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Desgaste absoluto na Bolívia: o que Paz enfrenta na política e na economia?
Cenário desafiador para o governo de Rodrigo Paz à frente da Bolívia
O governo da Bolívia enfrenta um panorama político e econômico complicado, com a perspectiva de que não irá melhorar. Até o vice-presidente Edmand Lara disse à imprensa: "Se houver um referendo hoje, sairemos. Temos que ser honestos: sairemos com mais de 80%."
Pela lei da nação sul-americana, esse mecanismo poderá ser acionado quando o Executivo completar dois anos de mandato. Por enquanto, o presidente Rodrigo Paz está no poder há 10 meses.
Legisladores da oposição, e mesmo do partido no poder, expressaram a sua consternação pela oportunidade que perdem as forças liberais, que regressaram ao poder depois de 20 anos e, em vez de executarem o seu plano de governo, facilitam "o regresso dos movimentos populares" à Casa Grande del Pueblo.
Em 20 de junho, Paz decretou estado de emergência para deter as mobilizações de camponeses e trabalhadores que, durante 53 dias, mantiveram o território boliviano paralisado, exigindo a renúncia do governo. O presidente conseguiu resolver este conflito sem que os militares e a polícia abrissem fogo contra a população, como permite a regulamentação ainda em vigor, que foi referendada pelo plenário da Assembleia Legislativa Plurinacional.
Nestes dois meses, o governo não conseguiu resolver os problemas econômicos ou a escassez de combustível. Em vez disso, lutou com seus aliados, como Samuel Doria Medina, da Alianza Unidad, a terceira força da Assembleia. Além disso, teve que enfrentar escândalos políticos, como a aquisição de um Audi Q4 pelo seu ex-ministro da Economia, Gabriel Espinoza, que deixou o gabinete por ordem dos parlamentares, devido a este e outros problemas, até agora, sem resolução.
A prisão do "assessor pessoal" de Paz, como se apresentava Fernando Cerimedo, think tank dos movimentos conservadores e liberais da América Latina, também prejudicou a imagem do governo. Nos últimos dias, políticos da oposição pediram ao governo que esclarecesse a sua ligação com o novo recluso da prisão de Palmasola, Santa Cruz (centro).
Lara e Paz se distanciaram assim que tomaram posse, em novembro de 2025. O vice-presidente reconheceu: "Me preocupa como, em tão pouco tempo, estamos desacreditados como governo. Somos muito mal vistos pela sociedade".
Paz chegou ao Poder Executivo junto com o Partido Democrata Cristão (PDC), cujos legisladores não lhe respondem integralmente na Assembleia. O deputado do partido governista, Diego Copa, dirigiu-se a ele pela imprensa: "Presidente Rodrigo Paz: você matou o liberalismo, porque ninguém acredita mais nos liberais".
"O movimento popular volta, o movimento de esquerda volta e vocês não gostam, mas por causa de quem? Por causa do nosso presidente."
Uma encruzilhada forte
"É um cenário de desgaste absoluto do governo nacional, impulsionado principalmente por [ele mesmo]. Não é que fatores externos tenham necessariamente desempenhado um papel central, mas sim que [a Administração] vem se metendo em problemas quase voluntariamente. Não houve uma semana em que não houvesse um novo escândalo, uma nova polêmica. Isso o levou a viver hoje uma verdadeira crise de credibilidade diante da população", disse o analista Marcelo Arequipa para a Sputnik.
Além disso, Paz tem que lidar com "uma crise política diante do Legislativo, porque o governo não tem números suficientes para promover qualquer decisão, ou pelo menos ter maioria para avançar alguma coisa", segundo o especialista. Projetos como a Lei de Investimentos, essencial para a execução do plano econômico do partido no poder, não avançam na Assembleia.
Arequipa avaliou que, desde a eclosão do caso Cerimedo, em 17 de agosto, a imagem presidencial foi muito afetada.
"Isso vai além daquela possível tentativa de feminicídio, pois está sendo aberto um processo legal contra Cerimedo por legitimação de bens de origem ilícita. É aí que a comoção em torno [do líder] se intensifica. O governo está mergulhado em um problema enorme que ameaça enterrá-lo, dado o sentimento predominante de que não se pode confiar em sua palavra atualmente."
Somados ao processo aberto contra Espinoza pela compra irregular de seu veículo de luxo, "esses eventos desferem um golpe devastador na credibilidade moral do governo", afirmou o analista político e acadêmico.
Nos últimos dias, dez setores sociais alertaram que iniciarão protestos contra o governo assim que o estado de exceção terminar, daqui a três semanas. Os grupos insatisfeitos variam desde agricultores e representantes do agronegócio até transportadores e mineiros. Em Arequipa, as condições para manifestações serão mais favoráveis do que durante os "53 dias".
"Agora eles dispõem de um argumento retórico para defender sua causa perante o público. Há um acúmulo de descontentamento em relação a Rodrigo Paz, e isso servirá, na prática, como moeda de troca para as organizações que estão se mobilizando para protestar ao lado da população."
Deslocamento para os extremos
Em entrevista à Sputnik, o analista Gabriel Campero alertou que a situação atual pode seguir um de dois caminhos: o fortalecimento dos "movimentos populares" mencionados na Assembleia ou o fortalecimento político de Jorge Tuto Quiroga (2001–2002), derrotado no segundo turno das eleições de 2025 pelo atual presidente. O ex-líder comanda a Alianza Libre, a segunda maior força no Parlamento.
O especialista observou que o governo nacional adotou "uma postura muito arrogante" após encerrar com sucesso o bloqueio de 53 dias. Essa atitude afastou tanto seu aliado Doria Medina quanto Quiroga — que, apesar das divergências, havia mobilizado seus parlamentares para apoiar o decreto de estado de emergência.
"A insatisfação surgiu não apenas na facção leal a Tuto Quiroga, mas também entre aliados que haviam disponibilizado pessoal — com base em suas próprias avaliações sobre a qualificação, a participação e o ativismo dos quadros de suas fileiras", afirmou o analista.
Segundo Campero, a percepção de aliados e ex-aliados é a de que "o governo [atual] não conseguiu implementar as reformas desejadas, mesmo tendo recebido deles a aprovação do estado de emergência para garantir a governabilidade durante aqueles três meses".
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