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França tenta superar isolamento na África através do canal de Moçambique?
Analista explica as novas estratégias geoeconômicas de Paris no continente.
O canal de Moçambique é uma via vital tanto para o comércio global quanto para a exportação de hidrocarbonetos e, por isso, atrai a atenção até de atores extrarregionais como a França que, após ter sua influência reduzida em países africanos que colonizaram, busca uma nova reinserção no continente africano através da geoeconomia.
Para compreender esse cenário, Luísa Barbosa Azevedo, pesquisadora de África Subsaariana do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN) e mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apontou em entrevista à Sputnik Brasil que a proposta francesa é estratégica, sendo respaldada pela presença de territórios ultramarinos na região.
“A presença de territórios ultramarinos da França na América do Sul e na África surge para legitimar essa presença naval francesa, que não é muito grande no caso do canal de Moçambique, mas é relevante porque [os franceses] estão presentes na região.
O especialista argumenta que a transição de Paris para uma estratégia mais geoeconômica corporativa, em detrimento do aparato bélico, decorre da recente expulsão de militares franceses em antigas colônias africanas, a exemplo do Senegal e da Aliança dos Estados do Sahel, composta por Burkina Faso, Níger e Mali.
"É uma questão de uma nova abertura, de entrar por outros lados, principalmente na questão das empresas francesas. Com os [Estados do] Sahel, não tinha só herança colonial, mas uma arquitetura neocolonial dessas relações. Para combater esse isolamento diplomático, entre aspas, a gente pode falar, que é uma forma de a França articular novos moldes [de cooperação na região]", comenta.
África do Sul também se projeta militarmente na área
Conforme contextualiza Luísa em seu artigo “O papel da África do Sul na segurança marítima do canal de Moçambique”, publicado no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, o governo sul-africano busca consolidar seu papel de liderança e de principal provedor de segurança na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Essa estratégia é evidenciada pela Operação Copper, iniciativa sul-africana que foi renovada até 2027.
“Apesar de a África do Sul não fazer parte do canal, ela também é uma presença naval importante naquela região e que desde o aumento de ilícitos [piratarias e crimes transnacionais], vem fazendo acordos regionais, em estratégias marítimas e na Operação Cooper, que desde 2011, está ativa e foi renovada, com esse objetivo de patrulhamento e de reforço na segurança marítima do canal de Moçambique”, destaca.
O analista também ressalta que a convergência de tantos pontos no canal de Moçambique, também traz outra dinâmica geopolítica, uma vez que é um território rico em recursos naturais, o que viabiliza e estimula a forte presença de corporações estrangeiras.
“Ali a gente também tem investimentos de grandes petroleiras e empresas desse ramo [de energia], como é o caso da Exxon e TotalEnergies. Há campos de exploração de gás natural assim como a pesca, que é comercial, tanto de subsistência das pessoas daquele país, como também da pesca industrial, além de ser uma região de rica biodiversidade marinha”, observa.
Canal de Moçambique pode ser uma rota alternativa
Outro ponto levantado pelo analista é que o canal de Moçambique, conforme vai sendo explorado e desenvolvido, tem a capacidade de suprir alguns fluxos comerciais que se encontram restritos devido a cenários de hostilidade que transformam rotas comuns em gargalos globais.
"Essa rota marítima é vital e alternativa quando se tem algum conflito ou também a questão do canal do Suez, que envolve alguma interrupção. A gente sempre tem o mapa do comércio internacional, que passa pelo canal de Suez. E qual é a alternativa? Rodear a costa africana e indica, passar pelo cabo da Boa Esperança e chegar à Europa", conclui.
As crises recorrentes no cenário internacional, que culminam em conflitos em pontos críticos como o Estreito de Ormuz, fazem com que outras regiões passem a ser exploradas tanto para a exploração quanto para o escoamento da produção por meio de rotas alternativas, como vem se configurando o canal de Moçambique.
Por Sputinik Brasil
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