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De Campos no RJ a Maceió: mesmos personagens reaparecem em dois casos de previdência que chegaram à Polícia Federal
Secretário da Fazenda de Maceió presidiu Conselho Fiscal da PreviCampos no Rio; consultoria de Renan Calamia atuou nos dois municípios e agora ambos tiveram bens bloqueados no caso Master
Quase dois mil quilômetros separam Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, de Maceió, em Alagoas. Mas as investigações envolvendo recursos de fundos municipais de previdência revelam conexões que aproximam as duas cidades.
Dois personagens que passaram pela estrutura previdenciária de Campos reapareceram anos depois no entorno da gestão dos investimentos do Iprev de Maceió: João Felipe Alves Borges, atual secretário municipal de Fazenda, e Renan Foglia Calamia, dirigente da consultoria Crédito & Mercado.
Hoje, os dois estão entre os investigados alcançados pelas medidas autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, na apuração sobre os R$ 97 milhões aplicados nominalmente pelo Iprev em Letras Financeiras do Banco Master.
Ambos tiveram bens submetidos a bloqueio judicial dentro do limite global estabelecido pelo STF.
João Felipe veio de Campos
João Felipe Alves Borges chegou à Prefeitura de Maceió em 2021 para comandar a Secretaria da Fazenda.
Antes disso, construiu parte de sua trajetória profissional justamente em Campos dos Goytacazes.
Foi subsecretário de Fazenda e também presidiu o Conselho Fiscal da PreviCampos, órgão responsável por fiscalizar a previdência dos servidores municipais.
O documento encaminhado à reportagem também registra essa passagem: João Felipe ocupava posições na administração fazendária de Campos e presidiu o Conselho Fiscal do instituto no período posteriormente alcançado pelas investigações sobre perdas estimadas em quase R$ 400 milhões.
Em 2023, a Polícia Federal deflagrou a Operação Rebote para investigar irregularidades em investimentos da PreviCampos, com prejuízo estimado em R$ 383 milhões. As suspeitas envolveram, entre outros crimes em tese, gestão fraudulenta, peculato, corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
É necessário fazer uma distinção: a passagem de João Felipe pelo Conselho Fiscal não significa, por si só, que ele tenha sido responsabilizado criminalmente pelo caso de Campos. Sua atual condição de alvo em Maceió decorre da investigação do Iprev e do Banco Master.
Mas a repetição do personagem em duas estruturas previdenciárias posteriormente alcançadas pela PF passou inevitavelmente a integrar a investigação jornalística.
A consultoria também veio de Campos
A conexão não termina no secretário.
Em Campos dos Goytacazes, a consultoria que prestava serviços relacionados à previdência era a Crédito & Mercado, comandada por Renan Calamia.
A empresa foi atingida pela Operação Rebote. Anos depois, apareceu novamente prestando consultoria ao regime previdenciário — desta vez em Maceió.
A própria Polícia Federal cita esse histórico ao investigar a participação da consultoria nas aplicações do Iprev no Banco Master.
O dossiê analisado pela reportagem também registra a presença da Crédito & Mercado em Campos e posteriormente no Iprev de Maceió.
João Felipe chegou à administração de Maceió em 2021.
A Crédito & Mercado foi contratada pelo Iprev em 2022.
A empresa passou a ter participação frequente nas reuniões responsáveis por discutir a carteira e a política de investimentos dos aposentados e pensionistas da capital.
Outra vez no conselho
Em Maceió, João Felipe também integrou o Conselho de Administração do Iprev.
Segundo a decisão que autorizou a operação, esse conselho possuía responsabilidade sobre as diretrizes e a política de investimentos da previdência municipal. A Secretaria da Fazenda, por sua vez, mantinha relação institucional direta com a gestão financeira do município e com a cobertura de insuficiências do regime próprio.
Foi nesse ambiente institucional que o Iprev aprovou R$ 80 milhões em Letras Financeiras do Master em dezembro de 2023 e outros R$ 17 milhões em maio de 2024.
A PF investiga suspeitas de que o processo decisório tenha ocorrido com supressão de etapas importantes de governança, sem estudos comparativos independentes e mediante possível direcionamento para o Banco Master.
A pergunta ainda sem resposta
Há, portanto, uma sequência que precisa ser esclarecida.
João Felipe estava em Campos.
A Crédito & Mercado também estava em Campos.
João Felipe chegou a Maceió em 2021.
A Crédito & Mercado passou a prestar serviços ao Iprev em 2022.
Depois, João Felipe passou a integrar a estrutura de governança do instituto e a consultoria de Calamia ganhou espaço nas reuniões que tratavam dos investimentos.
Agora os dois são atingidos por medidas cautelares na mesma investigação federal.
Até o momento, entretanto, não há documento público localizado pela reportagem que permita afirmar que João Felipe tenha pessoalmente contratado ou levado Renan Calamia para o Iprev de Maceió.
Essa é justamente uma das perguntas que precisam ser respondidas pela investigação: quem apresentou a Crédito & Mercado ao Iprev? Quem decidiu contratá-la? Houve participação ou indicação de integrantes da administração municipal?
A Polícia Federal pediu, inclusive, o afastamento de João Felipe do cargo. A Procuradoria-Geral da República se manifestou contra a medida e André Mendonça não determinou seu afastamento, mas autorizou busca e apreensão e o bloqueio patrimonial.
João Felipe não foi condenado no caso Master, e as medidas impostas são cautelares.
O que já não pode ser tratado como mera coincidência irrelevante é a repetição de personagens.
De Campos a Maceió, nomes e empresas que já haviam passado pela administração ou consultoria de um fundo de previdência posteriormente investigado pela Polícia Federal reapareceram em outro instituto que agora também está sob investigação federal.
Descobrir como essa ponte foi construída é uma das principais perguntas que permanecem abertas no escândalo do Iprev.
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