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Apoio à Ucrânia agrava crise no Reino Unido, afirma especialista

Analista aponta que gastos com Kiev, efeitos do Brexit e dificuldades econômicas ampliam o desgaste político britânico.

Sputnik Brasil 30/06/2026
Apoio à Ucrânia agrava crise no Reino Unido, afirma especialista
Apoio britânico à Ucrânia é apontado como fator de desgaste político no Reino Unido. - Foto: © AP Photo / Kin Cheung

A recente renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro aprofunda a crise estrutural de governabilidade no Reino Unido. O país enfrenta forte instabilidade política, com impactos severos na economia e reflexos em diferentes setores da sociedade, do campo social a áreas estratégicas, como a Defesa.

Mesmo diante dos problemas internos, Londres permanece entre os principais financiadores de Kiev no conflito contra a Rússia. Para o doutorando em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Pedro Martins, a manutenção desse apoio, sem avanços significativos das tropas ucranianas no campo de batalha, amplia o distanciamento entre o governo britânico e a população.

“Fundamentalmente, é o dinheiro do contribuinte que está indo para a Ucrânia. Então, um cidadão com dificuldade para fechar suas contas vê que o dinheiro do imposto indo para financiar outro país é politicamente ruim e há essa pressão social. Só que a elite política britânica ainda é muito atrelada àquele pensamento anterior da integração europeia, da aliança euroatlântica. Portanto, há um descasamento dessa elite, que não consegue entender os anseios da população”, afirmou o especialista, em entrevista à Sputnik Brasil.

Segundo Martins, o apoio britânico ao governo de Volodymyr Zelensky também está associado a uma tentativa de “keynesianismo militar”, com investimentos na indústria de defesa para estimular a economia. Na avaliação dele, a estratégia não produziu os efeitos esperados. O analista também cita uma postura antirrussa por parte das elites políticas britânicas, em contraste com as preocupações do cidadão comum.

“O apoio à Ucrânia foi usado politicamente tanto por causa dessa questão histórica antirrussa do establishment político britânico, mas também como uma forma de estimular a economia, com o keynesianismo militar. Só que isso está demorando muito tempo e não está dando os efeitos esperados. Então, o problema que já existia está sendo agravado. Isso também é um custo econômico muito alto”, comentou.

Saída do Brexit e os impactos na política britânica

O pesquisador ressalta que o Brexit — referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) — foi decisivo para enfraquecer a economia sob a tutela de Westminster. Para ele, o processo representou uma reação de determinados setores da sociedade britânica aos efeitos da globalização.

“Entre 1900 até o Brexit, em 2020, o Reino Unido teve sete primeiros-ministros e, do Brexit para cá, teve outros sete. Isso é um pouco fruto da globalização, que, como qualquer disputa econômica, há ganhadores e perdedores, e muitos dos grupos perdedores, como os fazendeiros do interior da Inglaterra, foram prejudicados, e essas pessoas associaram a UE à globalização e a toda a campanha contra imigrantes”, destacou.

Embora o Reino Unido seja um Estado unitário formado por Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales, há fortes tensões internas. O caso escocês é um dos mais evidentes: a Escócia rejeitou a independência em referendo com o argumento de permanecer na União Europeia, mas acabou retirada do bloco anos depois, após o Brexit. Para Martins, o episódio mostra como os interesses ingleses tendem a prevalecer sobre a vontade das demais nações que compõem o Reino Unido.

“Antes do Brexit, teve o referendo da separação da Escócia, e o argumento que o Reino Unido usou na época era de que não iria apoiar a entrada dos escoceses na UE. Tudo isso para, simplesmente, depois o Reino Unido sair da UE. Isso acaba sendo uma crise inglesa, mas, como a Inglaterra é o Estado mais importante do Reino Unido, isso acaba contaminando os outros países, que têm autonomia, mas estão sempre subordinados a Londres”, observou.

Economia em crise deixa o cenário político em xeque

No caso britânico, o ambiente de incerteza afeta tanto a credibilidade do governo quanto outras áreas da sociedade. O especialista enfatiza que a dinâmica política é fortemente condicionada pelo desempenho econômico.

“Quando a economia falha, a política vai pagar o preço. O comportamento do eleitor é dependente do comportamento da economia. Também houve uma coisa que foi exposta antes de Starmer renunciar: o seu ministro da Defesa, John Healey, renunciou, dizendo que é um absurdo o contingenciamento em sua pasta. Mas a gente sabe que a questão política está mais acima do que uma questão orçamentária”, concluiu.

Com as tensões políticas expostas no cenário internacional, o Reino Unido fica em posição vulnerável, inclusive diante de aliados tradicionais. A crise econômica, além de ampliar a insatisfação interna, pode fortalecer movimentos políticos capazes de alterar a configuração do bloco britânico e influenciar os rumos da Câmara dos Comuns.

Por Sputnik Brasil