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Radicalização do fundamentalismo: como a teologia da dominação impacta a política

Análise de especialistas sobre o avanço da teologia do domínio no Brasil

Sputnik Brasil 16/09/2026
Radicalização do fundamentalismo: como a teologia da dominação impacta a política
Análise da teologia da dominação e seu impacto na política brasileira - Foto: © Foto / Unsplash\Ben White

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacam que a teologia do domínio, uma construção transnacional iniciada nos EUA, avançou na política brasileira trazendo a ideia de um Estado teocrático, que coloca em risco a soberania e a liberdade religiosa.

Em junho, a líder religiosa e coach cristã nigeriana Obii Pax-Harry visitou o Brasil, tendo na agenda um encontro com a ex-primeira-dama e atual candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL).

Pax-Harry está à frente da teologia da dominação, também chamada de teologia do domínio, uma corrente fundamentalista cristã criada nos EUA, que defende que religiosos dessa vertente devem assumir o poder político e ocupar todos os espaços da organização da sociedade, criando uma espécie de Estado teocrático. O encontro com Michelle, que lidera as pesquisas no Distrito Federal, sinaliza que a teologia do domínio ganhou força no Brasil, alimentada principalmente por políticos radicais de direita.

À Sputnik Brasil, Maxwell Teixeira, mestrando em sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), explica que a teologia do domínio não é uma igreja em si nem uma organização única, mas uma categoria analítica que determina que a Bíblia deve fundamentar a compreensão e a organização da sociedade.

“Estamos falando de família, educação, economia, governo, Estado, moralidade, relações sociais. Então, olhar para a teologia do domínio abrange muito mais do que simplesmente falar que os cristãos estão votando ou estão interessados em encargos públicos.”

O especialista explica que essa corrente religiosa chegou ao Brasil no início do milênio, quando o número de evangélicos no país começou a aumentar expressivamente, chegando a 26,9% em 2026.

Porém, isso não significa que todos os conservadores, cristãos ou evangélicos defendam a teologia do domínio. Ele aponta, por exemplo, que há um estigma de que “crente é tudo igual”, mas que isso é um erro de análise sociológica, uma vez que não há homogeneidade no grupo dos evangélicos e, dentro da corrente, há, inclusive, evangélicos progressistas.

“Uma pessoa pode defender posições conservadoras sobre família e sexualidade, sem necessariamente possuir uma concepção 'dominionista' da sociedade. Pode haver a participação de cristãos na política sem defender uma sociedade governada pela Bíblia.”

Ele destaca as chamadas “igrejas de garagens”, que são pequenos templos, em contraste com grandes igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e o trabalho social que realizam dentro dos presídios e em outros lugares de vulnerabilidade total.

“Eu entendo que não basta apenas olhar para aquilo que as lideranças, e eu digo as grandes lideranças, fazem, mas para aquilo que as bases estão fazendo, para aquilo que elas acreditam, para aquilo que elas reinterpretam”, afirma.

Em sua fala à reportagem, ele elenca o desencantamento político como um dos motores de difusão de ideias como a da teologia da dominação, sublinhando que boa parte dos brasileiros foi criada dentro de uma perspectiva cristã, muitos deles com uma leitura fundamentalista das escrituras sagradas.

“O que você vai ver é esse levantamento de 'Olha, nós estamos tirando a nossa nação do império das trevas, nós estamos resgatando os valores cristãos, chega de corrupção, chega de bandidagem' e todos esses discursos que vão alimentando e trazendo de volta esse olhar”, pondera o pesquisador.

Teixeira, que é autor do livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil, uma coletânea sobre experiências interreligiosas, enfatiza que o avanço de correntes evangélicas radicais ameaça aumentar a intolerância religiosa contra religiões de matrizes africanas, que também cresceram no Brasil nos últimos anos.

Isso ocorre porque, se durante o período da escravidão os negros e seus cultos religiosos já eram apontados como opostos ao cristianismo europeu, essa visão é agravada pela teologia da dominação. “Outras religiões vão passar a ser vistas como inimigos”, observa o pesquisador.

Já o pastor Sergio Dusilek, doutor em ciência e religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), considera a teologia da dominação uma radicalização do fundamentalismo cristão estadunidense, que visa criar uma “sharia gospel”.

Dusilek explica que essa tendência agrava a polarização política, uma vez que uma pessoa radicalizada pelo fundamentalismo, ao receber qualquer ataque a suas convicções, vê como um “ataque do diabo”.

Origem nos EUA

O especialista explica à Sputnik Brasil que essa abordagem é, em alguns momentos, chamada de reconstrucionismo, pois seus fundadores defendem que os Estados Unidos foram fundados sob uma percepção bíblica e cristã, mas ao longo do tempo se afastaram desse modelo, que precisaria ser retomado.

Para o teólogo, há uma confluência e uma ação coordenada da extrema-direita política com os dominionistas. “Sempre houve a procura de explorar politicamente a religião e os votos contidos nas diferentes tradições religiosas.”

“A novidade é o açodamento e também o despudor com que isso é feito nesse instante, nessa quadra histórica que nós estamos, em nome dessa proximidade maior com o poder instituído, ou na tentativa de conseguir alcançar os poderes instituídos.”

Dusilek alerta ainda para o fato de que a teologia do domínio coloca em risco a soberania dos países, uma vez que “os recursos que vêm para propagar esse tipo de teologia são majoritariamente estadunidenses.”

O uso da religião na disputa eleitoral

Hoje, um dos principais eleitorados do país é o evangélico e, ainda que não seja um bloco monolítico, os políticos tentam capturar esse voto para si através de aproximações com líderes de grandes denominações.

Segundo Dusilek, nos anos 1990 e 2000, a estratégia usada por líderes religiosos para persuadir fiéis, transformando-os em eleitores, era a indicação de púlpito; hoje, esse modelo não surte mais tanto efeito. A grande estratégia agora são as redes sociais, principalmente grupos de WhatsApp e Telegram das igrejas.

Diante disso, ele avalia que a regulamentação das Big Techs, as empresas por trás das plataformas de redes sociais, contribuiria para conter essa tendência.

Outro ponto abordado pelo teólogo é a proeminência do pensamento religioso na disputa política. Dusilek afirma que se o pensamento fundamentalista de colocar a Bíblia acima da Constituição conseguisse lograr êxito, as consequências iriam além do fim da liberdade religiosa, acarretando também um freio no progresso científico.

“A relação com a política é que a política se torna o espaço público, se torna o palco da disputa e, logicamente, da tentativa de tomada do poder, no primeiro momento pela via democrática, para logo depois, então, se instaurar uma ditadura religiosa.”

Outras consequências seriam a doutrinação do ensino para coadunar com a visão dominionista sobre a Bíblia, ataque às liberdades individuais e a condenação da população miserável à morte, pois eles são vistos pelos dominionistas como pecadores ou preguiçosos.

“Eles não veem como um problema da injustiça do sistema ou que o sistema gera a miséria para um lado, ao mesmo tempo que abarrota os ganhos para um pequeno grupo. Eles não conseguem ter essa percepção, rejeitam ela e acham que os miseráveis têm que ser abandonados à sua própria sorte.”


Por Sputnik Brasil