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70 anos de inovação: pioneiro na medicina nuclear no país, IPEN mira terras raras

Diretora Isolda Costa destaca conquistas e planos do instituto.

Sputnik Brasil 31/08/2026
70 anos de inovação: pioneiro na medicina nuclear no país, IPEN mira terras raras
Diretora Isolda Costa destaca os avanços e planos do IPEN em 70 anos de atuação. - Foto: © Foto / Divulgação / IPEN

À Sputnik Brasil, Isolda Costa, diretora do IPEN, destaca os avanços do instituto em seus 70 anos de existência, como o desenvolvimento do ciclo do combustível nuclear e cita os planos para colocar o país na vanguarda da segurança energética global e da pesquisa de terras raras.

Fundado em 1956, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nuclear (IPEN) completa sete décadas como um pilar da ciência, tecnologia e saúde no Brasil. Vinculado à Universidade de São Paulo (USP) e à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o instituto abriga o primeiro reator nuclear de pesquisa do país e se destaca nacionalmente como o principal produtor de radiofármacos para o diagnóstico e tratamento de câncer e doenças cardíacas.

Além do impacto direto na medicina, o IPEN desempenha papel estratégico em pesquisas de energia limpa e no desenvolvimento de tecnologias industriais e ambientais, como o tratamento de efluentes por feixes de elétrons.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Isolda Costa, diretora-superintendente do IPEN, destaca o pioneirismo do instituto em trazer para o Brasil a medicina nuclear. Ela explica que antes o Brasil precisava importar radiofármacos.

"Então, quando o Brasil consegue receber, dentro do Programa Átomos para a Paz, o primeiro reator nuclear de pesquisa do Hemisfério Sul, e instala esse reator dentro do campus da Universidade de São Paulo, ele possibilita que a gente avance tanto nas pesquisas na área nuclear como que a gente comece a produzir radioisótopos para radiofármacos", conta a diretora.

Ela acrescenta que isso possibilitou um avanço muito grande, introduzindo a medicina nuclear no Brasil, e hoje o instituto produz e distribui cerca de 85% da demanda nacional por radiofármacos.

"Isso é absolutamente essencial para a saúde da população. A gente faz entre 2 milhões e 3 milhões de atendimentos. Ou seja, entre 2 e 3 milhões de atendimentos dentro da medicina nuclear são feitos com produtos da radiofarmácia do IPEN."

Costa aponta que outro grande feito do IPEN ao longo desses 70 anos foi desenvolver, junto com a Marinha do Brasil, o ciclo do combustível nuclear.

"Nos anos 1960 já se começou a fazer as pesquisas no sentido de se dominar todo o ciclo do combustível. Então, foram construídas instalações, plantas-pilotos, usinas-pilotos, para que se avançasse de pequenas produções a nível laboratoriais para uma escala-piloto, e depois essa tecnologia foi transferida para a Marinha", afirma.

Há conquistas do instituto também no campo da engenharia. Costa aponta que o IPEN construiu um novo reator de potência zero, que tem uma potência máxima de 100 quilowatts e é voltado para sistemas hidráulicos e testes de elementos combustíveis. Ela destaca que esse reator permite fazer comparações até mesmo com materiais de outros países.

"A gente tem também equipamentos que foram desenvolvidos no IPEN, com tecnologia nacional, que são equipamentos para se usar tecnologia nas radiações, então, nós temos um irradiador de multipropósito de cobalto-60, ele foi todo construído com a engenharia nacional [...]. Lá a gente irradia frutas, obras de arte, materiais cirúrgicos, muitas máscaras na época da pandemia."

Parcerias internacionais

Costa destaca que o IPEN tem parcerias internacionais que ajudam na internacionalização do instituto no que diz respeito ao desenvolvimento de pessoal qualificado, interagindo com as tecnologias mais avançadas nos diversos países, entre eles a Rússia.

"Nós temos parcerias muito fortes com a Rússia, antigas, ela é um dos nossos principais fornecedores de radioisótopos, então, são essenciais para a produção desses radiofármacos que nós produzimos semanalmente. É o nosso principal fornecedor de molibdênio para a fabricação dos geradores de tecnécio", observa a diretora.

A parceria também se estende para a educação, e Costa cita como exemplo um programa de formação de pessoal.

"Essa cooperação está na finalização para se tornar um duplo diploma, então, nós teremos, portanto, nossos alunos que participarem do programa com a dupla titulação. E esse programa está na fase final, mas nós tivemos algumas turmas, grupos de oito pessoas, que foram para a Rússia, ficaram dentro das instalações."

Ela acrescenta que a Rússia também é um parceiro importante do IPEN na área de medicina nuclear e de reatores, que ela aponta como uma das especialidades russas.

"Então, acho importantíssimo internacionalizar, é muito fundamental para a gente também criar, formar pesquisadores com uma visão mais ampla do que se faz no mundo", pondera.

Costa diz que o IPEN se tornou um polo na América Latina, com potencial para criar novos centros na região, além de colaborar com um programa para diagnosticar a contaminação por microplásticos nos oceanos, que o Brasil pretende liderar. Ela conta que há dois anos o instituto tem um centro colaborador com várias parcerias com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em segurança física, cibernética e pessoal.

"Desde que esse centro colaborador foi criado, ele tem fornecido cursos para toda a América Latina. A gente é o polo que atrai as pessoas", frisa a diretora.

Soberania energética

Costa enfatiza que o IPEN tem um programa muito forte na parte de geração de hidrogênio verde, com previsão de ser ampliado para incluir o estudo de amônia verde.

"Hidrogênio verde e amônia verde significa também uma questão ambiental, meio ambiente, porque a amônia verde é para usar como parte dos fertilizantes. A gente está pensando nesses aspectos como transição energética, meio ambiente e clima como ações fundamentais e de forte investimento do IPEN", afirma.

Ela sublinha que a participação do Brasil na vanguarda da transição energética é muito importante, destacando que o país hoje tem mais de 80% da energia originária de fonte renovável.

"Isso inclusive se torna um apelo para outros países que têm que investir na descarbonização das suas energias, porque as parcerias com o Brasil nessa situação significam que eles podem também se beneficiar de um país que tem como base da sua energia uma energia renovável."

A diretora acrescenta ainda que o IPEN vai investir também na separação e purificação de terras raras.

"O IPEN tem uma história, desde os anos 1960, de separação de terras raras, tem material, tem pessoal, tem conhecimento acumulado desde aquele período até hoje, e essa é uma das linhas fortes também do IPEN para o futuro."