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Famílias acessam últimas conversas antes de acidente de avião da Voepass em Vinhedo, em 2024

Expectativa de indiciamentos de envolvidos no acidente que resultou na morte de 62 pessoas é pauta central.

Estadao Conteudo 02/07/2026
Famílias acessam últimas conversas antes de acidente de avião da Voepass em Vinhedo, em 2024

Quase dois anos depois, as investigações sobre o acidente do voo 2283 da Voepass, ocorrido em 9 de agosto de 2024, que resultou na morte dos 62 ocupantes da aeronave, entram em fase final. O inquérito da Polícia Federal deverá ser concluído até o final deste mês, conforme informação da corporação.

Por sua vez, o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira (FAB), está atualmente em fase de revisão por autoridades internacionais, segundo dados do órgão.

De acordo com o advogado Luciano Katarinhuk, que representa as famílias afetadas, a expectativa é que haja indiciamento de pessoas que não estavam a bordo, mas que podem ser responsabilizadas pelo acidente.

O voo seguia de Cascavel para São Paulo e caiu em um condomínio em Vinhedo, interior paulista. Embora todas as pessoas a bordo tenham falecido, não houve vítimas em solo. Após o sinistro, a Voepass teve seu alvará de operador aéreo cassado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A reportagem contatou a Voepass e aguarda retorno. Anteriormente, em entrevista ao Estadão, a empresa informara que somente o relatório final do Cenipa poderá elucidar, de maneira conclusiva, as causas do acidente.

Na terça-feira, 30, representantes das famílias das vítimas do quinto acidente aéreo mais fatal da história do Brasil tiveram acesso à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave antes da tragédia. Conforme declarou Fátima Albuquerque, presidente da associação das famílias das vítimas, os familiares estavam emocionados e decidiram não ouvir os áudios.

O delegado da Polícia Federal optou por apresentar apenas as transcrições. "O laudo pericial tem mais de 200 páginas e foi mostrado em primeira mão aos familiares, como a PF havia prometido. O que se confirmou é que haverá indiciamentos, ou seja, a responsabilização de pessoas criminalmente pelo que ocorreu", afirmou o advogado ao Estadão.

Segundo o defensor, o avião não deveria estar voando. "Todos os responsáveis que mantiveram esse avião em operação devem ser responsabilizados, pois deveriam ter impedido a decolagem. Se o piloto cometeu erros, ele pagou com a vida, mas há outros culpados também."

Conforme o advogado, o laudo pericial revelou elementos importantes, que não podem ser divulgados devido ao segredo do inquérito. Pessoas que já foram ouvidas como informantes agora prestarão depoimento como indiciadas. "Houve uma sequência de fatores que culminaram no acidente e espero que a culpa não seja transferida para aqueles que perderam a vida", declarou.

Fátima, presidente da associação, afirma ao Estadão que saiu da reunião mais confiante de que os responsáveis serão punidos. "Nosso objetivo é que as pessoas sejam indiciadas, especialmente aquelas que comandaram a equipe que levou à morte de nossos entes queridos. Nossos familiares não voltarão, mas é fundamental que haja uma consciência social para que comportamentos desse tipo cessem no País."

Fátima é mãe da médica Arianne Albuquerque, que estava a bordo do voo. "Era minha filha única, minha vida. Quase dois anos depois, ainda estamos aqui dilacerados, apenas esperando por justiça. O avião não quebrou naquela viagem, já estava quebrado. Não foi uma fatalidade", desabafou.

Para Fátima, foi provado que o sistema de degelo da aeronave não funcionava e que havia previsão de chuva e frio durante a viagem. "Aquele avião não deveria ter decolado. É uma questão de intenção, de não realizar a manutenção, não registrar o erro, expondo a tripulação a uma situação de risco que custou inúmeras vidas", finalizou.

Famílias lutam agora pela responsabilização criminal e administrativa

Na esfera civil, a maioria das ações individuais já progrediu para acordos com as empresas implicadas. As famílias agora buscam a responsabilização criminal e administrativa dos supostos envolvidos. Os nomes das pessoas que possivelmente serão indiciadas não foram revelados.

Fátima informou que os familiares planejam realizar uma cerimônia em memória dos falecidos, mas está sendo difícil para todos, pois a dor permanece muito intensa. "Todos estão muito revoltados. Perdi minha única filha, uma médica excepcional. Inclusive, os pacientes editaram um livro em homenagem a ela, e quem o lê fica emocionado. A maioria das vítimas era jovem e tinha uma vida inteira pela frente."

Ela relata que a associação conta com quase 50 mães, mas algumas não participam devido à dor profunda. "Há mães com depressão, um casal que não sai do quarto. Uma mãe já faleceu, não suportou a dor. Para nós, todos os dias parece que o avião cai novamente, todos os dias estamos perdendo nossos filhos. Só nos resta esperar por justiça", concluiu.

Como foi o acidente em 2024

No início da tarde do dia 9 de agosto de 2024, o avião ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, interior de São Paulo, resultando na morte de 62 pessoas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná. Todos os quatro tripulantes e 58 passageiros faleceram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em um condomínio. Vários corpos ficaram carbonizados.

A aeronave despencou de 13 mil pés (4.000 metros) em apenas dois minutos. Durante o incidente, o registro de voo do Flight Radar indicou que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4.000 pés (1,22 km) às 13h22, momento em que o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de programado para pousar e atingiu casas do condomínio residencial.

O piloto do avião, Danilo Santos Romano, mencionou uma falha no sistema de degelo da aeronave. Essa informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa no dia 6 de setembro daquele ano.

Foram registrados também alertas de Cruise Speed Low (baixa velocidade de cruzeiro) e, posteriormente, Degraded Performance (performance degradada) — condição em que o avião enfrenta situações que diminuem sua capacidade de voo, visto que o acúmulo de gelo compromete a sustentação da aeronave.

Em nota, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Cenipa, divulgou que a investigação do acidente envolvendo a aeronave de matrícula PS-VPB, ocorrido em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), se encontra em fase avançada, atualmente na etapa de revisão final, conforme os protocolos internacionais aplicáveis.

Nessa fase, o documento é submetido à apreciação dos Representantes Acreditados do Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, na condição de Estado de Projeto e Fabricação da aeronave, e do Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, na condição de Estado de Projeto e Fabricação dos motores.

O Cenipa esclarece que não há prazo definido para a conclusão das investigações e reitera que se pronunciará oficialmente sobre os resultados por meio da publicação do Relatório Final, conforme prevê o Código Brasileiro de Aeronáutica.

Assim que a investigação for concluída, o Relatório Final Sipaer será disponibilizado no site do Cenipa, com acesso público.