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Urgência dos EUA por carne bovina representa oportunidade para Brasil e Mercosul, afirmam especialistas

Necessidade de importação dos EUA pode ser alavanca nas negociações tarifárias

Sputnik Brasil 02/09/2026
Urgência dos EUA por carne bovina representa oportunidade para Brasil e Mercosul, afirmam especialistas
Carne bovina brasileira e a urgência dos EUA criam oportunidade comercial para Brasil e Mercosul. - Foto: © AP Photo / Matilde Campodonico

A carne bovina do Brasil e do restante do Mercosul é vital para abastecer os Estados Unidos, que precisam aumentar suas importações para reduzir os preços no mercado interno. Especialistas consultados pela Sputnik alertaram que essa oportunidade fortalecerá a posição do governo Lula para negociar a remoção de tarifas em outros setores-chave.

A necessidade de Washington importar carne bovina pode se tornar uma oportunidade crucial para os países do Mercosul, especialmente o Brasil, que poderia usar seu potencial como fornecedor de carne bovina para o mercado norte-americano como alavanca para persuadir o governo dos EUA a reduzir algumas das tarifas impostas à indústria brasileira.

A necessidade dos EUA de aumentar as importações de carne bovina foi destacada em uma resolução anunciada no final de agosto pelo presidente norte-americano Donald Trump, como parte das medidas para reduzir o custo da carne bovina nos supermercados locais.

O governo dos EUA reconheceu que muitos cortes de carne bovina importados estavam sujeitos a tarifas que aumentavam seus preços e, portanto, decidiu autorizar uma cota adicional de 300 mil toneladas, dividida em três parcelas mensais de 100 mil toneladas entre setembro e novembro de 2026.

Em entrevista à Sputnik, José Luis Oreiro, economista espanhol radicado no Brasil, explicou que a medida de Washington se deve ao fato de que "por causa do clima e de outros problemas, os EUA sofreram uma redução significativa em seu rebanho bovino".

De fato, a própria resolução do governo norte-americano afirma que incêndios florestais e secas levaram a produção pecuária "ao seu nível mais baixo em 75 anos". A Casa Branca também observa que medidas sanitárias contra a mosca-varejeira reduziram as importações de carne bovina do México.

Segundo Oreiro, a situação atual obriga os EUA a "importar carne do Brasil", país que em 2025 ultrapassou 12 milhões de toneladas e se tornou, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne, superando a superpotência norte-americana.

Nesse sentido, ele acredita que o contexto é favorável para o gigante sul-americano se opor às tarifas impostas pela Casa Branca nos últimos anos.

"Os EUA precisam importar carne do Brasil e impor tarifas sobre suas exportações. Tudo isso só vai aumentar o preço da carne nos EUA e, consequentemente, elevar a inflação justamente quando os EUA se aproximam das eleições de meio de mandato", analisou Oreiro.

Nesse contexto, o especialista considerou que a necessidade de carne brasileira pelos EUA poderia ser uma oportunidade para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva "colocar em discussão" outras tarifas impostas pela Casa Branca sobre produtos brasileiros, como a tarifa de 25% que incide sobre uma ampla gama de itens exportados para o mercado norte-americano.

Lula e a 'realpolitik' com Trump

Oreiro enfatizou que, nesta situação, "o Brasil agora tem poder de barganha por causa da questão da carne bovina" e poderia usar isso a seu favor nas negociações. "Poderia dizer: 'Se eles querem nossa carne, as tarifas sobre outros produtos industriais devem ser removidas'", observou.

Nesse sentido, o economista argumentou que o governo Lula deveria recorrer à "realpolitik" como a única maneira de chegar a um entendimento com o governo dos EUA, que, em última análise, tem demonstrado mais consideração por "países que se opuseram a ele".

Também em entrevista à Sputnik, o economista paraguaio Víctor Benítez González concordou que o presidente Lula está em posição de "obter alguns benefícios adicionais nas negociações tarifárias com Washington" com base na "necessidade de se consumir hambúrgueres a preços acessíveis nos EUA".

Sobre a questão, o economista mencionou a importância dos frigoríficos brasileiros no mercado internacional de carne e, em particular, a relevância que a estreita relação do presidente brasileiro com alguns dos maiores empresários do país pode ter.

Benítez González informou que, segundo a imprensa brasileira, Lula se reuniu recentemente com diversas figuras importantes do mundo empresarial do país, incluindo os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do conglomerado J&F, que inclui a JBS, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo, com forte presença no mercado de carnes dos EUA.

Além disso, Benítez González enfatizou o papel crucial do presidente brasileiro nas negociações com Trump para manter as exportações para os EUA. "A abertura dos mercados se deve em grande parte a Lula, que nunca recuou diante das tarifas", afirmou.

Uma oportunidade para o Mercosul?

Composto por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, o Mercosul é um dos maiores produtores de carne bovina do mundo. Por esse motivo, a necessidade urgente dos EUA de importar o produto chamou rapidamente a atenção dos produtores do bloco do Cone Sul da América do Sul.

Por ora, a abertura de uma nova cota para os EUA não se aplica a todos os membros do bloco. O benefício não inclui países que já possuíam cotas de exportação isentas de tarifas com os EUA, como a Argentina, que atualmente tem 100 mil toneladas anuais, ou o Uruguai, com 20 mil toneladas anuais.

Portanto, a nova cota aberta especificamente pelos EUA provavelmente será disputada entre Brasil e Paraguai, sem que a oportunidade comercial seja gerenciada pelo Mercosul como um bloco.

Consultado pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Héctor Sosa Gennaro alertou que o cumprimento dessa cota de carne "muito provavelmente não será direcionado ao Mercosul, mas sim dividido em uma competição individual entre os países, particularmente Brasil e Paraguai".

A esse respeito, ele observou que, embora o Brasil tenha grande potencial como produtor de carne, o Paraguai melhorou significativamente sua produção de carne bovina nos últimos anos, graças à construção de novos frigoríficos e à melhoria da qualidade da carne exportada.

"O melhor para o Paraguai não é adicionar mais concorrentes, mas sim manter a competição apenas entre dois, já que é muito bom para o país competir em igualdade de condições com o Brasil, que tem uma longa história como produtor e exportador de carne", disse o especialista.

Nesse contexto, Sosa Gennaro enfatizou que Assunção poderia aproveitar o alinhamento geopolítico demonstrado pelo presidente paraguaio Santiago Peña com os EUA para garantir melhor acesso ao mercado norte-americano, algo que ainda não conseguiu.

"Para o Paraguai, esta é uma boa oportunidade para demonstrar aos EUA tanto a qualidade de sua carne bovina [local] quanto sua capacidade de exportação", afirmou, ressaltando que o país sul-americano está em posição de negociar "uma cota fixa e permanente" de exportações de carne bovina para a potência norte-americana.

Oreiro, por sua vez, lamentou que o Mercosul não consiga se beneficiar mais como bloco, em parte devido às divergências políticas existentes entre os governos do Brasil e da Argentina, as duas maiores economias da região.

"Argentina e Brasil devem restabelecer relações diplomáticas normais o mais rápido possível para que o Mercosul possa aproveitar essa escassez de carne bovina nos EUA e aumentar suas exportações para aquele país", concluiu o especialista.