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Polarização e protestos: que cenários surgem após o apelo à 'desobediência civil' na Colômbia?

Sputnik Brasil 01/07/2026
Polarização e protestos: que cenários surgem após o apelo à 'desobediência civil' na Colômbia?
Foto: © AP Photo / Matias Delacroix

O apelo de Iván Cepeda à "desobediência civil" levará a polarização política ao limite e promete dificultar a governança do presidente eleito Abelardo de la Espriella, disseram especialistas à Sputnik. Analistas acreditam que o apelo de Cepeda pode levar a protestos de rua que podem escalar para violência.

O ex-candidato à presidência da Colômbia anunciou que embarcará em um caminho de "desobediência civil pacífica" e não reconhecerá o governo do futuro presidente a menos que ele renuncie à sua cidadania norte-americana e esclareça se pertence a "alguma agência de segurança dos EUA".

"Se essas condições legais não forem atendidas, como líder da oposição e candidato que recebeu mais de 12 milhões de votos na eleição, não me submeterei a essa violação da nossa soberania e embarcarei no caminho da desobediência civil pacífica", afirmou Cepeda em seu discurso.

O líder do Pacto Histórico acrescentou que sua decisão "implica não reconhecer a autoridade de quem não responde à defesa da soberania nacional".

Um possível cenário

Em diálogo com a Sputnik, o analista político e acadêmico Juan Lozano, da Universidade Nacional da Colômbia (UNAL), afirmou que o apelo de Cepeda "aprofunda ainda mais a polarização que o país vivencia atualmente", alimentada nos últimos dias por acusações do presidente eleito sobre supostos atos de corrupção cometidos pelo governo de Gustavo Petro, que poderiam ser expostos durante o período de transição presidencial.

Segundo o especialista, a situação se torna ainda mais tensa considerando que as exigências feitas por Cepeda "provavelmente não serão atendidas" por De la Espriella, tanto em relação à renúncia de sua cidadania norte-americana quanto ao esclarecimento de seus vínculos com agências de segurança norte-americanas como a Administração de Repressão às Drogas (DEA, na sigla em inglês) e a CIA, bem como sua relação com o empresário venezuelano e ex-diplomata Alex Saab.

Consultado também pela Sputnik, o analista político Felipe Mendoza alertou que o apelo de Cepeda, embora possa ser interpretado como uma defesa da esquerda colombiana contra a ameaça de acusações da futura administração, representa um passo em direção à "transgressão da esfera pública para o âmbito das ambições pessoais".

Ele acredita, portanto, que essa nova postura também pode posicionar Cepeda como o novo líder da oposição colombiana, posição que provavelmente terá que disputar com o próprio presidente Gustavo Petro quando deixar a Casa de Nariño (palácio presidencial).

"Acredito que a reação de Cepeda, sua mudança de posição em relação aos resultados das eleições, define o tom do que a Colômbia vivenciará nos próximos quatro anos. Mas não se trata de ser a favor ou contra o presidente eleito, e sim de como isso afeta o clima de estabilidade institucional na Colômbia", afirmou o analista.

Lozano, por sua vez, considerou provável que o apelo à "desobediência civil pacífica" possa encontrar eco em diversos setores da esquerda colombiana, como sindicatos e grupos estudantis que já propunham "não reconhecer plenamente" a vitória de De la Espriella ou, pelo menos, não facilitar a governança do novo presidente.

Segundo o especialista, nesse cenário, o apelo de Cepeda provavelmente se traduzirá em "manifestações de bairro, organizações civis nas ruas e atos simbólicos de não aceitação do presidente".

Um cenário de violência?

Lozano esclareceu que isso certamente gerará um confronto entre o Estado, representado por De la Espriella, e a oposição, que nas últimas eleições obteve o apoio de metade do país, mas que não conseguirá bloquear as iniciativas do governo no Congresso. A resposta do Estado, previu ele, poderá ser violenta, resultando em um cenário de confrontos nas ruas da Colômbia.

"O convite de Cepeda é para o exercício da oposição pacífica, mas o problema é que, mesmo que um líder político convoque a mobilização pacífica, é difícil para as pessoas de fato o fazerem, especialmente quando pode haver uma força policial que incita a violência", argumentou o acadêmico.

Para Lozano, a retórica cada vez mais violenta vinda do novo governo e a resistência que começa a se organizar na esquerda colombiana sugerem que "o que acontecerá é uma escalada das tensões entre os dois lados, e que isso terá um impacto significativo nas ruas".

Mendoza, por sua vez, alertou que "a Colômbia é um país violento por natureza" e que, após um histórico de violência política entre as sucessivas facções políticas que disputaram o controle do país, "a tolerância diminuiu significativamente desde a última eleição".

Por essa razão, o analista questionou a posição adotada por Cepeda, apontando que "qualquer apelo à desobediência e ao desrespeito à Constituição constitui um ato de irresponsabilidade política para com a nossa identidade como nação".

Assim, o cientista político considerou que esse cenário político poderia levar a "confrontos, radicalismo e intolerância entre os colombianos nos próximos quatro anos".


Por Sputinik Brasil