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Colômbia restringe ajuda após terremoto a países aliados da direita

Ideologia acima da humanidade?

Sputnik Brasil 18/08/2026
Colômbia restringe ajuda após terremoto a países aliados da direita
Abelardo De La Espriella enfrenta críticas após terremoto na Colômbia. - Foto: © AP Photo / Fernando Vergara

Dias após assumir a presidência da Colômbia, Abelardo De La Espriella enfrentou um grave terremoto que abalou boa parte do país. Além da demora e da restrição à ajuda humanitária internacional, o novo líder colombiano foi criticado pela "desorganização institucional".

Um cenário de devastação tomou conta de cidades como Pereira, Chocó e Cali após o terremoto de magnitude 7,4 atingir a Colômbia e ser sentido em cidades brasileiras, como Manaus. A tragédia ocorreu apenas três dias após a posse do novo presidente, que decretou estado de emergência. Até o momento, foram registradas quase 300 mortes, com pouco mais de 3,9 mil pessoas feridas, além de 14,4 mil casas destruídas e 81,5 mil pessoas afetadas, conforme o último balanço divulgado pela Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD).

Sem experiência no setor público, Abelardo De la Espriella precisou, inclusive, nomear um novo diretor do órgão colombiano em meio ao desastre. O governo restringiu a ajuda humanitária: somente as equipes estrangeiras de Israel, El Salvador, Estados Unidos e Equador foram autorizadas a atuar no país, enquanto ofertas de ajuda de países como México e Brasil foram recusadas.

Na ocasião, o chanceler Omar Bula justificou a medida com base em critérios técnicos, de acordo com certificados internacionais apresentados. Além disso, o ministro negou que a decisão fosse influenciada por questões ideológicas, já que as quatro nações são governadas por líderes de direita.

O professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) e especialista em história da Colômbia, Eduardo Gomes, acredita que a decisão reflete a nova política externa do governo, diametralmente oposta à do antecessor, Gustavo Petro, que rompeu relações diplomáticas com Israel devido ao conflito na Faixa de Gaza.

"Fica evidente que o grupo que entrou no poder tenta se estabelecer junto a uma agenda conservadora, que tem se fortalecido nas últimas décadas. Quando se observa os Estados Unidos, Israel, El Salvador e Equador, percebe-se que são países que dialogam com essa vertente. Negar a ajuda de nações como Brasil e México não parece ter sido algo aleatório", afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

O especialista compara a situação ao que aconteceu durante a pandemia de COVID-19 no Brasil, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) cancelou a compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac por ter sido desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. "O governo colombiano, ao assumir, vivencia uma catástrofe e se mostra resistente à ajuda internacional por uma questão ideológica", ressalta.

Gomes também lembra que o México é reconhecido internacionalmente pela sua expertise em missões de busca e salvamento em terremotos, especialmente após a tragédia de 1985 na Cidade do México, que levou à formação da equipe de voluntários Los Topos. Esta equipe também atuou nos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Mesmo assim, o governo de Claudia Sheinbaum relatou "enfrentou obstáculos burocráticos intensos para tentar integrar a brigada" na operação.

"Essa exclusão gerou grande repercussão e distancia politicamente o governo colombiano recém-eleito. Apesar da Colômbia negar qualquer discriminação ideológica, não há coerência quando se compara com a permissão das equipes de Israel, que está do outro lado do mundo e tem uma realidade diferente. A recusa à ajuda do México é clara e também não parece ser uma escolha aleatória", complementa o especialista, citando que também foi negada a assistência das instituições especializadas ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU).

De La Espriella pede fim do tarifaço após terremoto

No último fim de semana, o presidente colombiano fez uma ligação de cerca de dez minutos com o homólogo estadunidense, Donald Trump, relatando as dificuldades provocadas pelo terremoto. Além de agradecer pela ajuda financeira de US$ 26,5 milhões (R$ 138 milhões), De La Espriella solicitou ao aliado o fim das tarifas de importação de 12,5% sobre produtos colombianos, como café, banana, produtos químicos e medicamentos. Contudo, o montante é insuficiente em relação ao valor estimado para reconstruir as áreas afetadas, que chega a US$ 9,5 bilhões (R$ 49,4 bilhões) em 450 municípios.

O presidente dos Estados Unidos ainda não se manifestou sobre o pedido. Para Gomes, mesmo com o alinhamento entre os dois governos, "é muito difícil" imaginar uma reviravolta. "Na política de boa vizinhança, os Estados Unidos nunca agiram na América Latina sem interesses por trás, o que é evidente historicamente", observa.

Com Trump, não será diferente, enfatiza o pesquisador. "Mesmo que ele aceite a proposta da Colômbia, não será apenas uma ajuda humanitária, mas uma interferência na política interna colombiana. O valor que Trump concedeu é muito aquém do que a Colômbia necessita para se reerguer e estabelecer um caminho para a recuperação econômica e social das regiões afetadas".

'Desorganização institucional'

O pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e mestrando em economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Matheus Petrelli, afirma que a resposta do governo colombiano após os terremotos demonstrou "uma certa desorganização institucional". Essa situação reflete principalmente o rompimento do processo de transição com o governo de Gustavo Petro, caracterizado por atritos. Na nem ocorria, De La Espriella acusou o antecessor de tentativa de golpe de Estado e corrupção.

"A gestão e todo o gabinete assumiram sem ter necessariamente as informações estratégicas que levariam a essa desorganização. O próprio presidente não havia indicado a liderança da unidade de resposta a desastres naturais [semelhante à Defesa Civil no Brasil] e só o fez após o terremoto", aponta.

Assim como o México, o Brasil também ofereceu equipes de socorristas, que foram rejeitadas. No entanto, o Brasil se comprometeu a enviar ajuda humanitária conforme as necessidades da Colômbia, como fez com a Venezuela, que também sofreu um forte terremoto e recebeu um hospital de campanha da Força Aérea Brasileira (FAB). Questionado se esta situação prenuncia um afastamento entre os dois governos, o especialista ressalta que De La Espriella demonstra cada vez mais um alinhamento com os Estados Unidos.

"No último dia de governo, Lula fez uma ligação a Petro, manifestando o desejo de manter uma aproximação bilateral entre Brasil e Colômbia, que compartilham interesses comuns. Porém, fica difícil projetar esse relacionamento, já que Abelardo está muito alinhado com Trump, que teve vários conflitos políticos com o governo Lula", conclui.

Por fim, o especialista vê a situação como um símbolo do que será a política externa colombiana na atual gestão: além da proximidade com Israel e Estados Unidos, De La Espriella deve se inspirar na política do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. "Essa vinculação já vem forte desde as campanhas. Diferente de Petro, que sempre criticou ações israelenses contra a Palestina e rompeu relações, Abelardo restabeleceu essa proximidade e, em sua posse, houve discursos de membros religiosos, incluindo um rabino", finaliza.