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All in: como as bets afetam a saúde mental e as relações das famílias brasileiras?

Estudo revela o impacto das apostas na vida de mulheres e suas famílias.

Sputnik Brasil 02/09/2026
All in: como as bets afetam a saúde mental e as relações das famílias brasileiras?
Pesquisa revela os impactos das apostas na saúde mental e nas relações familiares das mulheres brasileiras. - Foto: © Joédson Alves/Agência Brasil

O imagine sobre o apostador brasileiro tem gênero: masculino. No entanto, a pesquisa "Mulheres e Bets", realizada pelo Estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, indica que 42% das mulheres apostam ou já apostaram. Os problemas que emergem nesse contexto vão muito além das perdas financeiras.

"A parte mais triste de você estar sem dinheiro é quando você tem filhos. É quando seu filho pede uma coisa que você não pode comprar (...). E eles não entendem (...). Ele tá te vendo ali como um símbolo de mãe que sempre tem que ter dinheiro (...) você arruma de qualquer jeito, você trabalha, você tem que ter", disse à pesquisa uma apostadora de 43 anos, moradora de São Paulo.

Ao todo, na etapa qualitativa, o estudo entrevistou 60 pessoas, com idades entre 18 e 58 anos, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Mariana Ribeiro, diretora do Estúdio Clarice, destaca que durante a pandemia de COVID-19, o aumento do custo de vida e o desemprego, aliado à escassez de regulamentação das apostas de quota fixa, criaram a "tempestade perfeita" para as bets e jogos on-line se estabelecerem no país. Nesse cenário, as pessoas, em busca de recursos, viam os jogos como uma alternativa para retorno financeiro rápido e fácil.

"Muitas mulheres nos relataram: 'Eu achei que as bets eram uma voz de Deus conversando comigo, uma luz no fim do túnel para uma situação de muito apuro financeiro que eu estava passando'", revela Ribeiro.

Segundo a pesquisa "Raio X do Investidor Brasileiro", realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, o perfil do jogador brasileiro continua a ser masculino, com 66% dos apostadores sendo homens e uma média de idade de 35 anos.

Por outro lado, 42% das mulheres no Brasil apostam ou já apostaram, enquanto 12% afirmam ter sido impactadas pelas bets, uma vez que filhos, maridos, pais ou familiares próximos desenvolveram problemas a partir desses jogos on-line. A maioria delas, cerca de 49%, aposta em cassinos on-line (como roletas e o jogo do Tigrinho), 29% jogam sorte instantânea (raspadinha, Aviator) e 26% realizam apostas esportivas.

Entender as bets sob esse recorte de gênero, de acordo com a pesquisa "Mulheres e Bets", é crucial, pois revela crises que vão além das financeiras, abrangendo questões afetivas e familiares. "Apostadoras ou não, são elas a parcela da população mais impactada, pois lidam com as dimensões materiais (orçamento) e emocionais (relações) da maioria das famílias brasileiras", aponta o estudo.

O cuidado como porta de entrada

Um dos focos da pesquisa é entender por que as mulheres começam a apostar. A análise revela que a porta de entrada não é o entretenimento ou a busca por adrenalina, mas sim o cuidado.

"No ano passado, um dos meus filhos ia fazer aniversário e eu não tinha dinheiro para comprar bolo. Eu tinha R$10. Nos grupos do WhatsApp, as meninas faziam uma "meia" pra gente jogar. Você coloca dez, eu te devolvo cinco, com o link dela. Eu coloquei os R$10, apostei e ganhei R$300. Salvou: comprei o bolo. Era meu único R$10 antes do pagamento", relata uma apostadora de 40 anos, também de São Paulo.

Conforme Ribeiro, as entrevistadas falam sobre viver o que o estudo chamou de "vida mínima": uma rotina apertada, voltada para necessidades básicas, sem espaço para pequenos prazeres, como dar um presente de aniversário a um filho, sair de casa ou quitar uma conta atrasada. Nesse contexto, as apostas se apresentam como uma solução rápida para que cumpram o papel social de provedoras e cuidadoras.

O problema, no entanto, é que, ao entrar no jogo com essa expectativa, essas mulheres tendem a perder mais do que ganhar, resultando em mais dívidas, maior dificuldade para sustentar a casa e menos condições de cuidar da família.

De acordo com a diretora do Estúdio Clarice, os efeitos dessas apostas são devastadores para as mulheres dentro dessa dinâmica: "Elas sentem que não conseguem cumprir seu papel social, se acham incapazes e se culpam por não conseguirem cuidar da família".

Quando se culpam, dispõem um pouco da reflexão necessária sobre como as apostas são, na verdade, um jogo de azar, elaborado de maneira predatória. "Quando elas perdem, acreditam que é por não terem sido aptas ou por terem perdido o controle, muitas vezes porque estavam emocionadas jogando", complementa a pesquisadora.

Os impactos na saúde mental são significativos: de 209 mulheres entrevistadas, 20% relatam sentir ansiedade ao começar a apostar. Outras 9% mencionam crises de pânico, 11% depressão e 12% reconhecem o vício em apostas.

A pesquisa identifica também um padrão específico entre mães: mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais do que aquelas sem filhos, diferença atribuída à pressão do papel de cuidadora e provedora.

Além disso, mães que não apostam relatam a complexidade das bets envolvendo seus filhos. Em um dos depoimentos, Ribeiro compartilha situações em que mães dizem que filhos e filhas tentaram automutilação por causa da ansiedade gerada pelas perdas nos jogos. Um caso mencionado foi o de uma mãe que fez vigília na porta do quarto do filho, receosa de uma nova tentativa de suicídio ligada ao vício em apostas.

A quebra da confiança em casa é outro padrão comum: mesmo que um parceiro ou filho afirme ter parado de apostar, as mulheres relatam viver em estado de hipervigilância constante, sem conseguir voltar a confiar.

Um dado quantitativo reforça a gravidade da situação, evidenciando problemas que vão além dos impactos financeiros: 23% dos brasileiros entrevistados afirmam já ter testemunhado atos de violência ou agressividade relacionados a apostas on-line. Para a diretora do Estúdio Clarice, esse número é alarmante, pois representa cerca de um quarto da população e pode ser subestimado devido ao constrangimento em relatar esses episódios.

Dos influenciadores às relações de confiança: as mulheres foram cooptadas pelas bets

No Brasil atual, a publicidade agressiva das bets envolve a população diariamente: nas redes sociais, na TV, em grandes festivais e até em locais públicos como praças ou estações de transporte.

"Esse tipo de articulação tem um papel fundamental na naturalização das apostas, apresentando-as como algo normal, presente em todos os lugares e realizado por todos", afirma a pesquisadora.

Outro importante mecanismo para essa "normalização" do jogo na sociedade é a presença de influenciadores conhecidos nas redes sociais e grandes celebridades, que promovem casas de apostas ou divulgam em seus perfis, contribuindo para a ideia de diversão. "Isso cria uma camada que dá a impressão de que as bets estão em todo lugar", ressalta Ribeiro.

O estudo analisa também as camadas do sistema de influência, com a publicidade e os grandes influenciadores no topo da hierarquia. Além deles, Ribeiro destaca os microinfluenciadores e influenciadores locais: pessoas com poucos milhares de seguidores, cujas histórias de vida se assemelham às das mulheres, reforçando a ideia de que "isso pode ser para você também".

Entretanto, Ribeiro enfatiza que o elo decisivo reside nos laços pessoais: geralmente, essas mulheres começam a apostar porque receberam um link de uma amiga, uma tia, uma colega da igreja, ou alguém com quem têm laços afetivos significativos.

"Na igreja, uma irmã perguntou se alguém jogava. Ela falou que estava jogando e tinha ganho. Outra irmã curiosa quis saber quanto. Aí ela falou: 'Se quiser eu te mando a plataforma e você bota só esse valor que está pagando'. Fiquei curiosa e fui apostar. Perdi na primeira vez e fiquei traumatizada. Depois vi minha mãe jogando e ganhando, e todos na minha família jogam, todos viciados (...) O meu marido também joga. Decidi me arriscar", narra uma apostadora de 47 anos, da Bahia, entrevistada na pesquisa.

Esse exemplo demonstra o que Ribeiro destaca na interação com a Sputnik: muitas mulheres, ao convidarem outras, têm consciência de que seus ganhos dependem das perdas das convidadas, que entram no processo sem essa compreensão. Quando essa dinâmica é descoberta, costuma impactar negativamente o relacionamento.

Elas também são a porta de saída

Apesar da vulnerabilidade descrita ao longo do estudo, a conclusão aponta em direção oposta: as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas das bets, mas como aquelas que têm a percepção mais clara do problema e, portanto, estão em posição estratégica para auxiliar no enfrentamento da questão.

Os dados revelam que, entre 1.062 mulheres ouvidas, 62% apoiam a proibição das casas de apostas. Além disso, 67% acreditam que as bets estão destruindo as famílias brasileiras e 74% afirmam que as apostas estão viciando os cidadãos.

A pesquisadora destaca que a sociedade brasileira, em sua maioria e independentemente de ideologias, manifesta-se contrário à promoção de apostas on-line — um raro consenso em um país polarizado. As mulheres, por sua vez, são a parcela da população mais vocal nesse posicionamento.

Dentre as propostas levantadas pelas entrevistadas está a comparação com políticas já adotadas no Brasil para restringir a publicidade de álcool e cigarro, sugerindo que diretrizes semelhantes poderiam ser aplicadas à publicidade de apostas on-line. Segundo a pesquisa, 41% das mulheres afirmam que essas propagandas devem ser proibidas.

A especialista defende que quaisquer políticas públicas sobre o tema — seja para mulheres apostadoras, seja para aquelas impactadas que procuram acolhimento em serviços como SUS, Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) — devem ser elaboradas com a participação ativa das mulheres, e não apenas pensadas para elas.

"Não conseguiremos resolver essa questão no Brasil sem incluir as mulheres, pois são elas que estão absorvendo mais esses impactos e são as mais dispostas a se mobilizar", destaca.