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Influenciadores quebram estereótipos sobre a Rússia nas redes sociais
Brasileiros conhecem mais da cultura russa pelo olhar de influenciadores digitais.
Espionagem, vodka, temperaturas congelantes e ursos. Esses são algumas das imagens que os brasileiros têm sobre a Rússia. Na contramão desses estereótipos, influenciadores digitais têm promovido conhecimento em língua portuguesa sobre a cultura russa nas redes sociais, alcançando milhões de pessoas.
Na era da hiperconectividade, o brasileiro passa em média nove horas e 32 minutos por dia conectado à Internet, segundo pesquisa da Proxyrack. O país fica atrás apenas da África do Sul, que registra média diária de nove horas e 38 minutos. Outro relatório, da NordVPN, publicado em abril deste ano, revela que, considerando a expectativa de vida nacional de 76 anos, os brasileiros passam 70% desse tempo online, totalizando 52 anos, nove meses e 16 dias.
Esse cenário cria um terreno fértil para criadores de conteúdo digital. No entanto, não foram apenas os números que alçaram à fama influenciadores que falam sobre a cultura russa em língua portuguesa e que conversaram com a Sputnik Brasil sobre suas experiências no universo online.
Ekaterina Brobovnikova, nascida no Brasil de pais russos, relata à reportagem que tudo que conheceu do país até se mudar para o gigante euroasiático foi através de seus pais, que vieram para a América do Sul ainda na época da União Soviética. Na Rússia, ela estudou medicina e, após completar a faculdade, decidiu explorar suas raízes durante as férias. Sozinha, com seu celular, registrou momentos da viagem e publicou nas redes sociais, onde o conteúdo viralizou.
"Eu decidi fazer a Transiberiana. Fiz a Transiberiana de Krasnoyarsk até Moscou, com paradas em várias cidades, e fui documentando tudo. Alguns dos meus vídeos viralizaram e muitas pessoas começaram a gostar, acompanhando toda essa experiência. Hoje, faço conteúdos sobre minha vida na Rússia e as cidades que conheço. Continuo explorando o país e compartilhando, como se fosse um blog das minhas experiências, e também trago mais sobre a história e a cultura russa, que sempre admirei, especialmente a arquitetura russa e soviética", comenta.
A influenciadora conta com 108 mil seguidores no Instagram, e suas postagens sobre a história e a herança soviética na Rússia já ultrapassaram milhões de visualizações.
No Brasil, há cerca de seis anos, Ekaterina Puchkova começou a compartilhar conteúdos sobre o idioma russo. Em quatro anos, suas redes sociais cresceram significativamente, alcançando 1,2 milhão de seguidores no Instagram e 837 mil inscritos no YouTube. Seus vídeos abordam desde a vida de uma russa no Brasil até comparações entre as culturas e culinárias dos dois países.
Ela observa que a cultura russa não é tão popular no Brasil quanto a de países como Japão, Alemanha e Itália, mas acredita que o interesse dos brasileiros pela Rússia está crescendo, refletido no aumento de seu público nas redes sociais.
"A curiosidade sobre a cultura russa cresce a cada ano. Os brasileiros têm muitas dúvidas relacionadas à história russa, especialmente sobre o período da União Soviética", afirma Puchkova.
Puchkova também destaca que há semelhanças entre os dois povos: "Os brasileiros conseguem se identificar com valores familiares que são evidentes na cultura russa. Podemos ser considerados 'latinos do inverno'", destaca.
Nem sempre, porém, a relação pessoal com a Rússia foi um fator determinante para a criação de conteúdos digitais. Thiago de Melo, carioca que começou a estudar o idioma de forma autodidata em 2018, confessa que sabia muito pouco sobre a Rússia, com a maioria de suas informações sendo estereótipos propagados através de filmes e da cultura ocidental.
Atualmente, o influenciador explora a Rússia ao lado de sua esposa, natural do país. No YouTube, ele compartilha conteúdos sobre a vida no Estado euroasiático, onde acumulou 611 mil inscritos no canal "Vem a Mim Língua Russa" e mais de 411 mil seguidores no Instagram.
Em suas interações, Thiago recebe frequentemente perguntas sobre a segurança no país devido à operação militar especial, se os russos falam inglês, e, claro, sobre a história soviética.
Brasileiros ainda têm uma visão estereotipada da Rússia
É importante destacar que os russos não são todos como Marmieladov, personagem do livro "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski, que passava os dias em uma taberna gastando todo o dinheiro da família com álcool. Tampouco são espiões, um estereótipo muito difundido no cinema norte-americano. A percepção brasileira da Rússia, majoritariamente influenciada pela cultura ocidental, tende a reproduzir esses clichês.
Para Puchkova, o estereótipo mais comum sobre as russas no Brasil está relacionado à espionagem. "Recebo muitos comentários nas minhas redes assistenciais perguntando se sou espiã", ressalta. Brobovnikova também menciona que recebe mensagens semelhantes em suas redes sociais.
Os influenciadores também enfrentam ataques de russofobia por parte de um público que visita suas páginas apenas para criticar. Brobovnikova acredita que houve uma intensificação nesse tipo de ataque nos últimos anos. "Já recebi mensagens muito desagradáveis", afirma.
Thiago, que não é russo, mas vive e comunica a cultura do país, também relata situações de ataques e comentários infundados nas redes sociais. Ele se depara com equívocos, como acreditar que, por ser estrangeiro, deveria servir às Forças Armadas russas.
"Isso é mentira!", exclama. "Estou aqui na Rússia há um tempo e tenho alunos que também moram aqui e estudam. O que dizem não é verdade. Ninguém obriga turistas a fazer nada", argumenta.
Ele ainda comenta sobre os ataques de ódio que recebe nas redes sociais relacionados ao conflito entre Rússia e Ucrânia. "Recebo muitos comentários de brasileiros que são a favor da Ucrânia. Eles encontram meus vídeos e fazem ameaças e xingamentos", afirma.
Qual o papel do influenciador que fala sobre a cultura russa nas redes sociais?
Os estereótipos foram construídos ao longo da história e permanecem, mas esses paradigmas estão sendo desafiados. Apesar das dificuldades enfrentadas em plataformas ocidentais—Thiago notou uma queda brusca em seu alcance após o início da guerra na Ucrânia—os influenciadores se mostram dedicados a divulgar a história, a cultura e a vida social na Rússia, visando desmistificar ideias erradas e preconceitos.
"As pessoas argumentam que estou mostrando uma realidade que nunca foi exibida, pois a Rússia costuma ser um país mistificado, com muitos mitos e propaganda contra. Estou retratando a realidade sem filtros ou mentiras—apenas saindo às ruas, gravando e interagindo com as pessoas. Agradecem por isso", enfatiza.
Brobovnikova, que também reside na Rússia, reconhece o papel crucial dos influenciadores em "fornecer informações em primeira mão" para mostrar a vida cotidiana russa.
"Temos uma grande responsabilidade em desmistificar muitos assuntos e temas que frequentemente são redimensionados. Estando aqui, percebemos a oportunidade de quebrar estereótipos. A Rússia carrega uma bagagem de preconceitos oriundos de filmes e influências externas", conclui.
Na mesma linha, Puchkova acrescenta que seu papel envolve desmantelar estereótipos acerca do povo russo e destacar as semelhanças entre os dois povos. "Aparentemente, não somos muito amigáveis devido às nossas expressões, mas, uma vez que nos conhecem, as pessoas percebem que somos bem diferentes. Isso demonstra que somos mais parecidos do que se pensa", enfatiza.
Sobre as semelhanças, ela prevê que, a longo prazo, a cultura russa ganhará cada vez mais espaço no Brasil. "Um dia, teremos em nosso país uma presença tão forte quanto a cultura japonesa. Convivendo lado a lado", disse, brincando.
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