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Infraestrutura robusta: analista fala sobre compra de supercomputador de IA pelo governo

Brasil busca diversificar parceiros na corrida da inteligência artificial

Sputnik Brasil 20/08/2026
Infraestrutura robusta: analista fala sobre compra de supercomputador de IA pelo governo
Analista destaca estratégia do governo brasileira para supercomputação e inteligência artificial - Foto: © flickr.com / sam_churchill

O movimento ocorre em meio à disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio de setores estratégicos da inteligência artificial, cenário que também impõe ao Brasil o desafio de diversificar parceiros e evitar que a busca por capacidade tecnológica resulte em uma nova dependência externa.

O governo federal anunciou nesta quinta-feira (20) uma nova etapa da estratégia brasileira de inteligência artificial, com a ampliação da infraestrutura de supercomputação e o fortalecimento da capacidade nacional para desenvolver e treinar modelos de IA.

Em visita ao Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Grande Natal, no Rio Grande do Norte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a liberação de R$ 1,06 bilhão para a instalação de um supercomputador no estado, valor que deve cobrir a aquisição e operação da estrutura voltada ao modelo de alto desempenho e inteligência artificial.

O projeto integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), e essa será uma das três frentes do governo federal para ampliar a infraestrutura brasileira de supercomputação. Também está prevista a implantação de uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro e o desenvolvimento de chips com arquitetura aberta, em Campinas, no estado de São Paulo.

São esperadas cooperações com os Estados Unidos e com a China. Entre as prioridades está a criação de tecnologias adaptadas ao português e às necessidades brasileiras, ampliando a capacidade nacional de pesquisa e inovação em áreas como saúde, agricultura, indústria e serviços públicos.

Segundo Caio Almendra, consultor de inovação, sócio do Templo.cc, a decisão de diversificar os fornecedores e as tecnologias tem uma dimensão estratégica para o Brasil, ao permitir que o país mantenha alternativas diante de eventuais mudanças na relação entre Estados Unidos e China.

"Essa estratégia de diversificar tem um sentido, em especial para o Brasil, que consegue estar no meio termo entre um polo de influência estadunidense e um polo de influência chinês, reduz a dependência da geopolítica", afirma Almendra. Essa diversificação pode garantir alternativas caso ocorram instabilidades, mudanças de preços ou restrições de fornecimento por parte de um dos países.

Ao mesmo tempo, porém, a escolha por diferentes plataformas tecnológicas também traz custos adicionais, especialmente relacionados à manutenção e à formação de profissionais capazes de operar cada infraestrutura.

"Quando você usa a mesma tecnologia de infraestrutura, o grau de gasto com manutenção, em especial com gasto de conhecimento da manutenção, é menor e é menos arriscado". A existência de estruturas distintas exige diferentes corpos técnicos e conhecimentos específicos para sua operação e manutenção.

Apesar desses custos, a estratégia revela que o governo passou a tratar a inteligência artificial como uma infraestrutura estratégica para a economia brasileira, e não apenas como uma tecnologia a ser incorporada por empresas e órgãos públicos.

"O que isso acaba evidenciando é que o governo brasileiro está olhando a necessidade de IA como uma infraestrutura bastante robusta, como uma necessidade de investimento robusto."

Supercomputação

A infraestrutura para o supercomputador está prevista para ser instalada no Parque Tecnológico Augusto Severo (PAX), que pertence à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A razão pela localidade se deve ao grande potencial energético do Estado – através de fontes renováveis de energia – e no esforço de descentralizar a infraestrutura de alta tecnologia do Brasil, além de ampliar o desenvolvimento tecnológico da região Nordeste.

Com investimento estimado em mais de R$ 1 bilhão, a infraestrutura deverá alcançar aproximadamente 7.200 petaflops— cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo, capacidade que colocaria a máquina entre as mais potentes do mundo e muito acima da capacidade do atual supercomputador mais potente do Brasil, o Santos Dumont, localizado em Petrópolis, Rio de Janeiro.

Almendra, porém, faz uma ressalva sobre a relação entre a instalação do supercomputador e os investimentos em energia necessários para mantê-lo em funcionamento. A demanda energética de uma infraestrutura desse porte não deve ser vista necessariamente como um fator que, por si só, atrairá novos investimentos e desenvolvimento econômico para a região, mas como um dos custos associados à própria operação do equipamento.

"Quando você vai fazer um investimento desse tipo, [...] você sempre tem que fazer um investimento em energia para conseguir fazer algo que consuma tanta energia assim. [...] Todo data center tem como custo adicional, além do seu investimento em si, toda a capacidade de produção de energia e de transmissão de energia necessária para que o data center rode."

Para o especialista, isso significa que a disponibilidade de energia é uma condição necessária para que o supercomputador funcione, e não necessariamente uma consequência positiva da sua instalação. "Sem esse investimento em energia, o data center vira peso morto", afirma.

Apesar da ressalva, Almendra considera positiva a escolha do Rio Grande do Norte, justamente pela disponibilidade de energia e pelas alternativas existentes no Estado. O principal ganho econômico, segundo ele, deveria vir menos da capacidade de processamento em si e mais da utilização dessa infraestrutura para desenvolver setores produtivos brasileiros.

"Nenhum país fica rico exportando energia. [...] Nenhum país ficou rico exportando alumínio. Um país fica rico exportando satélite feito de alumínio", compara. O mesmo raciocínio vale para a capacidade computacional: o Brasil não deveria buscar apenas ampliar ou exportar processamento, mas utilizar essa infraestrutura para desenvolver aplicações capazes de gerar ganhos de produtividade em setores como agricultura, logística e reflorestamento.

"Um país fica rico utilizando esse processamento para desenvolver melhor os seus mercados locais."

Nuvem Brasileira

O que está incluído no plano é a criação de uma nuvem brasileira como uma alternativa para armazenamentos e processamento de dados e sistemas no Brasil. A iniciativa busca ampliar o domínio nacional dessas capacidades e reduzir sua dependência de sistemas ligados à empresas estrangeiras, principalmente das big techs estadunidenses.

Sobretudo, a ideia é desenvolver uma "nuvem" para o setor público e mercado privado, utilizando como base as experiências tidas com a Nuvem do Governo, sistema de armazenamento e de processamento já operado pelo Serpro e Dataprev.

Almendra ressalta essa iniciativa como importante para soberania digital do país, pontuando a necessidade de países de terem uma infraestrutura digital própria, "bem preservada e bem protegida". Ao contrário, a externalização dessa infraestrutura pode criar riscos especialmente no caso de dados sensíveis, já que o país não consegue controlar integralmente quem tem acesso a essas informações ou quem pode eventualmente atacar os sistemas que as armazenam e processam.

Isso também pode limitar o uso de determinadas tecnologias, como modelos de inteligência artificial, em aplicações que envolvam informações estratégicas. "Quando você está falando de dados sensíveis, você não pode utilizar uma LLM qualquer, porque esses dados sensíveis podem ser utilizados por um agente de má-fé".

Além disso, cita o risco de espionagem industrial associado à utilização de serviços estrangeiros de armazenamento e processamento de dados.

Na avaliação de Almendra, a questão não se restringe à proteção das informações, mas envolve a própria capacidade de desenvolvimento tecnológico do país. Ele compara a infraestrutura digital a estruturas físicas essenciais à soberania, como estradas e sistemas de controle aéreo, que não poderiam depender integralmente do controle de outro país.

"A espionagem industrial é uma continuidade da espionagem entre países, então você ter um espaço próprio com investimento em manutenção, com investimento em segurança, é essencial para a soberania."

O especialista cita ainda o Pix como exemplo da importância de manter infraestruturas digitais estratégicas sob controle nacional, já que seria inviável deixar toda a capacidade computacional necessária para o funcionamento do sistema de pagamentos nas mãos de um país estrangeiro, uma vez que isso poderia expor informações sobre as transações e vulnerabilidades da economia brasileira.

Assim, a falta de uma infraestrutura própria pode acabar limitando o desenvolvimento de aplicações digitais justamente porque empresas e pesquisadores deixam de utilizar determinados dados ou ferramentas por questões de segurança. "Quando você não tem essa segurança, você limita a possibilidade de desenvolvimento de técnicas. A ponta final da parte digital fica atrofiada por falta de infraestrutura."

Nesse sentido, a Nuvem Brasileira poderia não apenas reduzir a dependência de provedores estrangeiros, mas ampliar o espaço para que desenvolvedores, cientistas e o próprio governo criem novas aplicações utilizando dados sensíveis com maior segurança.

"O investimento em soberania própria vai permitir que desenvolvedores brasileiros, cientistas brasileiros e o governo brasileiro, juntos, [...] possam pensar aplicações mais interessantes, sem medo que a sensibilidade dos dados e a utilização de armazenagem externa atrapalhe o desenvolvimento."