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Padre excomungado denuncia advertências por criticar rituais em igrejas

Figueiredo Costa aponta abusos sexuais e críticas ao alto clero no Brasil.

Estadao Conteudo 16/07/2026
Padre excomungado denuncia advertências por criticar rituais em igrejas
Françoá Rodrigues Figueiredo Costa - Foto: Reprodução

Excomungado pela Igreja Católica por se filiar à Fraternidade Sacerdotal Pio X (FSSPX), que ordenou bispos à revelia do Vaticano, o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa divulgou, nesta quinta-feira, 16, uma carta aberta aos católicos de Brasília, na qual faz críticas ao alto clero brasileiro. Ele afirma que foi advertido por recriminar rituais de macumba em igrejas católicas na Arquidiocese de Brasília e lembrou casos de abusos sexuais envolvendo sacerdotes.

A reportagem encaminhou a íntegra da carta do padre à Arquidiocese de Brasília. Em nota, a arquidiocese informa que, em consonância com a Santa Sé, seu único posicionamento oficial sobre o tema está expresso no documento intitulado Nota Pastoral sobre a denominada 'Capela Santo Atanásio' e o Revdo. Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, publicado em seu site oficial.

Em nota pastoral publicada no último dia 11, a Arquidiocese de Brasília afirma que, em razão das ordenações episcopais de 1.º de julho a quatro presbíteros da Fraternidade Sacerdotal Pio X sem a autorização do papa, o Vaticano publicou em 2 de julho um decreto de cisma e excomunhão contra os envolvidos.

Com isso, a situação do padre Françoá Costa, que desde 5 de abril de 2025 se considera aderente à Fraternidade, tornou-se uma questão de cisma e excomunhão a partir do decreto papal. A medida é extensiva a todos os ministros da Fraternidade. “Os atos ministeriais do sacerdote consideram-se, a partir da excomunhão, ilícitos”, informa o documento. A nota acrescenta que os sacramentos da confissão e do matrimônio ministrados por ele são nulos.

A Arquidiocese de Brasília diz ainda que os fiéis que frequentam regularmente ou exclusivamente as atividades vinculadas à Fraternidade são considerados, igualmente, cismáticos e excomungados. “Portanto, as celebrações, atividades pastorais, iniciativas de formação ou demais atos promovidos na denominada 'Capela Santo Anastácio' são considerados irregulares, por não se exercerem em comunhão com o Romano Pontífice, nem com o Arcebispo Metropolitano de Brasília, e devem ser terminantemente evitadas pelos fiéis, em razão do grave risco de gradual aderência ao mesmo cisma e excomunhão.”

O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa considerou inválida a excomunhão e continua a celebrar missas. Na carta de 8 páginas publicada nesta quinta-feira, ele afirma que, em 22 anos de sacerdócio, teve de enfrentar bispos e entrar em conflitos com sacerdotes e leigos para defender a fé católica. Ele relata que, em setembro de 2022, por exemplo, denunciou eventos de macumba em templo católico na Paróquia de Sobradinho e na própria Catedral de Brasília.

Além disso, ele destaca que um vídeo da denúncia viralizou e que recebeu determinação da arquidiocese para retirar o material do ar, “o que na época eu fiz, pois talvez acreditasse na obediência cega que eles tanto apregoam”.

Em sua narrativa, ele conta que trabalhou quatro anos na Arquidiocese de Brasília e foi escolhido para representar todos os padres da Ceilândia em questões pastorais e de coordenação. “Mesmo colaborando tanto com esta Arquidiocese, quando coloquei uns papéis dentro do Missal Romano que traziam a tradução ao latim daquilo que estava em português, fui retirado da Paróquia Senhor Bom Jesus, em 2024.”

O padre Françoá lembra que houve, na história da Igreja, vários santos que se opuseram a determinações da hierarquia em momentos críticos, como Santo Atanásio e Santa Joana D’Arc, que foram condenados por autoridades eclesiásticas de sua época, mas depois reconhecidos como grandes santos da Igreja Católica. Ele reafirma sua posição contrária a princípios da Igreja atual. “Não podemos aceitar os erros do Concílio Vaticano II, entre eles, a liberdade religiosa, o ecumenismo, o humanismo horizontal, a reforma da Missa, a colegial-sinodalidade.”

Primeiro cisma da Igreja em 38 anos

O Vaticano excomungou no início do mês bispos, sacerdotes e leigos que aderirem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Os adeptos do grupo devem ser considerados cismáticos e excomungados, declarou a Santa Sé.

Trata-se do primeiro cisma da Igreja em 38 anos - e, como o anterior, envolve o grupo fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. Oficialmente, o Vaticano chamou a nomeação de quatro bispos pelo grupo tradicionalista, sem o aval de Leão XIV, de “ato de natureza cismática”, isto é, de dissidência. Dessa forma, “o sacramento da penitência por eles administrado e o matrimônio por eles assistido são inválidos”, detalhou, em relação aos sacerdotes da fraternidade.

Essa comunidade, fundada em 1970 por Lefebvre (1905-1991), reúne fiéis que se orientam por uma interpretação estrita da tradição doutrinal e litúrgica. Rejeita as evoluções da Igreja desde o Concílio Vaticano II (na década de 1960), defendendo um modelo de sociedade patriarcal e um ideal de Estado teocrático. Segue o rito “tridentino”, caracterizado pelo uso do latim e por uma liturgia altamente codificada. Nas missas, o sacerdote fica de costas para os fiéis, voltado para o altar.

A FSSPX é influente em círculos conservadores no mundo todo, contando com 2 bispos, 733 sacerdotes, 264 seminaristas, 145 irmãos religiosos, 88 oblatos e 250 religiosas, representando 50 nacionalidades.