Geral
Terapias controlam câncer por anos, mas acesso é a trava
Desafios para trazer inovações ao paciente
O avanço de terapias que atuam sobre características específicas dos tumores está mudando a forma de tratar o câncer. Em determinados casos, pacientes que antes tinham poucas alternativas hoje conseguem controlar a doença por anos, com qualidade de vida. A possibilidade de transformar alguns tipos em condições crônicas, porém, convive com um desafio central: garantir que a inovação chegue a quem precisa dela.
Esse foi o tema central do painel Terapias Inovadoras Que Mudam Vidas e Ampliam o Acesso, da 6.ª edição do Retratos do Câncer, fórum realizado pelo Estadão Blue Studio na semana passada. A conversa contou com as participações de Carlos Gil Ferreira, oncologista e CEO da Oncoclínicas; Helaine Capucho, diretora de Acesso ao Mercado da Interfarma; e Helano Freitas, oncologista clínico e líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C. Camargo Cancer Center.
Essa transformação começou a ganhar força há 25 anos, quando os avanços no conhecimento da biologia dos tumores abriram caminho para estratégias terapêuticas específicas. Terapias-alvo, imunoterapia, anticorpos específicos e outras abordagens ampliaram as possibilidades de tratamento e passaram a ser utilizadas em diferentes momentos da jornada do paciente.
“São várias plataformas que hoje não são excludentes. Na verdade, elas são aditivas. A gente vai utilizando à medida que o paciente vai percorrendo a jornada, e isso permitiu esse grande avanço que a gente vê hoje, com impacto em termos de controle da doença e de qualidade de vida dos pacientes”, afirmou Carlos Gil.
“Os conhecimentos de biologia tumoral levaram à multiplicação dos tipos de câncer. O adenocarcinoma de pulmão foi transformado em múltiplas doenças, algumas inclusive raras”, explicou Helano. “Conhecer isso faz uma diferença enorme na seleção do tratamento. Mas a gente só conhece isso fazendo teste molecular do tumor.”
Esse conhecimento tornou mais evidente a distância entre o que a Medicina já é capaz de oferecer e o que chega aos pacientes. As novas tecnologias têm custos elevados, e a diferença entre os tratamentos disponíveis nos sistemas público e privado aumentou justamente à medida que a oncologia avançou. “Imagina que a pessoa está lá em Maceió e a amostra vem sendo testada aqui em São Paulo. Às vezes o resultado demora 45, 60 dias para voltar. Isso vai afetar o início do tratamento”, explicou o oncologista do A.C. Camargo.
“Mesmo quando o medicamento é incorporado no SUS, nós estamos levando 37 meses para que ele seja adquirido. A gente já fala de três ciclos orçamentários”, afirmou Helaine.
Precificar a inovação
O desafio de ampliar o acesso implica rever a forma como os medicamentos são precificados e financiados. A questão, dizem especialistas, é como conciliar o alto custo das novas terapias com a necessidade de garantir que seus benefícios cheguem a mais pacientes.
O oncologista Helano Freitas defende que o modelo considere não apenas a novidade de um medicamento, mas a dimensão do benefício efetivamente entregue. Ele chama a atenção para remédios cujo preço não diminui mesmo após a expansão de seu uso. “Houve massificação, mas, ao contrário de outros mercados, o preço não cai. O que está trazendo pressão de queda hoje são drogas entrantes, que fazem a mesma coisa e estão chegando dez anos depois com preços mais baratos”, diz Freitas. “A gente precisa esperar cair a patente para ter drogas menos caras?”
Para o também oncologista Carlos Gil Ferreira, a resposta ao desafio não virá apenas de novos medicamentos ou de reduções pontuais de preços. É preciso inovar no modelo de assistência e financiamento.
“A inovação das moléculas é fantástica. E dos testes diagnósticos, também. Só que a inovação tem de ser de processo: de financiamento, de incorporação, de compra.”
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