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Eliminar o subsídio aos combustíveis na Bolívia exige medidas 'que não esqueçam o fator social'

Governo enfrenta escassez de recursos e pressão social por mudanças.

Sputnik Brasil 05/09/2026
Eliminar o subsídio aos combustíveis na Bolívia exige medidas 'que não esqueçam o fator social'
Proposta de eliminação de subsídios aos combustíveis na Bolívia gera reflexões sobre o impacto social. - Foto: © Folhapress / Luis Carlos Marauskas

Afetada pela falta de dólares e combustíveis desde 2023, a Bolívia importa 90% do diesel e 60% da gasolina, sem capacidade para produzir mais devido à baixa exploração de hidrocarbonetos.

O governo chefiado pelo presidente Rodrigo Paz propôs eliminar o subsídio aos hidrocarbonetos, que atualmente custa ao Estado US$ 180 milhões (R$ 922,7 milhões) por mês.

Em reunião com prefeitos, ele disse: "Levante a mão quem quiser um hospital ou uma escola. Essa grana a gente gasta com o subsídio do combustível ou investe em obras para os municípios? Vocês decidem".

Setores empresariais e políticos apoiaram a proposta governamental, que inevitavelmente repercutiria nos preços dos alimentos e de outros produtos. Economistas consultados pela Sputnik avaliaram que a medida é necessária neste contexto, mas, caso seja adotada, devem ser tomadas as salvaguardas necessárias para que o impacto não afete as famílias empobrecidas.

Decretado em 20 de junho para conter os protestos contra a atual administração, um estado de exceção vai até 19 de setembro.

No entanto, nos últimos dias, voltaram a surgir bloqueios em comunidades camponesas do departamento de Santa Cruz devido ao aumento do diesel. Camponeses, agroindustriais e motoristas, entre outros setores, advertiram que vão se mobilizar contra a política de combustíveis, que ainda não consegue garantir o abastecimento nos postos de serviço. Motoristas têm de passar até três dias em filas quilométricas para encher o tanque, como constatou esta reportagem em uma recente visita.

Na madrugada de ontem (3), autoridades locais desbloquearam grande parte de Santa Cruz, com o compromisso de continuar vendendo diesel a pequenos e médios produtores por preço mais baixo.

Em dezembro de 2025, Paz já havia eliminado o subsídio aos combustíveis, que naquele ano custaram ao Estado US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões), mas comprometeu-se a manter os novos preços de um dólar para a gasolina. Entretanto, o contexto internacional, marcado pelo confronto entre Estados Unidos e Irã no estreito de Ormuz, provocou seu aumento.

A diferença é custeada pelo governo boliviano, de modo que o sangria de recursos estatais se manteve para garantir a importação. A Bolívia não produz seus combustíveis, fundamentalmente porque a extração de hidrocarbonetos caiu drasticamente. Por esse mesmo motivo, a nação sul-americana não tem dólares para importar, o que gera círculo vicioso que afeta a população e, sobretudo, sua relação com a atual administração.

Um problema de longa data

Em diálogo com a Sputnik, o economista Jaime Bravo Sandoval avaliou: "A Bolívia há muito tempo tem uma crise no balanço de pagamentos. Estamos gastando mais dólares do que temos capacidade de gerar e não tivemos capacidade de reproduzir a riqueza".

O analista recordou que, em 2014, as reservas internacionais ultrapassaram os US$ 15 bilhões (R$ 77 bilhões), mas desde então não pararam de diminuir. Para o economista, isso ocorreu fundamentalmente por causa da política de subsídio à gasolina e ao diesel.

Na sua avaliação, a eliminação total do subsídio aos hidrocarbonetos é vital para que o país alcance preços internacionais e políticas sociais por meio de transferências diretas, além de criar emprego temporário, auxiliar os setores produtivos, privados e públicos e incentivar mais emprego de qualidade.

Atualmente, a Assembleia Legislativa Plurinacional avança em consensos para modificar a Constituição. Nesse sentido, o especialista considerou necessário fazer mudanças normativas.

"A Constituição estabelece que a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos [YPFB] é a única empresa que tem competência para fazer a comercialização dentro do país", lembrou.

A YPFB sofreu intervenção em 2 de setembro pelo governo, que determinou que a estatal não realizará mais a comercialização de combustíveis. Em vez disso, deverá se concentrar na descoberta de novos poços e na sua exploração.

"É prudente que em algum momento passemos a ter preços internacionais, mas com uma visão completa da economia: atraindo recursos por meio de créditos, que é a única via que nos resta no curto prazo, mas que sirvam para ajudar o sistema financeiro a voltar a ser o receptor dos dólares dos setores exportadores", disse ele.

Esse passo deverá vir acompanhado de "um conjunto de medidas que não esqueçam o fator social, que é fundamental, porque este pode ser um detonador da conflitualidade", acrescentou.

"A coerência deveria estar na construção de melhores condições, sobretudo para as pessoas menos favorecidas [...] Mais do que apenas combater a pobreza, começar a gerar elementos que permitam ampliar o emprego de qualidade".

Em tempos de vacas gordas

Para o economista Fernando Romero, o subsídio aos hidrocarbonetos, que vem de mais de três décadas, ajudou para que os setores público e privado se beneficiassem de combustíveis baratos, os mais econômicos da região por muito tempo.

Até então a política não era questionada, porque "havia o boom do gás natural, então tínhamos reservas internacionais e divisas suficientes para importar em grande quantidade, sem se importar se ia para o contrabando, para carros sem documentação ou inclusive para atividades ilegais como a mineração e o narcotráfico", ilustrou Romero.

Desde 2015, com o início da queda na produção e a exportação de recursos hidrocarboníferos, principalmente de gás natural, as receitas fiscais e, portanto, a entrada de dólares, também caíram, lembrou ele. "Apesar disso, manteve-se o subsídio, sabendo que ainda assim sangrava as finanças públicas", criticou ele.

Um plano estratégico

Para o economista, o mais importante não é o preço do dólar, mas a falta deles:

"O problema não é o preço em si, mas sim que não temos capacidade financeira para importar combustíveis. A questão de fundo é que somos uma economia que depende muito de importações e tem uma produção mínima desses combustíveis líquidos. Importamos quase 90% do diesel e quase 60% da gasolina."

Se esse cenário se concretizar, "vai se gerar um efeito inflacionário importante, porque tudo está relacionado com o diesel, as carnes de produção e comercialização. Isso, entre outros fatores, vai fazer com que a cesta básica de alimentos continue subindo".

Para Romero, "se fosse eliminado o subsídio total neste cenário recessivo que a Bolívia vive, além dessa falta de dólares, isso provocaria uma inflação de dois dígitos pelo menos. Acho que é preciso fazer um estudo sério e ter um plano integral para retirar o subsídio. E concordo que isso deve ser feito".