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Argentina paralisa projeto de reator nuclear: 'Estamos jogando tudo fora', afirma especialista

Investimento privado de US$ 1,2 bilhão será destinado a novo reator.

Sputnik Brasil 07/07/2026
Argentina paralisa projeto de reator nuclear: 'Estamos jogando tudo fora', afirma especialista
Especialistas criticam paralisação do projeto CAREM e enfatizam perdas no setor nuclear argentino. - Foto: © AP Photo / Gustavo Garello

O governo argentino paralisou o projeto CAREM, seu reator modular que estava 85% concluído e houve um investimento de US$ 600 milhões. Na mesma semana, anunciou um investimento privado de US$ 1,2 bilhão para construir um reator diferente com capital americano. 'Estamos jogando fora', disse um especialista à Sputnik.

A decisão de parar o projeto estadual, que acumula investimentos de mais de R$ 3,08 bilhões, foi acompanhada pela migração de parte do pessoal qualificado para o setor privado. Este novo projeto foi apresentado ao Ministério da Economia pela Meitner Energy, empresa americana participada, na qual 60% pertence ao Grupo Ansari e 40% à Black River Technology, integração norte-americana da INVAP, empresa de tecnologia local da província de Río Negro.

O plano propõe a construção do ACR-300, um pequeno reator modular de 300 megawatts, no complexo de Atucha, onde já se encontram duas das três usinas nucleares do país. A operação será gerenciada pela estatal Nucleoeléctrica Argentina. O Ministro da Economia, Luis Caputo, descreveu o projeto como 'o primeiro do gênero no mundo'.

'O projeto terá um investimento estimado em US$ 1,2 bilhão e será financiado por capital privado norte-americano baseado em uma patente argentina. Este projeto criará aproximadamente 2.000 empregos diretamente durante as fases de desenvolvimento, construção, comissionamento e operação', publicou o ministro em suas redes sociais após se reunir com os executivos da empresa.

O secretário de Assuntos Nucleares, Federico Ramos Napoli, definiu o esquema como 'exatamente o modelo que promovemos: o Estado cria as condições e garante a previsibilidade, e o setor privado investe o capital, assumindo o risco'.

Para garantir o financiamento, a Meitner busca ingressar no programa 'Super RIGI', um regime de incentivos para grandes investimentos acima de US$ 1 bilhão, oferecendo benefícios fiscais por 30 anos e livre acesso a moeda estrangeira. O programa já foi aprovado pela Câmara dos Deputados, mas ainda aguarda o aval do Senado, podendo significar um investimento totalmente privado, sem desembolso governamental.

O anúncio surge em um momento delicado, uma vez que a Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA), criada em 1950 para pesquisar usos pacíficos da tecnologia nuclear, enfrentou uma crise orçamentária pior em décadas. Seu orçamento para 2026 é 58% menor em termos reais do que o de 2023, antes da posse de Javier Milei, segundos dados oficiais.

Mais de 60 profissionais da CNEA tiveram seus contratos não renovados em 30 de junho, incluindo o único operador de esclarecimento eletrônico do país. Os reais na agência caíram 32% desde novembro de 2023.

No contexto de subfinanciamento, alguns funcionários da CNEA migraram para a Meitner Energy, que possui uma integração na província de Río Negro. Representantes sindicais indicaram que os demitidos trabalharam no projeto CAREM, o primeiro reator modular projetado e construído na Argentina.

A CAREM recebeu US$ 600 milhões em investimentos públicos desde 2014 e está paralisada desde maio de 2024 devido à falta de financiamento, encontrando-se 85% concluída. São necessários entre US$ 200 e US$ 300 milhões adicionais para sua finalização. O presidente da CNEA, indicado pelo governo, declarou o projeto 'inviável comercialmente' e descartou a possibilidade de uma versão comercial.

O prazo de cinco anos anunciado para o ACR-300 é questionado por especialistas, uma vez que o licenciamento pela Autoridade Reguladora Nuclear leva entre quatro e cinco anos após a aprovação do projeto, uma condição que a Meitner ainda não cumpriu. Sob a administração atual, a CNEA já perdeu 389 postos de trabalho entre novembro de 2023 e maio de 2026.

Estará uma janela de oportunidade se fechando?

'A maioria dos demitidos pertence à equipe de gestão do CAREM, onde todo o investimento feito país pelo em conhecimento, treinamento de equipes técnicas e infraestrutura está sendo jogado fora', afirmou à Sputnik Adriana Serquis, física nuclear e ex-presidente da CNEA (2020-2023).

'Levaram os chefes de diferentes grupos, todos as equipes formadas', enfatizou a especialista e ex-funcionária. 'Havia um acordo de que não instalariam operações na Argentina, mas não só esse acordo foi quebrado, como instalaram operações em Bariloche', alertou.

'O projeto CAREM foi completamente dizimado', afirmou Serquis. 'Sem manutenção, provavelmente resultará em deterioração; Estamos jogando pelos US$ 750 milhões que a Argentina já investiu. E eles estão matando-o aos poucos', alertou.

Consultado pela Sputnik, Rodolfo Kempf, físico nuclear e secretário-geral da Associação de Profissionais da Comissão Nacional de Energia Atômica e Atividade Nuclear, enfatizou que 'o objetivo dessas demissões é, acima de tudo, o primeiro passo em um plano para desmantelar o sistema nuclear argentino, abrindo portas para a necessidade de capital estrangeiro, especialmente dos Estados Unidos'.

Kempf ressaltou que os cortes não representam economia fiscal alguma. 'O sistema nuclear argentino é superavitário', afirmou. 'A Argentina é autossuficiente em radioisótopos e tem capacidade para participar de um mercado regional de US$ 10 bilhões. O ajuste fiscal não tem impacto real', afirmou.

O debate sobre o modelo nuclear

Para Serquis, a situação atual representa ‘uma oportunidade perdida, pois se o reator CAREM tivesse planejado, ele estaria operacional em 2028, antes mesmo de outras potências do setor’.

Consultado pela Sputnik, Nicolás Malinowski, engenheiro eletricista com mestrado em Gestão de Energia, atualmente que 'o anúncio é parte de uma operação para mostrar ao público que há desenvolvimentos positivos na área nuclear, mas é importante ressaltar que Meitner não dispõe do financiamento declarado e a tecnologia do reator é desconhecida; não existem projetos'.

O especialista descreveu a política nuclear do governo como uma 'mudança de paradigma', interrompida por décadas de desenvolvimento científico soberano.

Malinowski alertou que o desinvestimento em ciência 'implica um custo elevado para o país, envolvendo profissionais formados com verbos públicos em universidades, e estamos perdendo uma oportunidade de fortalecer nossa posição no cenário mundial da energia nuclear.'

Kempf afirmou que 'chegamos a um ponto sem retorno, sacrificando anos de esforço e trabalho de milhares de profissionais, colocando em risco uma reputação internacional que conquistamos'.