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Brasil terá que equilibrar autonomia e relações com EUA e China, dizem especialistas
Desafios do próximo governo brasileiro em um cenário internacional complexo
Especialistas ouvidos pelo Mundioka afirmam que o próximo governo do presidente eleito do Brasil terá que se contentar com uma América do Sul mais alinhada com os Estados Unidos. É fundamental equilibrar as relações com Washington e Pequim, ao mesmo tempo em que se utilizam as reservas naturais para o desenvolvimento do país, sem comprometer sua autonomia.
Ainda que a disputa eleitoral no Brasil permaneça incerta, é possível especular sobre como o futuro governo atuará diante das últimas notícias da América Latina. O fenômeno da "Onda Azul" já sinaliza que o chefe do Executivo terá que dialogar com muitos governos de direita e conservadores, como na Argentina de Javier Milei, no Chile de Antônio Kast ou na Colômbia de Abelardo de la Espriella.
Em particular, o tema das terras raras e minerais críticos, junto à disputa por reservas no cenário geopolítico, coloca o Brasil sob o olhar de outros países, especialmente entre China e Estados Unidos. No Mundioka, podcast da Sputinik Brasil, especialistas discutem o que um futuro governo brasileiro terá que enfrentar após 2026.
Uma América Latina mais heterogênea
Além da orientação ideológica do próximo governo, Lier Pires, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense, destaca que Brasília enfrentará um cenário regional mais fragmentado do que em períodos anteriores. Com o aumento de governos conservadores, essa fragmentação tem criado obstáculos adicionais para a atuação brasileira, especialmente durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
"O que nós conhecemos como 'Onda Azul' vem fazendo com que este Brasil, principalmente o Brasil de Lula, encontre diferenças e dificuldades maiores do que no passado", explica. "A fragmentação política do continente com esse avanço de governos mais alinhados com os Estados Unidos [...] reduziu o espaço de articulação que o Brasil tinha ou teve em momentos pretéritos."
Esse cenário pode ganhar ainda mais relevância diante das discussões sobre segurança pública e combate ao crime organizado. Pires ressalta que as diferenças políticas entre os governos podem dificultar a construção de iniciativas conjuntas, além da presença crescente dos EUA na região. A Venezuela, sobretudo, destaca-se como um dos principais exemplos dos limites que a diplomacia brasileira enfrenta atualmente.
Durante o governo Lula, Brasília apostou no diálogo e na mediação buscando reduzir as tensões com o governo de Nicolás Maduro, evitando uma possível intervenção militar dos Estados Unidos. Entretanto, a estratégia não trouxe os resultados esperados.
"Aquela aposta no diálogo [...] visando a impedir uma intervenção militar norte-americana, não se materializou."
Na avaliação dele, o episódio expõe "a perda de capacidade de influência real, objetiva e concreta do Brasil no contexto hemisférico", especialmente após o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.
Ainda assim, o Brasil mantém condições de exercer uma posição de liderança regional. O desafio reside na capacidade de transformar essa liderança potencial em influência efetiva. Assim, o resultado das eleições poderá definir não apenas a orientação ideológica da política externa brasileira, mas também a estratégia que Brasília adotará para recuperar espaço em uma região cada vez mais dividida.
Posição brasileira dentro da disputa EUA x China
Segundo Robson Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NEL) da Universidade de Brasília (UnB), um eventual governo brasileiro mais alinhado aos Estados Unidos poderia impactar relações já consolidadas. Em destaque, México e China não seriam esquecidos, mas o Brasil teria menos vontade de ampliar acordos com esses países.
Em relação à China, a disputa por terras raras entre Washington e Pequim continua. O Brasil possui grandes reservas de terras raras e minerais críticos – cerca de 23% das reservas globais – e busca utilizar esse potencial para atrair investimentos, sem abrir mão do processamento e da tecnologia local. "O governo Lula entende que não só os Estados Unidos, mas o Ocidente, tem tentado diminuir sua dependência da China nesse contexto mineral."
"O governo tem deixado isso claro, que está disposto a trabalhar com qualquer país que aceite essas condições que o Brasil vem tentando estabelecer."
Para Valdez, essa disputa internacional apresenta uma oportunidade para o Brasil, que pode emergir como um "grande vencedor colateral" nesse conflito, considerando que Brasil e Estados Unidos disputam vários segmentos do mercado chinês.
Assim, o principal desafio do presidente eleito será promover o desenvolvimento do Brasil, preservando a autonomia do governo e mantendo relações com os Estados Unidos, enquanto ainda se reserva espaço para a negociação com a China e outros parceiros.
Além disso, Valdez projeta mudanças na agenda do Mercosul. Se o governo Lula for mantido, ele prevê a efetivação do acordo entre Mercosul e União Europeia, a ampliação da parceria com Cingapura, e o avanço nas negociações com Canadá, Japão e Vietnã. "A ampliação do alcance do acordo comercial do Mercosul com outros parceiros é um caminho sem volta", afirma.
A diversificação comercial ganha relevância num cenário internacional mais protecionista, visto que a pressão exercida pelo governo Trump acelerou a aproximação entre Mercosul e União Europeia. "O acordo Mercosul e União Europeia [...] acaba sendo uma forma de manter canais para diversificar parceiros frente a um governo norte-americano cada vez mais coercitivo e unilateral."
"Manter um distanciamento sem quebrar os canais de diálogo com os Estados Unidos, evitando a pressão e preservando a autonomia genuína do governo brasileiro, acho que será um dos maiores desafios para o próximo presidente."
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