira informou Lula sobre a viagem, mas omitiu o teor da proposta norte-americana.
Em nova visita a Washington, já em novembro daquele ano, o chanceler disse ter enviado uma contraproposta brasileira, que teria ignorado as exigências iniciais dos EUA.
A apuração revelou que a lista norte-americana continha 21 tópicos, majoritariamente comerciais, mas quatro tratavam de temas internos brasileiros. Além das eleições, os EUA exigiam garantias de liberdade de expressão para cidadãos e empresas norte-americanas, proteção a prestadores de serviços digitais e ausência de penalidades a instituições financeiras brasileiras que cumprissem sanções dos EUA.
O documento citava a Primeira Emenda dos EUA e pedia que o Brasil não aplicasse multas, congelamento de ativos ou prisões por condutas protegidas por ela. Também exigia regras claras para remoção de conteúdo e responsabilização em redes sociais.
As demandas refletiam críticas de autoridades norte-americanas ao ministro Alexandre de Moraes, sancionado pelo Tesouro dos EUA sob acusação de censura e violações de direitos humanos. Empresas como Rumble e Trump Media moveram ações contra Moraes na Justiça da Flórida.
O teor do documento, de acordo com o jornal, retomava argumentos usados por Trump ao anunciar o tarifaço, quando chamou o processo contra Jair Bolsonaro de "vergonha internacional" e acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de censura. A sobretaxa foi posteriormente derrubada pela Suprema Corte dos EUA, mas novas tarifas foram impostas em 2026.
Brasil e EUA seguem negociando, com nova rodada prevista para o fim do mês, durante reunião do G20, resta saber se o governo de Trump considerará razoável a negativa do país latino-americano diante daquilo que acredita ser "interferência política".
Por Sputinik Brasil
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