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Normalização da religião deixa fé menos explícita nas urnas, mas mantém influência política
Em 2026, queda nas candidaturas religiosas reflete pragmatismo eleitoral.
Queda de candidaturas com títulos religiosos pode refletir pragmatismo eleitoral e desgaste da polarização, sem significar recuo da influência da fé ou a importância da dimensão política.
Em um levantamento feito pelo jornal O Globo, as eleições de 2026 registram uma mudança significativa no cenário político brasileiro, com uma queda de 42% no número de candidatos que utilizam termos religiosos em seus nomes de urna, em comparação ao pleito de 2022. Esse movimento interrompe uma trajetória de crescimento que vinha sendo consolidada desde 2010, devolvendo o patamar de registros aos níveis observados em 2018.
Segundo pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), o fenômeno pode refletir uma reacomodação nas estratégias de marketing eleitoral e uma maior cautela diante da fiscalização do Tribunal Superior Eleitoral sobre o uso de templos. Oito em cada dez brasileiros e brasileiras (81%) afirmam ser fundamental que seus (suas) candidatos (as) nas eleições acreditem em Deus.
Essa percepção é mais aguçada entre classes mais pobres (89% das pessoas cujos rendimentos não passam de um salário mínimo) do que entre os mais ricos (57%, entre aqueles que ganham de dez a 20 salários mínimos mensais).
Embora a identidade religiosa continue sendo um pilar fundamental na mobilização de bases conservadoras, para Péricles Andrade, essa redução indica que os partidos políticos têm reavaliado suas estratégias com o eleitorado. "O mais provável é que estejamos diante de uma mudança na forma de organizar as campanhas, distribuir recursos e apresentar os candidatos ao eleitor".
'Normalização' da religião na política
Como explica o professor titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), a estratégia atual de concentrar recursos e apoio político nos candidatos considerados mais competitivos ou que já tenham um mandato pode ser o motivo pela redução de nomes. Além disso, a adoção por uma identificação religiosa ampla como cristão para evitar divisões pode explicar a ausência de títulos como "pastor" ou "missionário" no político.
"O apoio pode circular pelas redes comunitárias, pelos grupos de fiéis, pelos meios de comunicação religiosos e pela confiança construída no cotidiano. Com a política cada vez mais profissionalizada, essas redes ganharam ainda mais importância", afirma.
"A religião pode estar menos visível no nome do candidato, mas continuar presente nas relações, nos valores e nas estratégias que ajudam a organizar a disputa eleitoral."
Essa reavaliação também pode estar relacionada ao custo reputacional deixado pela forte politização das igrejas nos últimos anos, avalia Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel. Segundo o analista, a redução da identificação religiosa explícita ocorre em um contexto de maior desgaste da polarização brasileira, que levou lideranças religiosas a se associarem diretamente às disputas políticas. "Pastores, lideranças religiosas tiveram também que pagar um determinado preço na sua reputação, na sua imagem, no seu relacionamento com os fiéis", afirma.
Para Sanches, depois de um período em que o debate político esteve intensamente presente dentro das igrejas, um movimento de recuo se torna mais natural.
"Você trazer o debate político para dentro da igreja não é trivial, embora tenha sido bastante ativo, especialmente em igrejas evangélicas nos últimos anos."
Na visão de Péricles, a redução mostra também que a religião migrou da mera identificação pessoal do candidato para se consolidar como uma linguagem moral de estruturação das propostas e de disputa pela moralidade pública. Vale lembrar, o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou recentemente que um dos seus primeiros atos seria decretar o Brasil como "um país cristão", desconsiderando que o Brasil é um país laico segundo a Constituição Federal de 1988.
"Essa consolidação permitiu que propostas focadas na ordem, na disciplina e na autonomia familiar fossem incorporadas ao debate secular e técnico, sem depender de justificações teológicas explícitas."
Nesses casos, a defesa de valores familiares, mérito e responsabilidade civil passa a ser apresentada como parte da autonomia individual, da liberdade de escolha e da limitação do papel do Estado, com pouca ou nenhuma centralidade confessional.
Queda envolve simbiose e pragmatismo político
Essa dinâmica também ajuda a explicar como as organizações de fé e o sistema político mantêm uma "simbiose profunda", funcionando como importantes estruturas de engajamento eleitoral. Mesmo com o aumento da atenção sobre o uso político de espaços religiosos e as restrições impostas pela legislação eleitoral, a influência dessas instituições pode ocorrer por mecanismos menos explícitos e mais difíceis de identificar juridicamente.
Péricles explica que essa influência pode ocorrer de diferentes formas. Uma delas está na associação entre a rotina religiosa dos fiéis e a circulação sistemática de informações sobre pautas morais e supostas perseguições ideológicas, criando referências políticas compartilhadas dentro das comunidades. A autoridade das lideranças também pode ser convertida em influência eleitoral por meio das redes de confiança e da ideia de fidelidade entre membros da mesma comunidade, expressa em fórmulas como "irmão vota em irmão".
Outra estratégia está na utilização de discursos religiosos para recuperar a legitimidade de políticos aliados que enfrentam crises ou questionamentos éticos. Ao mesmo tempo, cartilhas, cursos de formação e palestras promovidos por organizações – como a Conferência Brahvus do pastor Silas Malafaia – que aproximam fé e política podem orientar as escolhas dos eleitores sem a necessidade de pedidos explícitos de voto dentro dos templos.
Complementando, Sanches pontua que o processo envolve justamente um cálculo entre o benefício eleitoral da associação com determinada comunidade religiosa e o desgaste que essa identificação pode provocar. O mesmo movimento, segundo ele, aparece na redução de candidaturas que utilizam patentes militares, outro marcador identitário que ganhou força durante o auge da polarização.
"Então, é um trade-off entre o dividendo eleitoral que isso gera e o impacto reputacional que isso vai gerar a nível institucional", resume, o que explica que mesmo com a redução de candidaturas explícitas não houve uma queda de influência de políticos religiosos.
Maior representação de outras religiões na política
Embora o levantamento de O Globo indique uma queda nas candidaturas evangélicas, outro estudo, realizado pelo grupo Ginga da Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre as eleições municipais de 2024, identificou um crescimento expressivo no número de candidaturas relacionadas às religiões de matriz africana. Foram 284 nomes em 2024, contra 63 em 2020.
Para Ana Paula Mendes, antropóloga, professora da UFF e coordenadora do Ginga, o número ganha relevância quando observado dentro do universo de 8.731 candidaturas nas quais foi possível identificar algum pertencimento religioso.
A pesquisadora, no entanto, recomenda cautela com a expressão "voto afrorreligioso", por ela poder transmitir a ideia de que pessoas de terreiro formariam um eleitorado homogêneo e necessariamente orientado pela religião. Mais do que a existência de um "voto de terreiro" uniforme, o levantamento permite observar a presença afrorreligiosa na política eleitoral e como essa dimensão se articula com outros aspectos da vida social.
"A política de terreiros não nasce com a eleição. Ela é anterior à participação eleitoral e envolve uma luta histórica pela garantia de direitos, pelo reconhecimento e pelo enfrentamento ao racismo religioso."
O crescimento das candidaturas, portanto, pode ser compreendido também como uma forma de levar para a arena institucional pautas e reivindicações que já fazem parte da atuação dessas comunidades na sociedade. Diferente de outras fés, Mendes pontua que aquelas de matriz africana possuem a particularidade de estarem frequentemente atreladas à experiência racial, à ancestralidade, ao território e às situações de discriminação.
"Isso faz com que a defesa da liberdade religiosa não possa ser separada, em muitos casos, da luta contra o racismo [...] O que existe é uma experiência social compartilhada que pode produzir determinadas demandas políticas — sobretudo quando estão em jogo a liberdade religiosa, a proteção dos terreiros, o enfrentamento ao racismo religioso e o reconhecimento de direitos."
Sobretudo, o medo de sofrer intolerância, discriminação ou ataques pode levar pessoas de terreiro a não explicitar sua identidade religiosa durante uma campanha, fazendo com que os dados oficiais não consigam captar toda a presença afrorreligiosa na política. Como explica a coordenadora, declarar publicamente esse pertencimento, em um contexto de racismo religioso, pode aumentar a exposição à violência e à estigmatização.
Por isso, esse número levantado pelo estudo não deve ser interpretado como o total de pessoas de terreiro que disputaram as eleições. "Mais do que dizer que temos '284 candidatos afrorreligiosos', é preciso compreender que temos 284 candidaturas que conseguimos identificar como afrorreligiosas", ressalta.
A pesquisadora destaca que essa dificuldade de identificação também revela um limite na própria forma como a participação religiosa na política costuma ser analisada. Grande parte do debate sobre religião e política no Brasil toma a experiência evangélica como referência, considerando como indicadores de mobilização a existência de igrejas organizadas, lideranças, candidaturas oficiais ou estruturas de orientação eleitoral.
Esse modelo, porém, pode fazer com que outras formas de organização política sejam interpretadas como ausência de mobilização ou, mesmo, o início de uma. No caso dos povos de terreiro, a atuação política também ocorre por meio de redes comunitárias, territórios e lutas por direitos, sem necessariamente se transformar em uma estrutura partidária ou em uma candidatura explicitamente identificada pela religião.
"O que estamos observando mais recentemente é uma mudança na relação com a política partidária e eleitoral", explica. "A emergência de [ex-presidente, Jair] Bolsonaro e o aumento dos ataques e das violências contra os terreiros produziram, para uma parcela desse movimento, a necessidade de buscar uma maior inserção na política partidária, principalmente no campo da esquerda e do campo progressista."
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