Geral

Venezuela 'precisa de muito mais que dinheiro', diz Corina Machado sobre acordo com os EUA

Oposição critica acordo petroleiro entre EUA e Venezuela

Estadao Conteudo 03/09/2026
Venezuela 'precisa de muito mais que dinheiro', diz Corina Machado sobre acordo com os EUA
María Corina Machado - Foto: Reprodução / Instagram

A líder da oposição venezuelana e ganhadora do Nobel da Paz, María Corina Machado, declarou, nesta quinta-feira, 3, que a Venezuela "precisa de muito mais que dinheiro", em relação ao inédito acordo petroleiro firmado entre os Estados Unidos e o governo interino de Delcy Rodríguez, cuja legitimidade ela questiona.

Em um vídeo gravado do exílio e publicado no X, Machado afirmou que "o setor petroleiro é apenas uma parte da imensa reconstrução" necessária na Venezuela, que "requer investimentos colossais".

"Em um país com as dimensões e a fragilidade institucional da Venezuela, nenhum setor poderá operar de forma isolada", reiterou Machado, que deixou seu país clandestinamente em dezembro para receber o Prêmio Nobel da Paz e atualmente reside no Panamá.

O presidente americano, Donald Trump, anunciou na semana passada a assinatura de um acordo "histórico" com a Venezuela, atribuindo ao seu país o controle de 20% das enormes reservas de petróleo venezuelano. O convênio concede aos Estados Unidos o controle de 65 bilhões de barris de petróleo em 17 campos distribuídos por diversas regiões do país.

A Venezuela estima que poderá gerar um lucro de 209 bilhões de dólares (R$ 1 trilhão) em 25 anos. "Tudo isso confere à Venezuela um valor estratégico extraordinário, tanto para a segurança nacional dos Estados Unidos quanto para a estabilidade do hemisfério. Mas o patrimônio do nosso solo não pertence a um REGIME ILEGÍTIMO, pertence ao povo venezuelano", enfatizou Machado.

"Os inimigos dos Estados Unidos na Venezuela estão hoje em Miraflores", acrescentou Machado, referindo-se ao palácio presidencial.

'Não estão prontos'

Após a assinatura, na quarta-feira, de acordos com multinacionais petroleiras, como Chevron e Eni, em Caracas, Trump e Delcy Rodríguez concordaram que a Venezuela não está pronta para realizar eleições.

"Simplesmente não me parece que estejam prontos ainda. Você sabe, é algo muito novo. Nós os tiramos de uma ditadura e estamos nos dando muito bem com o governo", declarou Trump na quarta-feira.

A mensagem da líder opositora chega oito meses após a captura do presidente Nicolás Maduro em uma operação militar americana.

Depois de assumir, em janeiro, como presidente interina, Rodríguez promoveu leis nos setores do petróleo e da mineração para atrair investimentos privados.

O presidente americano elogiou em várias ocasiões a administração de Rodríguez.

Machado apoiou a aliança com os Estados Unidos, mas afirmou que o país deve trabalhar "sob os princípios inegociáveis de transparência absoluta, legalidade e eficiência".

Isto "só é possível com a legitimidade e a estabilidade que um governo sério e democrático oferece", completou.

A oposição denuncia que houve fraude por parte de Maduro nas últimas eleições presidenciais de 2024 e reivindica a vitória do candidato Edmundo González, apadrinhado por Machado.

A líder opositora foi inabilitada politicamente e não pôde se candidatar no pleito.

Tristeza e raiva

"Sei o que vocês estão sentindo: tristeza, raiva e esse mal-estar tão recorrente na nossa história de que alguém decida sobre o que é nosso, em nosso nome, sem nos consultar", disse Machado em sua mensagem, ao destacar a "profunda preocupação pelas implicações que isso traz para o futuro da Venezuela".

A líder opositora prometeu que retornará à Venezuela, mas especialistas indicam que Washington não vê seu retorno com bons olhos.

Em agosto, iniciou-se em Caracas um diálogo político entre o governo interino e parte da oposição, com vistas a uma transição democrática, mas Machado não foi convidada.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou em uma entrevista à Fox News na quarta-feira que a nova rodada de negociações começará dentro de dez dias.

Maduro, de 63 anos, acusado de quatro crimes, incluindo "narcoterrorismo", pediu nesta quinta-feira, perante um tribunal em Nova York, a retirada das acusações contra ele, reivindicando sua imunidade como chefe de Estado.

A Venezuela possui as maiores reservas certificadas de hidrocarbonetos do mundo, com mais de 300 bilhões de barris, mas sua produção permanece limitada após décadas de investimentos insuficientes, sanções e corrupção.