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Por que o Dia da Vitória na China incomoda tanto o Japão? Especialista explica

Entenda as tensões geopolíticas entre China e Japão no contexto da remilitarização japonesa.

Sputnik Brasil 03/09/2026
Por que o Dia da Vitória na China incomoda tanto o Japão? Especialista explica
Especialista explica tensões entre China e Japão no Dia da Vitória. - Foto: © AP Photo / Ng Han Guan

A comemoração do “Dia da Vitória do Povo Chinês na Guerra de Resistência Contra a Agressão Japonesa” na Segunda Guerra Mundial, celebrado nesta quinta-feira (3), vai além de uma simples efeméride, uma vez que a data adquiriu um peso geopolítico significativo, especialmente com Tóquio intensificando sua remilitarização e as hostilidades contra Pequim.

Para entender esse contexto, a reportagem da Sputnik Brasil conversou com Evandro Menezes de Carvalho, professor da Universidade Politécnica de Macau e da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. Segundo ele, a ausência de um pedido formal de desculpas por parte de Tóquio prolonga e intensifica as tensões diplomáticas entre as duas nações até hoje. O sinólogo ressalta que as atrocidades cometidas pelas forças japonesas, como o massacre de Nanjing, cuja memória é anualmente relembrada em 13 de dezembro, permanecem profundamente vivas na consciência coletiva dos chineses.

"O horror do massacre de Nanjing está vivo na memória dos chineses. Além disso, o Japão, até hoje, nunca fez um pedido formal de desculpas. Em 2014, a Assembleia Popular Nacional aprova duas datas nacionais importantes, a primeira é 3 de setembro, que é a rendição total incondicional do Japão e a vitória dos chineses e 13 de dezembro para lembrar a memória das vítimas do massacre de Nanjing", disse.

O especialista destaca ainda que a recente remilitarização do Japão afronta a Constituição pacifista adotada pelo país após a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, o investimento em poder bélico, somado ao histórico, eleva as tensões e gera forte instabilidade regional na Ásia.

"De modo que a atual primeira-ministra do Japão dá força a um discurso de militarização do Japão só torna a situação ainda mais preocupante. O Japão rompe com os compromissos que havia se comprometido ao final da Segunda Guerra Mundial e pode criar uma situação de maior instabilidade regional aqui na Ásia", comenta.

Apagamento histórico por parte de países ocidentais

Carvalho, que também é professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta a seletividade ocidental na construção da memória histórica. Ele observa que, enquanto o Tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes nazistas, é amplamente conhecido, o Tribunal de Tóquio, responsável por julgar os crimes de guerra no teatro de operações asiático, permanece praticamente ignorado fora da Ásia.

"Em abril deste ano, houve um evento para celebrar o 80º aniversário de estabelecimento do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, o Tribunal de Tóquio, que julga os criminosos de guerra japoneses. Há toda uma discussão no Ocidente sobre o Tribunal de Nuremberg, mas não se fala do Tribunal de Tóquio, isso é mais um exemplo desse apagamento da história", destaca.

A União Soviética (URSS) desempenhou um papel crucial na libertação do território chinês, destacando-se em ações estratégicas como a "Operação Tempestade de Agosto", que desarticulou as forças de ocupação japonesa na Manchúria e pôs fim ao Estado fantoche de Manchukuo. Esses feitos históricos e o sacrifício dos combatentes soviéticos permanecem profundamente gravados na memória coletiva da China, conforme apontado pelo especialista.

O resgate desse legado pode ser testemunhado por Carvalho nesta semana durante a visita à exposição "Almas Heroicas Moldadas no Vasto Céu — Exposição sobre os Fatos Históricos da Aviação durante a Guerra de Resistência do Povo Chinês Contra a Agressão Japonesa", realizada no Complexo da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os países de Língua Portuguesa, em Macau.

"São dois países gigantes [Rússia e China] com uma história longa e há um esforço atual de trazer à luz esses fatos da história contados a partir deles próprios [como a atuação sino-soviética na Segunda Guerra]. Então, sim, há relatos da participação russa nesse processo, mas é natural também que a gente veja em eventos uma ênfase nos sofrimentos do povo chinês pelo que passou e, claro, na vitória sobre o Japão", observa.

Cultura chinesa em prol da preservação da memória

O professor Evandro Menezes de Carvalho, que recentemente lançou a obra "China: tradição e modernidade na governança do país", enfatiza que há uma produção cultural pujante no mercado chinês que conta com diversos formatos de mídia, como séries, filmes e livros, que retratam os variados episódios e o impacto da Segunda Guerra Mundial em território chinês, reforçando o compromisso do país em manter vivos os fatos daquele período.

"Esse movimento mais recente da capacidade chinesa de produzir produtos culturais de altíssimo nível, cinema em especial, séries de TV, enfim, intensificou a produção de novas histórias que muitas vezes se concentram em fatos específicos, não necessariamente a toda a guerra de resistência do povo chinês contra a agressão japonesa", conta.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é que os chineses não tratam a libertação do jugo japonês apenas como um marco puramente doméstico. Pelo contrário, essa vitória é celebrada como parte indissociável da grande luta antifascista mundial, posicionando o país como um dos principais protagonistas e defensores da paz e da ordem global pós-guerra.

"É importante destacar que a China não deixou passar em branco no ano passado, que era o 80º aniversário da vitória na guerra de resistência do povo chinês contra a agressão japonesa. Inclusive, eles incluem essa vitória na guerra antifascista mundial. É interessante isso", conclui.

Na geopolítica atual, a história é uma ferramenta estratégica crucial nas guerras de narrativas. O legado da Segunda Guerra Mundial exemplifica isso, funcionando como um território em constante disputa. Quando os países resgatam e contam seus próprios fatos, eles protegem sua identidade e garantem sua soberania narrativa contra distorções externas.


Por Sputnik Brasil