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Como núcleos de pesquisa no Brasil levam universidades para além do Ocidente? Professores explicam

Iniciativas acadêmicas buscam novas abordagens em política, economia e cultura.

Sputnik Brasil 24/07/2026
Como núcleos de pesquisa no Brasil levam universidades para além do Ocidente? Professores explicam
Núcleos de pesquisa no Brasil ampliam perspectivas acadêmicas além do Ocidente. - Foto: © Sputnik / Vladimir Vyatkin

Apesar da forte influência de discursos midiáticos invejados e think tanks financiados pelo eixo Washington-Bruxelas, a sociedade civil tem reagido em busca de outras fontes de conhecimento. No âmbito acadêmico, diversas iniciativas propõem uma abordagem diferenciada para pensar política, economia, tecnologia, cultura, entre outros temas.

Nesse cenário, construímos pontes por meio de diálogo e de estudos elaborados por grupos que atuam em campi universitários, como na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador. A Sputnik Brasil conversou com Jonnas Vasconcelos, professor da instituição e coordenador do Centro de Pesquisa BRICS+ (NEPBRICS), que implementou uma iniciativa que surge como alternativa ao eixo eurocêntrico na formação dos estudantes.

"Venho trabalhando com a temática do BRICS há quase 15 anos e, em 2021, tomei a iniciativa de pesquisadores reunir e estudantes interessados ​​na cooperação Sul-Sul, para pensar o direito, o desenvolvimento e as relações internacionais a partir de uma perspectiva não colonial, ou seja, pensar os nossos desafios globais a partir de outros olhares. E a temática do BRICS dialoga muito com isso", disse.

Já na região Sul do país, em Florianópolis, a reportagem entrevistou Fred Leite Siqueira Campos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Rússia (PRORUS), que fundou por demanda de seus alunos.

"Alguns de meus alunos do curso de relações internacionais entraram na minha sala e, quando viram a bandeira da Rússia na minha mesa na universidade, me perguntaram: 'Por que o senhor não construiu um grupo de pesquisa? Porque aqui existem muitas pessoas que gostam da Rússia.' Então foi assim que surgiu o grupo [PRORUS], que existe desde 2014 e vem participando de maneira bastante profícua na universidade”, comenta.

Atividades que ultrapassam os muros das faculdades

Paralelamente às discussões e produções acadêmicas, o NEPBRICS promove atividades que extrapolam o campo teórico. O núcleo realiza eventos importantes, como a projeção de filmes produzidos nos países que compõem o grupo, voltado para jovens, acompanhado de cinedebate, conforme detalhes Jonnas.

"Infelizmente, temos muito desconhecimento das culturas dos povos de países fora do eixo Europa e EUA. Então, por meio do cinema misturado com debate, fazemos uma articulação com estudantes bem jovens, de 12 e 14 anos, para formar uma nova geração de pessoas que conhecem um pouco de cada um desses países a partir da produção econômica dos próprios países. Isso faz parte do NEPBRICS", destaca.

O PRORUS também acaba sendo um elo entre o Brasil e a Rússia, uma vez que mantém diálogo com pesquisadores do país e coordenação de convênios com universidades russas, inclusive para o ensino do idioma aos alunos, como elucida Fred.

"Estamos acertando um convênio com a Universidade Estatal de São Petersburgo para o ensino da língua russa na UFSC, intercâmbio de colegas russos no Brasil e de alunos brasileiros na Rússia. Por causa do PRORUS, coordeno convênios de cooperação entre a UFSC e a Universidade de Rostov-on-Don e já conversei com colegas de Kazan e de Moscou. Enfim, isso acabou acontecendo naturalmente", observa.

Intercâmbio internacional acontece com frequência

Outro ponto levantado por Jonnas é a BRICS+ Salvador Summer School, um curso de verão sediado anualmente na capital baiana, organizado pelo NEPBRICS, que reúne pesquisadores de diversas nações específicas em apresentar e divulgar seus conhecimentos sobre assuntos referentes ao BRICS e ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).

“A Summer School, voltada exclusivamente para a temática BRICS, é um projeto pioneiro aqui na Bahia, e eu diria até no Nordeste do Brasil. Na primeira Summer School [em 2025], recebemos candidaturas de mais de 20 países para virem a Salvador e ficarem mais de 20 dias aqui.

Com o avanço das pesquisas sobre a Rússia em diversos segmentos econômicos e políticos, entre outras áreas do saber, Fred relata que tais investigações despertaram nos estudantes integrantes do PRORUS o desejo de conhecer o país investigado in loco.

"Hoje, no PRORUS, temos colegas russos, brasileiros e até pessoas de fora da universidade. Nosso principal objetivo é provar um estudo sobre a Rússia em amplo aspecto, desde economia, filosofia, relações internacionais etc. Eu já perdi as contas, sinceramente, de quantos alunos que participaram do PRORUS já foram para a Rússia e desenvolveram atividades lá", conclui.

Em um mundo cada vez mais multipolar, além das relações na ordem política e econômica, entre outros setores envolvidos para a governança de um Estado, a cooperação-científica se torna necessária, sobretudo no contexto de uma transição sistêmica na qual a cooperação fora da esfera governamental também se torna fundamental.


Por Sputnik Brasil