Geral
Antonio Candido viveu renascimento intelectual durante período como professor da Faculdade de Letras de Assis
Na antiga FFCL, hoje integrada à Unesp, o sociólogo pôde pela primeira vez atuar como pesquisador e professor de literatura; instituição concedeu-lhe o título de Professor Emérito em 1988.
Ao incorporar, em 1976, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (FFCL), a Unesp trouxe uma contribuição histórica para o ensino universitário de literatura: os anos iniciais de docência na área de um dos maiores intelectuais do Brasil, Antonio Candido (1918-2017). Sua atuação como professor em Assis foi breve, de 1958 até 1960, porém redefinidora para sua carreira profissional. Tanto que, em 1988, quando a Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp – nome atual da FFCL – concedeu-lhe o título de Professor Emérito, ele afirmou, no discurso de agradecimento, a importância daquele período em sua trajetória: “Assis foi para mim uma oportunidade decisiva”.
Em seu pronunciamento, Antonio Candido continuou: “O convite de Antonio Soares Amora [então diretor da FFCL], que agradeço mais uma vez, permitiu a um crítico literário que era Livre-Docente de Literatura Brasileira, mas também Doutor em Ciências Sociais e, na Universidade de São Paulo, Assistente de Sociologia, realizar o desejo de atender integralmente à sua vocação: os estudos literários. A Faculdade de Assis representou para mim uma espécie de renascimento intelectual, e é com orgulho que costumo declinar a minha condição de participante da grande aventura universitária que foi o seu estabelecimento”.
O discurso, na íntegra, foi publicado na reedição especial que a Editora Unesp fez em 1992 de “Brigada ligeira” (1945), seu primeiro livro, juntamente com “O observador literário” (1959) e uma entrevista de Candido concedida à Revista Trans/Form/Ação, do câmpus de Marília da Unesp.
Em 1957, Antonio Candido vivia um impasse em sua carreira profissional. Desde 1942 integrava o quadro de docentes da Universidade de São Paulo (USP) onde lecionava Sociologia, sua área de formação. Gradualmente, aproximava-se da crítica literária, e desde 1941 colaborava com a revista Clima e com jornais como Folha da Manhã (a atual Folha de S. Paulo), Diário de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.
Naquele 1957, Candido estava em licença da USP quando chegou o convite de Soares Amora para que fizesse parte do grupo de professores da nova faculdade de Assis. No início do ano seguinte, Candido começou a participar das sessões de organização da nova faculdade e mudou-se para Assis no segundo semestre. Em seu movimento, foi para o interior paulista e viu-se na companhia de outros especialistas e intelectuais, brasileiros e estrangeiros, pois Soares Amora ambicionava transformar a FFCL – criada como Instituto Isolado de Ensino Superior do Estado de São Paulo – em uma instituição de excelência, voltada ao curso de Letras.
A decisão de deixar a capital causou espanto nos amigos. O crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes comemorou o anúncio imaginando que se tratava da cidade italiana de Assis, e decepcionou-se ao saber que não era. No entanto, pode-se supor que, para o próprio Antonio Candido, a mudança não causou tanto estranhamento. Basta lembrar do período entre 1947 e 1954, quando conduziu longas visitas a municípios paulistas, como Piracicaba, Tietê, Botucatu e Bofete, entre outros, para pesquisar aspectos da vida caipira para preparar seu doutorado em sociologia, defendido em 1954, na USP. A tese foi publicada dez anos depois como Os parceiros do Rio Bonito.
“Ruptura positiva”
A FFCL começou a funcionar em 1959. No mesmo ano, sua esposa, a também professora Gilda de Mello e Souza (falecida em 2005) e suas filhas juntaram-se a ele em Assis.

A rotina na nova cidade foi imediatamente assimilada pelo sociólogo: “Na parte da manhã havia apenas estudos dos professores. Todos cuidavam dos seus trabalhos. Eu propus então que nós estabelecêssemos o ‘Pacto do Silêncio’. Isto era uma coisa oficial e essa minha expressão pegou. A ideia era conversar o menos possível um com o outro e trabalhar, produzir. O resultado de nós passarmos quatro horas, todas as manhãs, lendo, tomando nota, preparando aula, escrevendo, era um rendimento extraordinário. Quatro horas por dia, no fim do ano é uma coisa fantástica! (…) Lá nós éramos como alunos de colégio interno, eram quatro horas de estudo. Depois à tarde a gente dava as aulas e atendia os alunos”, relembrou Candido em entrevista ao professor e pesquisador Fábio Ruela de Oliveira, em seu livro “História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (1958-1964)”.
A importância da primeira experiência docente em Letras de Antonio Candido é ressaltada por uma de suas filhas, a escritora e designer Ana Luísa Escorel, no artigo Antonio Candido e Assis, publicado na revista Miscelânea, da FCL Unesp: “A cidade e particularmente a Faculdade de Letras de Assis tiveram papel decisivo na vida intelectual e na vida privada de meu pai, tendo permitido a ele uma ruptura positiva e o início de nova etapa tanto na esfera profissional quanto na esfera doméstica de sua trajetória”.
E o texto prossegue: “a vinda para Assis, em 1958, ofereceu os meios para que estabelecesse com os estudos literários o vínculo que sempre buscara, no plano da universidade, meios aos quais não tivera acesso até aquele momento. Além de abrir essa porta fundamental, Assis deu a Antonio Candido, por todo o período em que ficou na cidade, a chance de se concentrar de maneira praticamente exclusiva no trabalho intelectual, circunstância nunca antes experimentada por ele”.
“O que Assis proporcionou a Antonio Candido foi a experiência do ensino da literatura e da teoria literária na universidade. Ele tinha o preparo e o conhecimento sobre a história da literatura, as escolas literárias, as correntes, valores estéticos, mas a experiência de sala de aula era do sociólogo”, analisa o historiador Paulo Henrique Martinez, professor da FCL Unesp. “Eu diria que foi uma passagem muito feliz. A faculdade em Assis estava começando e precisava de profissionais qualificados; Antonio Candido era experiente como docente, permaneceu três anos e cumpriu um programa de trabalho. Assis possibilitou sua profissionalização na docência em literatura, o que foi positivo para a faculdade e para ele”.
Essa transição profissional foi tratada por Martinez no artigo Estação de muda: Antonio Candido em Assis (1958-1960). No entanto, para Martinez, o professor de literatura não necessariamente se afastou da sociologia. E o ponto de convergência entre o sociólogo e o estudioso da literatura está na valorização da dimensão humana, “tanto nas suas condições materiais de vida quanto nas espirituais. A cultura nunca foi estranha ao sociólogo e o crítico literário nunca abriu mão da perspectiva sociológica na explicação da literatura – desde que ela não substituísse nem sufocasse o âmbito da criatividade e da realização estética. Antonio Candido não aceitava nenhum tipo de determinismo social na criação artística, literária e cultural”, analisa.
“Em Assis e depois”
Para o antropólogo Rodrigo Ramassote, a passagem de Antonio Candido pela então recém-criada FFCL ainda não foi suficientemente dimensionada. A pesquisa de Ramassote sobre a trajetória profissional de Candido resultou em um mestrado e um doutorado, ambos defendidos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ao período de Candido em Assis, Ramassote dedicou um artigo publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP.

“De fato, Candido sempre exaltou a importância de Assis em sua trajetória profissional. Mas, ao pesquisar o tema, notei que ninguém mais havia tratado do assunto. Para mim, estava clara a importância dessa estada”, afirma Ramassote. “Por isso, intitulei meu artigo de Antonio Candido em Assis e depois, uma clara referência a um artigo do próprio Candido sobre Sérgio Buarque de Holanda, chamado Sérgio em Berlim e depois. Candido avalia, entre outras coisas, que o curto período passado por Sérgio em Berlim foi decisivo para os desdobramentos posteriores de sua obra. Considero que algo análogo aconteceu com Candido: Assis lhe permitiu definir um programa de estudos que ele veio a implementar, de maneira muito bem-sucedida, na USP. Sem mencionar, por exemplo, que as origens de um de seus principais artigos, Dialética da malandragem (1968), remontam ao período em Assis”.
Apesar de classificar o período em Assis como um “ritual de passagem” para Antonio Candido, Ramassote também não deixa de observar uma aproximação entre o crítico literário e o sociólogo: “Não creio, como parece supor boa parte de sua recepção crítica, que contingências de ordem institucional e profissional sejam suficientes para decretar uma separação radical e intransponível entre os estudos sociológicos e literários no conjunto de sua obra”, diz. “Ao contrário, sugiro que ambos se encontram, de fato, inextricavelmente imbricados em seus principais escritos e que o interesse despertado por eles, para além das fronteiras curriculares dos cursos de letras, deve-se à constante e sistemática refrega dessas, se quisermos, duas vocações”.
Ramassote considera haver uma tensão criativa entre as duas áreas, o que resulta em algo produtivo. “Não é de se estranhar, portanto, que seus principais estudos tenham repercutido e influenciado tanto historiadores e críticos literários quanto sociólogos e antropólogos. Sua visão do país é tributária da combinação de um analista literário refinado com um não menos sensível cientista social, papéis que ele soube praticar de maneira engenhosa e indissolúvel”, afirma.
A poesia concreta chega à Academia
Entre as ações propostas por Antonio Candido para a FFCL de Assis esteve a Revista de Letras da faculdade, para divulgação dos trabalhos de pesquisa dos professores e cujo primeiro número foi lançado em 1960. A passagem por Assis também se refletiu em parte da sua produção literária. Uma de suas grandes conquistas foi o lançamento, em 1959, do fundamental Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos, livro deixado no prelo ao mudar-se para Assis e vencedor do Prêmio Jabuti em 1960. Também nessa fase, organizou os artigos publicados na imprensa que viriam a fazer parte de O observador literário, também de 1959, e produziu as versões iniciais do livro “Na sala de aula: caderno de análise literária”, que viria a lançar em 1985.

Antonio Candido deixou a FFCL Assis em dezembro de 1960, quando retornou à USP. No entanto, sua proximidade com Assis não terminou de imediato: ele ainda colaborou, juntamente com o professor Jorge de Sena, na organização do Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, promovido em 1961, do qual também participou como pesquisador.
O congresso, cuja primeira edição ocorrera no ano anterior na Universidade do Recife (Pernambuco), foi um evento importante para a consolidação do instituto isolado no oeste do Estado, e seu diretor, Antonio Soares Amora, atuou diretamente para que fosse realizado em Assis. Entre os convidados, estiveram intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda, Silviano Santiago, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Sales Gomes e Roberto Schwarz, para citar alguns nomes.
Professor de Literatura Brasileira da Unesp de Assis, Benedito Antunes, confirma: “Para uma faculdade recém-criada, receber alguns dos principais intelectuais brasileiros e portugueses da área para discutir literatura foi talvez um de seus maiores feitos. Muitos eram ainda jovens, na casa dos vinte e pouco anos, mas praticamente todos se tornaram referência nos estudos literários”, diz.
“Muitos dos participantes apresentaram trabalhos originais que se tornaram depois referência para eles próprios e para a área”, completa Antunes, “como Anatol Rosenfeld, que discorreu sobre A estrutura da obra literária, texto retomado depois em outras publicações do autor; Décio Pignatari, que apresentou A situação atual da poesia no Brasil, e Antonio Candido, que formulou pela primeira vez o seu método de análise que relaciona literatura e sociedade”.
O congresso de Assis também possibilitou a “entrada” da poesia concreta no mundo acadêmico, com aval de Antonio Candido – no evento, além de Pignatari, estavam presentes também José Lino Grünewald e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos. “A novidade naquele tempo era a poesia concreta, e nós demos a eles [os poetas concretos] a oportunidade de aparecerem em um evento importante e darem a sua mensagem”, contou Candido em entrevista a Benedito Antunes, em 2012, por ocasião dos 50 anos do Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária.
Interiorização com ambições científicas
No artigo Antonio Candido e a interiorização do ensino superior, publicado na Revista da USP, Álvaro Simões Junior, professor de Literatura Brasileira da Unesp de Assis, avaliou o legado da passagem do sociólogo e crítico literário pelo interior.
“Ao partir de Assis, Candido havia deixado, para sempre, um modelo de instituição universitária que atendia a legítimas reivindicações pela interiorização do ensino superior, introduzia uma estrutura administrativa e acadêmica essencialmente democrática, associava os alunos à pesquisa, como pesquisadores em formação, e impunha à pesquisa, entendida como base do ensino, um padrão de qualidade que lhe permitisse ombrear com instituições internacionais similares. Interiorização sim, mas com ambições científicas”, escreveu. O texto compõe edição especial do periódico, em 2018, pelo centenário de nascimento do pesquisador.
Desde aquele ano de 1958, quando iniciou suas atividades na FFCL de Assis, até 1978, quando se aposentou na USP, Antonio Candido completou 20 anos de docência na área da literatura, transmitindo seu legado a inúmeros alunos e orientandos. Após sua aposentadoria, retornou algumas vezes a Assis, e em 1986 ministrou o curso “Romantismo e Modernismo“, na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, composto por cinco aulas.

“Então, o mesmo professor de Assis foi o que se aposentou?”, perguntou, ao entrevistá-lo, o professor de Teoria da Literatura Gilberto Figueiredo Martins, da FCL Unesp, em artigo na já citada revista Miscelânea, em 2008. Ao que Antonio Candido respondeu: “E digo mais: como eu tive em Assis essas admiráveis sessões com ‘pacto de silêncio’, preparei uma quantidade de análises de textos que depois usei o resto do tempo em São Paulo. Análise de poesia brasileira, sobretudo”. A entrevista a Martins foi concedida por ocasião dos 50 anos do curso de Letras da FCL.
Apesar da distância no tempo, a faculdade que recebeu Antonio Candido em Assis nunca esqueceu de sua passagem por lá. O título de Professor Emérito, mencionado no início da reportagem, é mais uma prova. Da mesma forma, levando-se em conta as diversas entrevistas que concedeu, os prefácios que escreveu e os cursos que ministrou, não seria exagero dizer que Antonio Candido, por sua vez, sempre guardou a faculdade de letras de Assis em suas melhores memórias.
Agradecimentos: Cedap (Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa)/Unesp Assis, IEB (Instituto de Estudos Brasileiros)/USP, Ana Luísa Escorel, Benedito Antunes. Colaborou Nathan Sampaio.
Mais lidas
-
1ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
2TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
IT Forum abre edição de 35 anos com aposta em ecossistemas como nova força da inovação
-
3ECONOMIA | AGRONEGÓCIO
Rafael Tenório anuncia novo investimento em Palmeira dos Índios e aposta no potencial do agro da região
-
4EMPREENDEDORISMO
Lula Cabeleira investe em novo shopping de Juazeiro do Norte e reforça aposta no potencial econômico da cidade
-
5SEGURANÇA PÚBLICA
Tornado atinge o Rio Grande do Sul e deixa feridos