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Fim da hegemonia? Assédio dos EUA força Canadá a buscar novas alianças, aponta analista
(VÍDEOS)
A guerra comercial entre Washington e Ottawa escalou de um conflito tarifário para uma agressiva investida contra a soberania e a identidade canadense. Recentemente, o presidente estadunidense Donald Trump assinou um decreto para rebatizar o lago Ontário como 'lago América', o que intensifica a relação tensa entre os países norte-americanos.
O atual cenário geopolítico força o Canadá a priorizar a diversificação de seus mercados para reduzir a imprevisibilidade do governo de turno dos Estados Unidos. É o que explica Denilde Oliveira Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, em entrevista à Sputnik Brasil.
"A gente vê dois níveis [de análise]: Trump vai continuar fazendo ameaças e tentando usar estratégias de pressão, e o outro é a negociação de fato que vai ocorrer do ponto de vista mais técnico. Então, acho que essa vai ser a lógica desse processo, e a tendência é o Canadá buscar outros parceiros e tentar se afastar ainda mais dos EUA", disse.
No entanto, a especialista ressalta que a diversificação comercial por parte de Ottawa será um processo de longo prazo, dada a profunda dependência estrutural em relação à economia dos EUA. Apesar dos desafios, ela aponta que esse é um caminho inevitável e indispensável para o país.
"O Canadá entra em uma fase mais difícil, porque outros países já tinham feito a diversificação, e o Canadá vai começar agora a fazer sua diversificação. Então, eles já começaram e tiveram um efeito positivo, ampliaram os números de parceiros, mas ainda têm uma dependência que é muito grande dos Estados Unidos", comenta.
Ações dos EUA acentuam o nacionalismo canadense
Outro ponto levantado por Holzhacker é que a tentativa da Casa Branca de intervir na soberania e na identidade cultural do Canadá ao pressionar pela restrição da língua francesa, entre outras ações hostis, acaba por reacender o nacionalismo entre os cidadãos canadenses.
"[Essa situação] tem gerado um alto nacionalismo canadense devido a uma ameaça constante à soberania, Trump vem dizendo que vai anexar e que vai transformar o Canadá em um país, um Estado americano. O outro [ponto de tensão] é colocar em xeque um dos pontos mais importantes da cultura canadense, que é ser bilíngue", destaca.
A analista também relembra que as investidas dos Estados Unidos contra o Canadá começaram ainda na gestão de Justin Trudeau. Nesse cenário, a ascensão política de Mark Carney surge como uma clara sinalização de que a opinião pública canadense resiste ao assédio da Casa Branca.
"No final do governo Trudeau, a posição americana passou a ser mais agressiva, porque também os Estados Unidos nunca tinham colocado aqui uma anexação do Canadá. Então a reação começou a ser uma reação de mais de confrontação, mesmo assim, tentando estabelecer canais de negociação [entre os países]", observa.
'Amizade' histórica entre os vizinhos está no passado
Holzhacker aponta que, em um passado recente, seria impensável prever uma deterioração tão acentuada nas relações bilaterais, dada a profunda simbiose política, econômica e social que historicamente unia estadunidenses e canadenses.
"Se a gente pensar em termos do que foi a globalização, o Canadá e os Estados Unidos eram a expressão dessa maior integração e de como, para além do comércio, como as políticas eram feitas bastante em conjunto. Muitos até falavam que era quase a extensão americana", conclui.
A crescente imprevisibilidade na política interna da Casa Branca gera ondas de tensão entre parceiros tradicionais, como o Canadá, que buscam mitigar sua subordinação à órbita estadunidense. No longo prazo, esse distanciamento sinaliza o início de uma profunda reconfiguração na arquitetura de poder e nas relações bilaterais de Estados, então aliados, com a Casa Branca.
Por Sputnik Brasil
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