Geral
Como o PCC, nascido em SP, virou alvo de Donald Trump
Organização criminosa evolui e se expandiu para outros continentes
O Departamento do Tesouro americano classificou a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) como "a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental" em um documento publicado na quarta-feira, 1º.
O comunicado destaca: "O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos EUA, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente".
Segundo o governo americano, o PCC explorava o sistema financeiro dos EUA para lavar dinheiro do tráfico de drogas. A organização representa uma ameaça crescente à segurança nacional devido à sua atuação na lavagem de dinheiro, no tráfico de drogas e no contrabando de dinheiro em espécie.
Fundação: disputas sangrentas em Taubaté com Cesinha e Geleião
O Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba. O local, conhecido como "Piranhão", era considerado pelos presos da época como uma espécie de castigo, em razão das condições precárias e de brigas frequentes entre os detentos. O Massacre do Carandiru, que resultou na morte de 111 presos na zona norte de São Paulo em 1992, aumentou ainda mais a tensão no presídio.
A primeira demonstração de força viria em um campeonato de futebol. Era 31 de agosto de 1993, no que seria apenas mais uma partida da competição, quando oito detentos emboscaram dois presos considerados rivais (Baiano Severo e Garcia) em uma quadra. A carnificina foi encabeçada por nomes como Geleião e Cesinha. Estava fundado o Primeiro Comando da Capital.
Na primeira década após sua fundação, o PCC foi marcado por uma ofensiva até mais explícita contra o Estado, influenciada por nomes como Cesinha, Sombra e Geleião.
Expansão: irmandades secretas sob o comando de Marcola
Com a ascensão de Marcola, o PCC passou a ter um caráter mais próximo ao de "irmandades secretas", com uma regulação mais estruturada das atividades criminosas e proibições expressas para quem ingressasse na facção. Em contrapartida, foram providos benefícios e proteção aos presos. Essa segunda fase foi decisiva para consolidar a organização como a principal força do narcotráfico do País.
Transcontinental: cocaína parte de Santos para o mundo com André do Rap e Fuminho
A organização passou a focar na ampliação de sua presença no cenário internacional. A mudança ocorreu em resposta a condenações de lideranças históricas, transferências de nomes influentes para presídios federais e novas medidas adotadas pelas autoridades para dificultar a comunicação dos detentos - o celular teve papel central na expansão do PCC no início dos anos 2000.
Nos últimos anos, as autoridades têm buscado sufocar financeiramente a organização. Histórias recentes demonstram como o PCC tem se reconfigurado. Nomes como André do Rap, Fuminho e Cabelo Duro, influentes na Baixada Santista, sobressaíram na organização e acumulavam riquezas a partir do crime. Em 2018, Gegê do Mangue, uma das principais lideranças do PCC, desconfiou das ações do trio e proibiu que a estrutura da facção fosse utilizada para fins particulares.
Gegê foi assassinado em uma suposta emboscada em território indígena em Aquiraz, no Ceará. Uma semana depois, Cabelo Duro também foi morto - ele havia sido apontado como o assassino a mando de Fuminho. A revelação abalou a organização, uma vez que Gegê era batizado como "irmão", enquanto Fuminho não era, o que significa que ele não poderia ter ordenado a execução de Gegê sem o aval da "Sintonia Final", a cúpula mais alta do PCC.
Assassinato de delator e ex-delegado-geral de SP
Uma das maiores demonstrações recentes do poder bélico do crime organizado foi a execução de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do PCC, morto a tiros de fuzil em novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
Investiga-se que ele estava colaborando com o Ministério Público do Estado (MP-SP) em uma das principais investigações contra o crime organizado. O ataque também resultou na morte do motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, alvejado nas costas dentro do terminal.
As investigações revelaram o nível de envolvimento das forças de segurança no crime organizado. O soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins são apontados como os atiradores, enquanto o tenente Fernando Genauro da Silva é acusado de conduzir a dupla até o aeroporto.
Presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, eles são acusados de dois homicídios qualificados e duas tentativas de homicídio. Ao todo, os PMs podem enfrentar um mínimo de 51 anos de prisão, sendo 21 apenas pelo assassinato de Gritzbach.
O PCC também é considerado pelo Ministério Público de SP como mandante do assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, conhecido por sua atuação contra a facção. Em 2006, ele indiciou toda a cúpula do PCC, incluindo Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. O crime foi ordenado pelo alto escalão do PCC como vingança, segundo o MP.
2 mil soldados e atuação em 28 países
Conforme reportagem do Estadão, publicada em junho de 2025, o PCC possui mais de 2 mil "soldados" distribuídos por pelo menos 28 países, além do Brasil, de acordo com mapeamento do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). Na Europa, a maior quantidade de membros da facção criminosa está em Portugal, onde há 87 criminosos registrados, segundo o levantamento.
O segundo país com mais integrantes é a Espanha, com 26, seguida pela França, com 11. A Holanda, Irlanda e Itália possuem 3 criminosos cada, e a Bélgica, Inglaterra e Suíça têm 2 cada. A Alemanha, Sérvia e Turquia possuem 1 "soldado" do PCC cada.
No mundo, as maiores concentrações de "soldados" do PCC, depois do Brasil, estão em países da América do Sul. Segundo o levantamento de final de 2023, o Paraguai reunia 699 integrantes da facção, enquanto a Venezuela tinha 656 e a Bolívia contava com 146 membros.
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