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Presidente do Equador decreta novo estado de exceção: para analistas medida é ineficaz no longo prazo

Sputnik Brasil 27/06/2026
Presidente do Equador decreta novo estado de exceção: para analistas medida é ineficaz no longo prazo
Foto: © AP Photo / Dolores Ochoa

O presidente do Equador, Daniel Noboa, decretou nesta semana um novo estado de exceção, tendo como principal medida a autorização para o envio de forças estrangeiras ao território nacional.

O governo justificou a decisão pela pressão exercida pelo narcotráfico, que, segundo relatórios oficiais, utiliza o país como um centro logístico estratégico.

No entanto, os índices de violência e a permanência dos grupos criminosos sugerem que, como apontam os especialistas em segurança ouvidos pela Sputnik Brasil, exigem medias estruturantes e não emergenciais.

Para Leonardo Jaramillo, internacionalista e analista de segurança nacional, esse tipo de medida costuma ser um paliativo temporário, e não uma solução estrutural.

"O que os estados de exceção fazem é criar um momento muito específico em que determinadas atividades podem ser realizadas. Mas, no fim das contas, em termos do que realmente é eficaz no combate ao narcotráfico ou ao crime organizado, o que funciona são políticas sustentadas de longo prazo", explicou Jaramillo à Sputnik.

Na mesma linha, Jean Paul Pinto, especialista em segurança e estudos prospectivos, demonstra ainda mais ceticismo.

"Não existe nenhuma evidência que demonstre que esse estado de exceção seja eficaz."

Um dos pontos mais polêmicos do decreto é a abertura para a presença de forças militares estrangeiras. Enquanto Jaramillo considera que o impacto sobre a soberania dependerá da negociação de cada acordo específico, Pinto alerta para os riscos éticos e operacionais dessa decisão.

"Na prática, o que estamos fazendo é abrir as portas para o paramilitarismo no Equador, para grupos de autodefesa, grupos armados privados e a atuação de mercenários, sobretudo quando envolvemos civis. Isso significa que vamos aceitar a presença de mercenários para travar a guerra em nosso lugar", concluiu Pinto.

Jaramillo afirma que não se trata de uma entrega total da soberania, mas a medida exige cautela:

"O aspecto que realmente pode ser um pouco mais preocupante tem a ver com a prestação de contas, isto é, quais serão de fato os limites de atuação dessas forças, algo que dependerá basicamente de cada negociação individual."

Guerra perdida?

O governo sustenta que a cooperação internacional é essencial para enfrentar o crime transnacional. Nos cinco primeiros meses de 2026 foram capturados dois alvos estratégicos segundo as autoridades, e em uma única semana o desmantelamento de 52 células criminosas em todo o país, por meio de 381 prisões.

Embora o Executivo tenha destacado esses números como uma melhora na gestão da segurança, órgãos de fiscalização e analistas ressaltam que os desafios estruturais persistem, especialmente no que diz respeito à atuação do crime organizado, ao controle das áreas de fronteira e às disparidades nos índices de violência registrados entre as diferentes províncias.

"No caso dos Estados Unidos, por exemplo, eles buscam reafirmar esse papel bastante hegemônico. Washington tem uma agenda de segurança extremamente importante, na qual o controle das drogas, das substâncias ilícitas e dos grupos criminosos é uma prioridade. Nesse sentido, as agendas são compatíveis", compara Jaramillo.

No entanto, Pinto considera que essas políticas ignoram a raiz do problema e a dinâmica global do mercado de drogas.

"Pode-se dizer que essa guerra está perdida há muito tempo. Os americanos sabem disso, mas continuam financiando essas ações. Na prática, o que estamos fazendo não vai resolver os problemas de insegurança e violência que enfrentamos. Além disso, os países mais ricos não têm interesse no fim do narcotráfico, porque é justamente onde ocorre a maior parte da lavagem de dinheiro", afirma.

Para além do envio de tropas estrangeiras, os especialistas concordam que, sem combater a infiltração do crime nas instituições do Estado e enfrentar as causas socioeconômicas do narcotráfico, a presença de forças estrangeiras será insuficiente para resolver o problema.

Os analistas concluem que a eficácia da presença de forças estrangeiras não dependerá do poder militar empregado no país, mas da capacidade do Estado equatoriano de depurar suas próprias instituições e construir uma política de segurança baseada no controle soberano do território e em inteligência estratégica.


Por Sputinik Brasil