Geral
Eduardo Assad: 'El Niño expõe atraso da agricultura na adaptação às mudanças climáticas'
Pesquisador alerta sobre os impactos do fenômeno no setor agrícola brasileiro.
A eventual confirmação de um El Niño de forte intensidade este ano pode impor novos desafios à agricultura brasileira, justamente em um momento em que o setor convive com dívidas e alta de custos, diz o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Eduardo Assad ao Broadcast Agro. Especialista em agroclimatologia e aquecimento global e proprietário e diretor técnico da Fauna Projetos, ele explica que o fenômeno climático tem potencial, caso seja classificado como "super forte", de reduzir em até 10% a produção nacional de grãos, como já ocorreu em outros anos. No entanto, Assad enfatiza que o maior problema não é o El Niño, e sim a demora em preparar os sistemas produtivos para enfrentar um clima que já mudou.
Pesquisador da Embrapa e ex-secretário de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Assad possui trabalhos reconhecidos como pioneiros em estudos agroclimáticos e aquecimento global. Ele afirma que soluções para reduzir perdas já existem, mas exigem planejamento de longo prazo. Além disso, critica o atraso na adaptação da agricultura brasileira às mudanças climáticas e o conceito, baseado em fatos distorcidos, de que o País seria uma "potência agroambiental". A seguir, os principais pontos da entrevista:
O El Niño deve ser tratado com cautela ou o risco de um evento forte é real?
O El Niño já está instalado. Agora é avaliar a intensidade. Atualmente, tanto os modelos climáticos da NOAA, nos Estados Unidos, quanto os europeus mostram mais de 90% de probabilidade de um El Niño forte ou até superforte. O que caracteriza isso é a anomalia da temperatura da superfície do Pacífico. Um El Niño fraco começa com meio grau acima da temperatura média das águas do Oceano Pacífico. O forte fica entre 1°C e 1,5°C. Acima de 2°C, já falamos de um evento superforte. Os modelos climáticos indicam 90% de probabilidade de ele ser forte ou superforte.
Qual pode ser o impacto para a produção de grãos no Brasil?
Nos últimos dez anos, tivemos três episódios muito fortes de El Niño que afetaram a produção brasileira. O principal é o de 2023/24. Naquela safra, as perdas foram significativas no Norte, Nordeste e Sudeste, enquanto o Sul aumentou a produção devido ao excesso de chuva. Na soja e no milho, as perdas ficaram entre 7% e 10% da safra, principalmente por causa da seca. Se este novo El Niño vier com a intensidade prevista pelos modelos, poderemos perder até 10% da produção de grãos, o que o Brasil não pode se dar ao luxo. Na safra 2025/26, que deve render cerca de 320 milhões de toneladas só de soja e milho, seriam 32 milhões de toneladas em potencial de perda. Isso é muito.
A área plantada deve crescer em torno de 1,5% nesta safra. Esse aumento pode compensar parte das perdas provocadas pelo clima?
Não acredito. Em 2023/24, também houve aumento de área e isso não impediu perdas entre 7% e 10% na produção. Entretanto, uma questão é importante: se esse aumento ocorrer pela conversão de pastagens degradadas, e não por desmatamento, é uma boa notícia. Além disso, muitos produtores continuam bastante endividados e renegociando dívidas, o que pesa sobre a capacidade de reação do setor diante de um evento climático extremo.
A combinação entre mudanças climáticas e El Niño torna esses eventos mais preocupantes do que eram no passado?
O que sabemos é que o Oceano Atlântico está mais quente e isso já altera bastante o clima. Também estamos observando maior frequência de episódios intensos no Pacífico, mas afirmar que uma coisa causa diretamente a outra ainda seria precipitado. Há cientistas no mundo todo estudando essa relação, mas sem conclusão definitiva até agora.
Há tempo de o produtor adotar medidas para reduzir os impactos de um El Niño forte ainda este ano?
Praticamente não. Na agricultura, as tecnologias para enfrentar eventos climáticos extremos existem há mais de 35 anos, mas não são adotadas de imediato, levam de três a quatro anos. Mesmo os produtores que adotaram práticas sustentáveis tiveram perdas em eventos extremos, mas perderam cerca de 15%. Aqueles que não fizeram nada perderam mais de 25%.
Quais são essas soluções?
Uma das principais medidas é criar condições para que a planta busque água mais profundamente no solo. Precisamos aprofundar o sistema radicular, manter cobertura permanente do solo, trabalhar com plantio direto de qualidade, integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). A braquiária (uma gramínea de pasto) é muito útil, pois melhora a estrutura do solo e permite que as raízes de culturas de grãos explorem camadas mais profundas. Nas regiões sujeitas a enchentes, também é fundamental recompor a vegetação. Nada disso é novidade.
Mesmo quem adota práticas sustentáveis estará sujeito a perdas diante de um El Niño forte?
Sim. Quando você combina deficiência hídrica com temperatura elevada, a planta sofre alterações na fisiologia. Para tentar contornar isso, muitos apostam em cultivares superprecoces de soja para garantir, em seguida, a safrinha de milho. Porém, essas plantas realizam fotossíntese muito rapidamente e transpiram muito mais. Se ocorrer um veranico de dez ou quinze dias durante um El Niño forte, elas vão sofrer. Propomos outro caminho: trabalhar com cultivares de ciclo médio, que suportam melhor essas oscilações climáticas. Então, o produtor diz: "Mas vou perder a safrinha". E eu respondo: "Você quer perder a safrinha ou quer perder a fazenda?"
O senhor defende essas práticas há décadas. O agricultor está mais receptivo aos efeitos das mudanças climáticas e à necessidade de práticas conservacionistas?
Está mudando, e isso me deixa muito satisfeito. Quando o bolso é afetado, o produtor começa a perceber que há um problema. Vejo, portanto, muito mais abertura para discutir mudanças climáticas, especialmente na pecuária e entre produtores de milho. Os sojicultores ainda apresentam resistência, mas bem menor atualmente.
Qual deveria ser a prioridade do poder público para reduzir a vulnerabilidade da agricultura aos eventos climáticos?
O seguro rural não deveria ser considerado um gasto, mas sim um investimento. Quando criamos o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, em 1996, o então ministro da Agricultura me disse: "Vocês estão salvando o seguro rural brasileiro". O zoneamento se tornou uma política pública permanente, mas o seguro não. Há mais de 30 anos discutimos o seguro rural no Brasil, sempre tratando o tema como um problema fiscal. Isso não pode ser assim.
A efetiva implementação do Código Florestal pode servir como instrumento de adaptação às mudanças climáticas?
Não tenho dúvida. Está mais do que demonstrado que o desmatamento reduz as chuvas, aumenta a temperatura e intensifica as ondas de calor. O Código Florestal existe para minimizar esses efeitos, não para atrapalhar o produtor. Foi criado para proteger as condições que tornam a agricultura viável. Ao exigir reserva legal, áreas de preservação permanente e proteção das nascentes, ele ajuda a manter o regime de chuvas, temperaturas equilibradas e a disponibilidade de água. Quem mantém reserva legal, mata ciliar e nascentes está protegendo seu próprio sistema produtivo. Com a consolidação do mercado de carbono, essas áreas tendem a ganhar ainda mais valor econômico. A reserva legal deixa de ser vista como um custo e passa a representar um ativo econômico. O mundo precisa remover carbono da atmosfera para enfrentar as mudanças climáticas.
O discurso de que o Brasil seria uma "potência agroambiental" ainda se sustenta?
Houve uma campanha baseada em informações equivocadas sobre a cobertura florestal brasileira. Os números não refletem a realidade de todo o País. São veiculados dados que dizem que o Brasil preserva cerca de 60% de sua cobertura vegetal nativa, mas não dá para pegar os dados da floresta da Região Norte e expandir isso para o Brasil inteiro. Mato Grosso possui boa cobertura vegetal, mas Minas Gerais e Goiás não estão na mesma situação. Está havendo, por exemplo, uma reação forte no oeste da Bahia, onde os agricultores perceberam que, se não mantiverem o tapete vegetal, não conseguirão produzir. Então, onde está esse "agroambiental" que era o melhor do mundo, a luz, a paz, a alegria? As pessoas começaram a ver que isso não era bem verdade.
O senhor acredita que ainda temos tempo para adaptar a agricultura às mudanças climáticas?
Temos, mas precisamos agir rápido. Estudos recentes mostram que aquele aumento de 2 graus na temperatura global, que antes era projetado para 2050, pode acontecer por volta de 2040. Isso reduz significativamente nossa margem de reação. Esperar o problema chegar nunca foi uma estratégia inteligente.
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