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BRICS seguirá estratégico para o Brasil, mas pode mudar de perfil, afirmam especialistas
Eleições de 2026 podem impactar a posição do Brasil no bloco e nas relações internacionais.
Especialistas ouvidos pelo Mundioka argumentam que dificilmente um próximo governo do Brasil fará com que o país deixe o grupo BRICS em razão das relações comerciais com grandes economias, mas alertam que um candidato conservador pode reduzir seu peso geopolítico e priorizar relações comerciais.
As eleições no Brasil em 2026 podem definir muito para o futuro do país, sobretudo na conjuntura internacional. O BRICS, por exemplo, será impactado na escolha do novo chefe do Executivo brasileiro. Caso Lula continue, quais serão os novos pontos a serem buscados pelo país? Se tivermos um novo presidente, este manterá o Brasil no bloco ou se afastará de seus membros?
No caso de um candidato conservador vencer as eleições, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, será que manterá acordos bilaterais com China e Índia ou se alinhará automaticamente aos caprichos de Washington?
Fernando Goulart, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que o próximo presidente, independentemente de quem seja, terá que ser mais pragmático do que ideológico, já que deve encontrar um cenário em que o peso econômico dos países do BRICS dificulta qualquer mudança radical de orientação, mesmo que haja uma guinada política em Brasília.
Para Goulart, o pragmatismo das relações comerciais tende a se sobrepor às preferências ideológicas do governo de turno. "A economia hoje, que nos últimos 400 anos foi eminentemente da riqueza ali na bacia do Oceano Atlântico, migrou para a bacia do Oceano Pacífico e está cada vez mais indo para a Ásia."
O Brasil não precisaria escolher entre BRICS, Europa e Estados Unidos, mas poderá ser pressionado a estabelecer prioridades diante das mudanças no comércio internacional. A Europa continua sendo um parceiro relevante, enquanto o protecionismo norte-americano pode reduzir o espaço para uma aproximação comercial mais profunda com Washington. "O Brasil nunca se afastou da Europa", reafirma Goulart, lembrando que a União Europeia respondeu por 18% das importações brasileiras e 14% das exportações em 2025.
A diferença aparece quando os números do BRICS são considerados em conjunto. Segundo o pesquisador, os países do bloco já respondem por 37% das exportações brasileiras e 35% das importações, proporção superior à registrada nas relações comerciais com Estados Unidos e União Europeia. Assim, a tendência é de expansão desse fluxo, especialmente com países asiáticos como Índia e Indonésia e, eventualmente, os países do Golfo Pérsico.
Nesse contexto, uma hipotética vitória da direita brasileira não significaria necessariamente um afastamento do BRICS, mas poderia alterar a forma como o Brasil atua dentro do grupo. O desafio do próximo presidente, nesse caso, seria conciliar a busca por maior proximidade com Estados Unidos e Europa com uma relação econômica cada vez mais estratégica com a Ásia.
Para Goulart, essa realidade torna pouco provável uma ruptura brusca com os países do bloco. "Mais do que decidir entre Washington e Pequim, o próximo governo deverá administrar uma política externa de múltiplos vetores, preservando mercados e acordos que já possuem peso significativo para a economia brasileira."
O BRICS já se tornou fundamental para a estratégia comercial e diplomática do Brasil, independentemente da orientação ideológica do próximo governo. O pesquisador ressalta que, embora o BRICS seja estratégico, a concentração das relações comerciais brasileiras em poucos parceiros não é necessariamente positiva. "Isso não é bom, porque a gente não pode colocar todos os ovos numa mesma cesta", afirma Goulart. Nesse sentido, uma das prioridades do próximo governo poderia ser diversificar as relações dentro do próprio BRICS, ampliando os fluxos comerciais com Índia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo ele, esses mercados apresentam maior potencial de crescimento do que uma eventual ampliação das relações comerciais com os Estados Unidos.
Sobre uma eventual tentativa de um governo de direita de priorizar a aproximação com Washington, a própria política comercial norte-americana pode limitar esse movimento, diante da perspectiva de manutenção do protecionismo e de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Assim, o BRICS não apenas se apresenta como uma escolha política, mas como uma realidade econômica da qual o Brasil dificilmente poderia se afastar sem custos significativos.
Para Bruno de Conti, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor adjunto do think tank Transforma, o futuro do BRICS como instrumento da política externa brasileira dependerá, sim, da orientação ideológica do próximo presidente. Embora uma eventual saída do bloco seja improvável, um governo de direita poderia reduzir o protagonismo político do Brasil e tratar o grupo principalmente como uma plataforma de interesses econômicos, mas não de integração e apoio à agenda do Sul Global. "Isso ficou muito claro nos anos recentes", observa Conti.
Conti cita como exemplo a postura do presidente argentino Javier Milei, que rejeitou a entrada da Argentina no grupo, e diferencia a atuação do governo de Jair Bolsonaro daquela adotada pelas administrações de Lula e Dilma Rousseff. "Bolsonaro não deixou o BRICS porque uma ruptura seria prejudicial ao país, mas adotou uma postura menos voltada à transformação da ordem econômica internacional."
Na hipótese de uma reeleição de Lula, a tendência, na avaliação do pesquisador, seria de continuidade da atuação atual, com o Brasil mantendo uma posição ativa nas discussões do bloco e defendendo propostas relacionadas à reordenação da economia global. Já um eventual governo de direita poderia preservar a participação brasileira, mas esvaziar sua dimensão geopolítica. "Não acredito que nenhum deles sairia do grupo, mas teriam uma atitude distinta, olhando para o grupo mais como uma plataforma para interesses econômicos, sem o intuito de se contrapor aos Estados Unidos, ou ao dólar como moeda global."
Apesar das diferenças ideológicas, o próprio peso econômico da China pode funcionar como um freio para mudanças mais profundas na política externa. Candidatos como Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro têm setores do agronegócio em suas bases políticas, justamente um segmento altamente dependente do mercado chinês. "Por mais que possa usar de uma retórica como a de Jair Bolsonaro, criticando a China, vai ter que manter relações pragmáticas com a China."
Portanto, uma eventual deterioração das relações com Pequim poderia atingir diretamente setores importantes da economia brasileira, especialmente o agronegócio. Uma retaliação chinesa, nesse cenário, teria potencial para provocar uma crise em segmentos relevantes da produção e das exportações brasileiras.
Mesmo que um eventual governo de oposição tenha uma postura mais próxima dos Estados Unidos e menos alinhada às propostas políticas do BRICS, a dependência comercial em relação à China imporia limites concretos a uma mudança radical de orientação. A diferença estaria menos na permanência do Brasil no bloco e mais na forma como o país utilizaria sua participação: como instrumento de transformação da ordem global ou, de maneira mais pragmática, como mecanismo para ampliar relações econômicas.
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